Quando nada vai bem, a sorte te vira as costas e o azar ri
da sua cara, o que você pensa?
Eu estava na sala de reunião, quando uma colega começou
relatar seus problemas e finalizou: "parece que é macumba... só pode!"
Parei, pensei e entendi que, por melhor instruída que é,
minha colega traz em sua educação um vocabulário intolerante que nem ela mesmo
percebe. Consciente, ou não, reproduz um comportamento de intolerância
religiosa, e precisamos falar sobre
isso.
Engana-se quem pensa que Intolerância Religiosa é só a
violência física, verbal ou psicológica contra a crença de alguém. Se eu puder listar, diria que a explosão em violência é o cume da agressão, e se não
quisermos chegar ao extremo, preciso entender que, até agora, só falamos da
ponta do iceberg. Obvio que a violência declarada choca (ou não) e nos coloca
em movimento. Mas e a violência naturalizada?
O antropólogo e professor congolês naturalizado brasileiro, Kabengele Munanga afirma que o "Racismo no Brasil é um crime Perfeito".
Inspirado nessa afirmação, o antropólogo Gill Sampaio Ominirò diz que a intolerância religiosa também é um crime perfeito (artigo 208 do Código Penal Brasileiro), "pois é possível ser
intolerante com um olhar". Quantos de nós, adeptos do Candomblé ou Umbanda
, não somos mal olhados ao chegar em um espaço público vestido de branco e/ou
ostentando fios de contas? Já no olhar, identificamos a aversão aos nossos
símbolos e é como se ouvíssemos o xingar saltar os olhos, mesmo que o agressor
mantenha a boca fechada. Sutilmente, a intolerância religiosa está presente no
pensamento, postura e simples ações.
Assim, a demonização da crença, ritos e símbolos de nossa
cultura religiosa se faz também em simples palavras. Como disse, minha amiga
atribui-se a má sorte à uma possível macumba feita. Sua fala relaciona as
coisas ruins acontecidas em rituais da Umbanda e Candomblé. Mesmo conhecendo o
verdadeiro significado da palavra "macumba", sabemos que se trata de
uma expressão socialmente intolerante.
Quem nunca ouvir alguém dizer que a criança, ou o amigo
agitado está com Exú no corpo, ou é um Exú? "É aquela pessoa chata que 'exuriza'
sua vida". E já ouviu dizer que iria no terreiro só para "bater
um tambor" e afastar alguém?
Há os clássicos de fim de ano: "Tão ruim, que nem Iemanjá aceita", ou até mesmo "volta para o mar, oferenda", ou o corriqueiro: "tinha que ser macumbeir@"
No combate ao racismo, atentamos para a importância de
descolonizar o vocabulário. Pois desde a infância,nos foram ensinadas palavras e expressões com significados ou criações racistas
que parecem inofensivas, mas que, em uso só fazem manter estruturas e comportamentos
racistas: Mulata, Denegrir, Dia de Preto, da Cor do Pecado, Nasceu com o Pé na
Cozinha, entre outras... A lista é grande, e representa uma educação opressora,
herdada do regime de escravidão.
Seguir uma linha de pensamento não ofensivo, cuja base seja o respeito e não se utilizar de palavras e expressões intolerantes é também caminho para se combater a violência contra as religiões de matriz africana ou outros seguimentos que sofrem perseguição ideológica.
É importante se reeducar para não reproduzir o preconceito embutido no inconsciente coletivo da sociedade, quebrar este ciclo vicioso de continuidade no uso de piadas desnecessárias e ofensivas. Mais que isso, é importante o uso de expressões, frases e até "brincadeiras afirmativas", pelas quais seja possível desconstruir as estruturas de violência para construir pontes de respeito e de comunicação não-violenta.
Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved
Contruibuições: Gill Sampaio Ominirò, Prof. Sidnei Barreto Nogueira e Ogan Wenner Vivaz



