O OLHAR DO CIPÓ E A INSPIRAÇÃO QUE VEM DOS TERREIROS DE CANDOMBLÉ
Entrevista cedida ao portal AFREAKA, em fevereiro de 2016.
Entrevista cedida ao portal AFREAKA, em fevereiro de 2016.
por Kauê Vieira

O Brasil é o país com a maior comunidade de negros
e negras fora do continente africano no mundo. De acordo com dados do Censo,
cerca de 51% dos brasileiros se declararam negros e Salvador (BA) é o local
onde vivem mais negros fora da África, são 51% da população, ou cerca de 1,3
milhões de pessoas. Diante da expressividade dos números e mesmo com setores da
sociedade trabalhando pela não preservação do cordão que liga o Brasil com o
continente africano, são muitos os espaços e pessoas atuando na direção contrária
e em busca de referências que, além preservarem a relação entre os dois lados
do Atlântico, são peças importantes na formação de uma nova geração de negros e
negras brasileiras.
Nesse sentido o candomblé, religião de origem
africana e que se inseriu no Brasil a partir da chegada de africanos
escravizados, se coloca como importante local de resistência, preservação e
difusão da cultura africana – seja na língua, especialmente o iorubá ou nas
comidas, a África está viva nos barracões. Pois foi vivendo em um dos muitos
terreiros espalhados pelo Brasil que o paulista Roger Cipó, candomblecista de
24 anos, atuante nas áreas de fotografia, pesquisa, educação social e militante
contra os crimes de intolerância religiosa e racismo, começou a entender o que
significa ser negro.
O candomblé, religião de origem
africana e que se inseriu no Brasil a partir da chegada de africanos
escravizados, se coloca como importante local de resistência, preservação e
difusão da cultura africana. (Foto: Roger Cipó/Divulgação)
Há 10 anos adepto da religião, Roger Cipó (apelido
adquirido durante os tempos em que dava aula de capoeira), usa as lentes das
câmeras fotográficas como forma de documentar o culto e respeito aos orixás,
além de dividir com o público o que lhe é permitido sobre a rotina das casas de
axé, iniciativa que contribui na luta contra o racismo e a desinformação,
ingredientes formadores da intolerância religiosa que persegue o candomblé há
décadas. Intolerância esta que também esteve presente em sua vida.
“No final da adolescência, eu já dava aulas de
capoeira. Cantava cantigas com nomes de Orixás, tocava atabaques, mas era
distante e averso à religiosidade. Acreditava mesmo que não era coisa boa e
preferia a distância. Era um intolerante por osmose, porque não conhecia nada
sobre candomblé, mas repudiava. A contradição entre o não contato e os arrepios
na pele quando os nomes dos orixás eram entoados nas cantigas passou a me
incomodar. O contato com uma família de alunos candomblecistas me ascendeu a dúvida:
“como pode pessoas tão legais serem da macumba?”. Não demorou muito, e eu fui
conhecer o terreiro. A melhor escolha que já fiz. E o melhor tapa na cara
que se pode tomar, pois rapidamente foi se desconstruindo todos os estereótipos
preconceituosos que me foram ensinados. A oportunidade de estar lá, ver com os
próprios olhos, sentir na pele a energia, se emocionar com as relações de
cuidado e atenção com o outro e com as divindades, logo me ganharam. Já fazem
10 anos e ainda hoje lembro com muito respeito das cores, do cheiro do
ambiente, da energia que me acolheu com tanto respeito,” pontua.
(Foto: Roger Cipó/Divulgação)
Com a conscientização e um conhecimento melhor
sobre a religião e seus significados, Roger foi aos poucos se tornando uma voz
que usa a arte como caminho de inspiração e quebra de preconceitos. O paulista
explica que a fotografia precisa, mais do que documentar, registrar a vida nos
terreiros com o intuito de combater o racismo religioso. Para Roger Cipó é
fundamental que haja mais respeito por parte dos fotógrafos ao invés de uma
visão colonialista, em busca de desvendar mistérios.
Há 10 anos adepto da religião,
Roger Cipó (apelido adquirido durante os tempos em que dava aula de capoeira),
usa as lentes das câmeras fotográficas como forma de documentar o culto e
respeito aos orixás. (Foto: Roger Cipó/Divulgação)
“Me proponho a compartilhar imagens que dialoguem e
traduzam por si só o que candomblé é, em essência: uma “religação” com a
ancestralidade africana, em sintonia com a natureza, para o cuidado, acolhimento
e respeito ao outro. Vivendo candomblé, entendi que documentar era muito pouco,
e é. Muitos são os documentaristas que produzem trabalhos incríveis, no campo
visual, sobre terreiros. Quase sempre com olhares colonizadores que pretendem
investigar os “mistérios” de uma religião exótica. Não é isso que o candomblé
precisa! Não somos exóticos, e nem nossas divindades reais são. Poucos
são os que se comprometem a compartilhar e registrar imagens que
dialoguem, que motivem, e sensibilizem a partir da verdadeira imagem de
terreiro. É preciso que nós, enquanto profissionais da imagem usemos nossas
ferramentas também como instrumento de combate ao racismo religioso.
(Foto: Roger Cipó/Divulgação)
Sinto que o objetivo é alcançado quando uma pessoa
que, assim como eu, teve uma educação pró intolerância, se encanta com a
fotografia e se sente convidada a conhecer mais sobre candomblé. Sinto que o
objetivo vai sendo alcançado quando vejo brilho nos olhos da criança que contra
vontade dos pais, para para admirar uma foto de Orixá. E sentir que, aos
poucos, esse trabalho ajuda a desconstruir imagens deturpadas e constrói
imagens mais fiéis à realidade dos terreiros, na consciência das pessoas, me dá
forças para continuar”, conta.
As mobilizações são importantes
porque acordam, ou pelo menos incomodam a sociedade para os retrocessos e
cerceamento de direitos que temos vivido. (Foto:
Roger Cipó/Divulgação)
Ativista dentro e fora dos Ilês (casa em iorubá),
Roger Cipó foi dos organizadores de uma passeata na Avenida Paulista, em São
Paulo, pelo fim da intolerância religiosa. O evento reuniu milhares de adeptos
do candomblé e, segundo o fotógrafo, serviu para ir contra o retrocesso de
parte da sociedade.
(Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa 2016 - Avenida Paulista. Créditos: Jornalistas Livres)
Vídeo do Jornalistas Livres, sobre o Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa
“ "O ano de 2015 foi extremamente violento para as
comunidades de terreiro: crianças foram apedrejadas, terreiros queimados,
sacerdotisas foram assassinadas, vítimas do terrorismo religioso brasileiro. Ir
às ruas e denunciar esse tipo de crueldade, era o mínimo a ser feito, e fizemos
com muita força e esforços de gente que está cansada de tanta violência. As
mobilizações são importantes porque acordam, ou pelo menos incomodam a
sociedade para os retrocessos e cerceamento de direitos que temos vivido. Tomar
as ruas é fazer pressão e insistir na luta por direitos, pois é importante que
nos façamos vistos e ativos na luta por igualdade.”
Resistência, ativismo e inspiração, é com este
alicerce que Roger Cipó trilha seu caminho de preservação da memória e cultura
dos terreiros e de luta contra o racismo e intolerância religiosa. Que os
caminhos continuem abertos por Exu e tudo seja levado pela justiça de Xangô!
“Os terreiros não são só espaços de resistência. São espaços de educação política, social, artística e cultural afro-diaspórico. Quem se reencontra e se permite nascer para o candomblé, renasce para a Africanidade adormecida pelo racismo.”
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