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18 de outubro de 2017

E os “brancos” do candomblé’?


 Texto de Yasmin Rodrigues, originalmente publicado em Flor de Dendê
 


A intolerância religiosa, nos últimos vinte anos, aparece como um fenômeno violento que se dirige às religiões africanas em diáspora no Brasil. A questão é que o termo “intolerância religiosa”, embora pareça aglutinador, tem se mostrado insuficiente para nomear a complexidade do sistema opressivo sobre as crenças originalmente negras do país. Digo isso porque acredito que é passada a hora de superar jargões e frases de efeito, já que podemos e devemos olhar para nós e para os fatos com a densidade que merecem. A terceira pessoa do plural refere-se aos religiosos, não só aos pesquisadores e estudantes, mas a todos aqueles interessados em refletir sobre esta prática, principalmente os que são identificados como os ‘brancos do candomblé’.

Poderia escrever este texto fazendo mea culpa sobre minha posição na hierarquia racial brasileira, e que me mantém longe do genocídio que mata pretos no país. Poderia também me declarar como mestiça (e é esse o argumento utilizado por muitas pessoas brancas que se ofendem nos espaços de discussão acadêmica ou política por serem brancas, não é verdade?), mas seria de grande desonestidade, já que, até hoje, minha cor jamais foi uma questão.

Seria desonesto porque, ainda que eu seja o resultado do processo de branqueamento – política pública em andamento há cerca de 150 anos no Brasil, que fez com que a concentração de melanina tendesse a diminuir das peles brasileiras – jamais saberei o que é discriminação racial. Veja, sou de uma família que há décadas vem branqueando e que reúne, do lado materno, até onde pudemos saber, prevalência negra e indígena e, do lado paterno, uma genealogia bem definida, que remonta várias gerações, até hoje conhecidas e constituídas no norte de Portugal.

Bem simbólico, não é? No entanto, minha avó materna, apesar de negar sua negritude, era vista e apontada como mulher negra. Há quem diga que minha mãe é pouca-tinta, mas eu sou incontestavelmente branca (aos olhos da polícia, principalmente). A questão é que o racismo, enquanto sistema estruturante das relações de poder no nosso país, atua pela marca, de modo que é a cor da pele o que define se a experiência será mais ou menos violenta por aqui.

Privilégios

Neste sentido, é preciso afirmar que componho parte da população que fala por si e não se vê como parte de uma raça. Ao meu ver, assumir este posicionamento ao falar sobre os ‘brancos do candomblé’ é o nosso maior desafio. Certamente, é possível fazer com que pessoas visivelmente brancas se reconheçam dessa forma e consigam expressar-se declaradamente a partir de sua posição de poder e privilégios. Entendo que só assim conseguiríamos deslocar o problema da dinâmica racial, considerando a posição privilegiada que ocupo neste cenário. Bem, não tenho certeza se estou apta a fazer esta provocação, no entanto, posso falar sobre meus pares e consigo compreender e acessar nuances da performance social de pessoas brancas, entre as quais, candomblecistas.

É fato que para alguns movimentos que discutem e demandam sobre os direitos dos negros e negras, embora não seja uma posição hegemônica desses movimentos e das disputas políticas que envolvem religiosidade, “brancos no candomblé são abomináveis” e “Não deveriam existir”. Esse é um discurso facilmente encontrado, principalmente nas redes sociais, espaço onde a doutrina religiosa não funciona ou não garante que a interação se dê sob as premissas estabelecidas nos terreiros.

Por outro lado, há diversos, ‘mais velhos’ e ‘mais novos’ que são socialmente identificados como ‘brancos do candomblé’. Alguns desses se destacam por serem assíduos defensores da religião (enquanto sistema de crença tradicional) e seus pares religiosos (enquanto pessoas) de ataques discriminatórios nas ruas, nas redes sociais e até dentro de suas famílias.

O fato é que, a partir do movimento de ataque do setor neopentecostal e de defesa do setor afrorreligioso, surgiram diversos grupos contra a intolerância religiosa e a favor dos direitos dos religiosos de matriz africana. Na esteira dessas disputas, militantes negros, em maioria, passaram a classificar a violência direcionada aos cultos afro como ‘racismo religioso’ no intuito de demarcar a origem da discriminação no racismo antinegro, indicando que as religiões sofrem represália por serem originalmente negras. Pois bem, o que venho tentando refletir e fico me perguntando: mesmo se tratando de “racismo religioso”, não é possível que estejamos escamoteando a noção de corpo? De quem é o corpo que sofre ‘racismo religioso’?

É aí que os ‘brancos do candomblé’ entram, levantando a mão junto com os negros e batendo o pé em dizer que é o corpo do ‘macumbeiro’ que sofre. Tenho cá minhas dúvidas. Penso que o ‘xis’ desta questão está em algo que para o Povo do Santo é simples: no candomblé, nossa noção de corpo se estende também às nossas insígnias sagradas.



Junção

Desse modo, a roupa de ração, os fios-de-conta, o contregun e todos os demais paramentos que indicam a qual religião pertencemos, são também sagrados e partes indissociáveis do nosso corpo – esses objetos se alimentam conosco, representam a nossa ligação direta com o Orixá e nascem conosco quando renascemos. No entanto, no momento da discriminação, são eles, os artefatos, e não o nosso corpo humano branco, os alvos da discriminação.

Vou dar um exemplo: às sextas, quando me visto de branco e coloco meu fio-de-conta no pescoço, é normal que o lugar ao meu lado no ônibus demore um pouco mais a ser ocupado do que nos outros dias. O fio-de-conta e a roupa branca – insígnias negras! -, causam medo. Mas eu posso tirá-los e aí, a sociedade me vê como inofensiva. No entanto, já há pesquisas no sentido de que pessoas negras (principalmente homens) costumam ficar sozinhas ou são a última escolha para dividir a viagem no transporte público. Nesse caso, como no primeiro, o que é negro causa medo, repulsa. Só que para quem é negro não há alternativa: não há como se despir de sua própria pele…

É por este motivo que quando penso na discussão sobre os ataques dos neopentecostais aos terreiros país à fora, não acho honesto que nós, ‘brancos de candomblé’, entremos à reboque em uma leitura séria sobre racismo de origem por causa da escolha religiosa que nos atravessa. A origem dos brancos, numa análise sobre as interações, não é africana, muito menos melanodérmica (e ancestralidade e mestiçagem não são questões colocadas aqui.

Trata-se do efeito que seu corpo causa em outro corpo quando se vêem e como o outro te enxerga. E, vamos combinar?, este ‘outro’ generalizado não enxerga o branco como originalmente perigoso).  E o racismo é antinegro. Antinegro. Pessoas brancas não sofrem racismo de qualquer tipo, sequer o religioso. E isso não é negar trajetórias brancas marcadas pela violência religiosa, mas admitir que esses corpos que nascem blindados, em algum momento, vestiram-se de vulnerabilidade quando colocaram sobre si símbolos tipicamente negros.

Os fios-de-conta, as roupas, o pano de cabeça são negros, são geneticamente (no sentido da gênese) negros. E não faz mal olhá-los assim, já que são vivos. Porém, penso que a reivindicação desleixada, feita por ‘brancos do candomblé’, por uma opressão que habita vidas brancas que acontece esporadicamente nos momentos de preceito religioso, tem feito muito mal ao enfrentamento da violência religiosa que todos estamos sofrendo.


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Yasmin Rodrigues, é Dofona de Yewa do Ile Axé Omilayo e graduanda em Ciências Sociais pelo IFCS/UFRJ.

Nas fotos: 1 - Yasmin durante seu preceito. 2 - Detalhe de Yasmin e sua Iyalorisá, Sidnéia de Igbu, durante sua saída de yawo. Creditos: Roger Cipó - Olhar de um Cipó. Todos os direitos reservados

31 de janeiro de 2017

Terreiro de Mãe Corina sofre com perseguição religiosa e abusos da Guarda Municipal de Diadema



 Imagine o quão violento é para uma sacerdotisa de quase 90 anos ter seu terreiro interrompido por quem deveria proteger seu direito de fé. 

Um dos templos de umbanda mais antigo de Diadema, o Terreiro Vó Maria de Aruanda, fundado e conduzido por Mãe Corina, tem vivido dias assustadores desde o último 14 de janeiro, quando a festividade foi interrompida pela guarda municipal que ao invadir o terreiro ordenou que fossem encerrada a cerimônia, por volta das 21h. A rua foi tomada por viaturas que adentraram o pequeno terreiro, na região central da cidade, alegando que o templo infringia a , popularmente conhecida, lei do psiu.
"Eles não deixaram a gente tocar, anotaram todos as placas de carros para dar multa. Falaram que a gente estava tocando acima do decibéis e que a houve denúncias". Explicou Dani Amorim, filha de santo da casa que completou: "Minha avó tomou um grande susto, porque a gente estava no meio da festa, os orixás 'em terra', e as pessoas tiveram que sair correndo..."

Há mais de 60 anos, Mãe Corina mantém suas portas abertas para a prática da umbanda sagrada. Conhecida e respeitada por toda comunidade do entorno e pelas centenas de terreiros de Diadema, aos 86 anos de idade, a mãe de santo se assustou com a forma violenta e arbitrária com que a guarda municipal exigia o silenciamento de seus atabaques. Recentemente, ela atravessou um grave problema de saúde, ficando impossibilitada de andar por quase um ano, a melhora aconteceu graças à Iemanjá, seu orixá e aos guias de luz do terreiro.

"Eu também estou com medo porque ontem (30/01) nós estávamos decorando o terreiro, em silêncio, em respeito aos orixás. A gente vai fazer a festa de Iemanjá em agradecimento a saúde da minha avó. Minha avó ficou um ano sem andar, e hoje ela já está andando e 'trabalhando' com o caboclo dela, mas ontem parou GCM na frente da nossa casa de santo, e ficaram anotando um monte de coisas. Eu me senti ameaçada, porque eu precisava ir embora por volta da meia noite e dá medo de sair na rua de branco". contou Dani Amorim



Em tom de ameaça, os guardas municipais são enfáticos ao dizerem que o problema é com o barulho dos tambores do Terreiro de Vó Maria de Aruanda e qualquer que seja o horário, se os tambores tocarem e a vizinhança acionar a GCM, o culto será interrompido, o que explicita que a atuação do município é descaradamente intolerância religiosa, uma vez que não há sequer relato de outros seguimentos terem suas práticas interrompidas por, por exemplo utilizarem microfones e aparelhos de som durante seus ritos de pregação e cantos de louvores.

Ao saber do ocorrido, membros de diversos movimentos pró-direitos de fé dos povos de terreiros se colocaram indignados e prontos para a luta contra os abusos intolerantes protagonizados pela segurança pública da cidade, Cássio Ribeiro, presidente da FUCABRAD - Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema, publicou nota em seu perfil das redes sociais e questionou: "Até quando uma senhora tão cheia de amor,  ternura e de fé, será constrangida  e perseguida? A GCM faria isso em um culto evangélico? Colaria um pastor sob a mira de armas?"

Josa Queiroz, membro da FUCABRAD e vereador em Diadema, convocou o comando da GCM de Diadema para uma audiência pública a fim de propor um dialogo entre a prefeitura e o povo de terreiro da cidade para que sejam respeitados e não tenha o direito de expressão de fé cerceado pelo município. O ato acontecerá na próxima terça-feira, 07/02 às 17h, na Câmara Municipal de Diadema. 
 Link do evento: https://www.facebook.com/events/676336082569509/

É de extrema importância que a prefeitura de município se coloque diante do ocorrido e garanta o exercício de fé da comunidade vitimada pela intolerância institucionalizada. Diadema é uma cidade de tradição, conhecida nacionalmente pela sua atuação no enfrentamento a intolerância religiosa, onde o saudoso Toy Francelino de Xapanã protagonizou e impulsionou grandes feitos pelos direitos dos povos de terreiro, tornando-se referência na luta.


A atuação da GCM revela Diadema como uma cidade intoleranteque regride a tempos de silenciamento e marginalização das práticas religiosas afro-brasileiras. Uma cidade que ao invés de proteger, permite que sua guarda municipal agrida a moral de uma sacerdotisa de quase 90 anos de idade e que há 60 atende a comunidade com cuidados religiosos e ações comunitárias como entrega de alimentos, entre outras. É inadmissível que a quarta cidade mais negra do país não respeite a herança africana em sua terra, e não consiga aprender com griots como Mãe Corina a importância de se respeitar as diferenças e garantir a boa convivência em sociedade.

Texto e Fotos: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved



1 de dezembro de 2016

ABATE RELIGIOSO E CRIME AMBIENTAL



A Lei de Crimes Ambientais possui quatro regras diretamente relacionadas com a proteção da fauna: 
1. proíbe o abate, caça e utilização de animais silvestres (nativos, exóticos, espécie rara ou em extinção) sem licença ou autorização de autoridade competente;
2. pune o abuso, ferimento ou mutilação de animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos;
3. condena a venda, aquisição, guarda ou manutenção em cativeiro de espécime silvestre proveniente de criadouro clandestino e sem autorização de autoridade competente;
4. reprime o uso de método cruel para o abate ou captura de animais.

Também a Lei das Contravenções Penais proíbe crueldade, imposição de trabalho excessivo, experiência dolorosa ou cruel em qualquer espécie de animal.
No caso de abate, a lei penal exige autorização prévia somente na hipótese de animal silvestre, nativo ou exótico.

Independentemente da espécie de animal, a lei proíbe abuso, crueldade ou maus tratos. 
Ao IBAMA (Instituto Nacional do Meio Ambiente) compete publicar as listas dos animais silvestres, nativos, exóticos, raros ou em extinção.

Grosso modo pode-se dizer que silvestre (selvagem) é aquela espécie animal que nasce e vive em ecossistema natural, como florestas e savanas, não é adestrável e seu ciclo de vida independe da ação humana.

Nativo é o animal silvestre cujo habitat natural situa-se nas regiões do Brasil, ao passo que o exótico normalmente tem origem em habitat estrangeiro.

De seu turno, domésticos são os animais que têm comportamento adaptável à presença humana, seu ciclo de vida depende do ser humano e podem viver em cativeiro.
Merece atenção o fato de que a lei autoriza a criação em cativeiro e o abate das tartarugas “tracajá”, “muçuã” ou “jurárá”, “pitiú” ou “iaçá”, as quais podem ser adquiridas em criadouro autorizado pelo Ibama. Também o faisão poder ser adquirido nestes criadouros.

Já o cágado é considerado animal silvestre (há 16 espécies no Brasil), sendo que seu abate configura crime ambiental.

A legislação também proíbe a criação e comercialização do caramujo-gigante-africano “achatina fulica”, um molusco que não pode ser confundido com o grande caramujo branco (megalobulimus paranaguensis), espécime brasileira. 

O caramujo-gigante-africano é considerado animal exótico invasor e ainda transmite doenças como meningite e parasitose.

Recomenda-se, portanto, todo cuidado nesta seara. 
Obedecidas estas normas, entre outras sobre as quais falaremos oportunamente, o abate religioso constitui uma prática autorizada e protegida pelas leis brasileiras.

Por Hédio Silva Jr. - Advogado, Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP, ex-Secretário da Justiça do Estado de São Paulo (2005-2006)
Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

29 de agosto de 2016

Sobre Racismo, Genocídio e Candomblé: Orixá nos reconhece


Desde antes da escravidão, vidas negras são inferiorizadas, demonizadas, marginalizadas e assassinadas por um projeto social que não reconhece humanizadas as vidas de descendentes de reis e rainhas africanos.
Se, por um lado, a violência racial insiste em atravessar os séculos, numa tentativa de apagar presenças negras, por outro o Candomblé, resiste bravamente e fortalece nossos laços com as divindades africanas que, da mesma forma que nos amparam, ampararam nossos ancestrais, quando obrigados a cruzar o Atlântico em navios negreiros para o trabalho escravo, construindo com suor e sangue, uma terra racista por excelência, que nos dias de hoje, acedita piamente em democracia racial, mas segue derramando sangue negro.

De 2003 a 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%, no país.
Você sabia que 77% dos homens negros morrem (assassinados) entre 15 e 29 anos?
E os números seguem aumentando, sem falar daqueles números não contabilizados, pois há corpos desaparecidos, há vidas desaparecidas. 

A esse extermínio, chamamos de Genocídio da Juventude Negra, um projeto extremamente nocivo para o futuro do país, pois morrem jovens entre 15 e 29 anos, idade fértil e produtiva.
Por exemplo, em 2016, uma mulher negra nascida em 1986, terá apenas 23% de chances de se relacionar com um homem negro da sua idade.
Toda vez que você for fazer uma piada como: "tá faltando homem no mundo. Lembre-se que, os homens negros, por exemplo, estão sendo assassinados, antes até de constituir suas famílias.
Eu estou falando isso tudo, para dizer mais uma vez, que o racismo existe e mata. Os dados acima constam em http://www.mapadaviolencia.org.br/ e o acesso é gratuito. Além disso, a internet está aqui, cheia de pesquisas importantes e denuncias feitas pelos movimentos negros, que ao observarem tamanha violência contra nosso povo, constata (e fotaleço o grito) que uma das principais e mais terrível causa é o fato do Racismo ser Institucional e Estrutural. Há racismo, inclusive na "legalidade" de leis. Nunca se esqueçam que a escravidão era "legal por lei".

A perseguição aos terreiros e todas as manifestações culturais e de fé afrodescebdente era "legal por lei". Atirar na cabeça ou no peito de um "suspeito" (quase sempre "negros suspeitos"), faz parte do modo "legal" de atuação da polícia brasileira.
E tem muito mais... Dizer que o meu "cabelo é duro", não parece ser legal, ou só opinião. Não é. É crime de racismo.
Sabe quando dizem que nós negros vemos racismo em tudo? Está certo.O racismo é um mal instalado em nossa sociedade, educação, em nossas casas, nas relações pessoas, e muitas vezes, imperceptível. Pode não ser visto, não percebido, mas causa sequelas irreversíveis no desenvolvimento de crianças, jovens, e até adultos negros. Mas falo sobre isso em uma outra oportunidade.
O que quero com essas linhas, é alertar! Leia um pouco sobre, e se você é alguém não negro, não se sinta ofendido quando tratamos do assunto. Só conseguimos resolver um problema quando aceitamos que ele existe. Aceitar que o racismo existe, e que ele mata, física, psicológica e simbolicamente, é o primeiro passo para o enfrentamento a esse mal.
Talvez, algumas pessoas não entendam porquê eu estou usando uma foto tão linda para tratar de um tema tão dificil, mas digo que, quando estou no candomblé e meus olhos presenciam cenas como essa, tenho a certeza de que Orixá existe, e mesmo uma sociedade que não reconhece nem humanidade em corpos negros, os orixás do candomblé nos tratam com dignidade, com respeito, amor, e com toda humanidade nos negada em ruas, espaços e relações racistas.

Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

12 de julho de 2016

"Já ouviu falar de Orixá na Escola?" Evento discutirá Racismo e Intolerância na Educação


[Rio de Janeiro] "Já ouviu falar de Orixá na escola?" 

Sob reflexões a partir da questão que nomeia o encontro, o evento organizado pelo Agô - Coletivo de Estudantes Afroreligiosos, em parceria com o LEÁFRICA, dialogará sobre o racismo e intolerância religoiosa no cotidiano escolar, Lei 10.639, sua aplicação, e novas diretrizes para o ensino.

O Evento acontecerá na próxima terça-feira, 19 de julho, às 14H, no IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais do Rio de Janeiro

A aprovação da Lei. 10.639 fez com se tornasse obrigatório a adesão nos currículos escolares de todos os níveis de escolarização o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira. Contudo, sua implentação tem sido fortemente dificultada na realidade de várias instituições de ensino em todo o Brasil. Para além do já convencionado ensino eurocêntrico nas escolas, o avanço expressivo do cristianismo neopentecostal, com projetos de poder e sociedade bem específicos, ocorre-se uma forte resistência por parte de professores, alunos e pais que se recusam a trabalhar com esse tipo de conteúdo em sala de aula. Inseridos nesse contexto, elementos significativos da cultura e história africana e as religiões de matriz afro tem sido demonizados e rejeitados em diferentes instituições.



  
O evento contará com a participação de três mulheres de muito Axé que compartilharão suas experiências profissionais de aplicação e pesquisas sobre a lei 10.639:

Viviane Martins - professora da rede pública em Itaguaí, realiza um trabalho incrível com seus alunos do ensino básico, unindo representação, musicalidade, corporeidade e auto-estima. O mais recente viralizou e diversas páginas do facebook, ligadas ao candomblé e a educação, compartilharam. O Vídeo já recebeu mais de 126 Mil visualizações Clique aqui e Assista!

Rosiane Rodrigues - Yalorixá, antropóloga e escritora, seus livros para-didáticos são um instrumento para aplicação da lei 10.639. Tudo começou após ter sido proibida de ver seu filho e considerada insana por ser religiosa de matriz africana.
Monica Lima - professora de História da África do Instituto de História da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Estudos Africanos, tem largo estudo sobre a lei 10.639 e nos dará um panorama desses anos desde a aprovação. 

Para mais Informações e confirmar Presença no evento, acesse o link: https://www.facebook.com/events/276173772747838/

Créditos: Foto 1 -Acervo pessoal da Professora Viviae Martins / Foto 2: Jornal Extra de 26/01/2009

11 de maio de 2016

ALESP promove Prêmio em Homenagem às Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda



Na próximo quinta-feira, 12 de maio, a Assembléia Legislativa de São Paulo realizará a 14º edição do Prêmio FOESP para Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda e Mulheres Ilustres da Diversidade Religiosa. 
Evento acontecerá no Auditório Teotonio Vilela, às 19H. 

Organizada pelo Portal do Candomblé e com colaboração do Instituto Nacional de Defesa das Religiões Afro-brasileiras - INDRAB, SOS Racismo, entre outras organizações atuantes pelos direitos de crença e no enfrentamento a Intolerância Religiosa, o tradicional evento homenageia, no mês das Mães, Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda, em agradecimento e reconhecimento pela luta de resistência, em uma sociedade que historicamente prega o ódio, extermínio e cerceamento estrutural de direitos das comunidades religiosas de matrizes afro-brasileira e africana.

Deputada Leci Brandão e Equede Sinha no lançamento do livro Equede - A Mãe de Todos, em São Paulo, organizado pelo Grupo Ìkórítá

Entre as homenageadas está Equede Sinha, uma das principais sacerdotisas do Terreiro da Casa Branca - Salvador,  que no último dia 06, esteve em São Paulo para o lançamento do seu primeiro (e já importante) livro "Equede - A Mãe de Todos" (2016, Editora Barabô). 
A lista também traz a  Leci Brandão, Sambista e Deputada atuante na luta pelos direitos das manifestações artísticas, culturais, sociais e religiosas de matriz africana, e que, também na semana passada, atuou diretamente no fortalecimento e assistência da luta dos estudantes secundaristas pela instauração e investigação da CPI da Merenda, impedindo que a truculência da polícia militar não violentasse os estudantes na desocupação da ALESP, como o ocorrido na Ocupação do Centro Paula Souza.  

O jornalista e escritor, Oswaldo Faustino, comentou obre a importância do evento: 
"Se as perspectivas políticas são de destruição do ainda ínfimo RESPEITO às RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA, conquistado com muita luta e a duras penas -- prenúncio de retrocesso e fatalismo, com ataques e agressões de toda sorte --, ainda há excelentes iniciativas como esta do dia 12 de maio, na Assembleia Legislativa de São Paulo. Parabéns a todos e todas que se uniram em prol dessa realização!". 


Foto: Roger Cipó - Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados 


Serviço: 
14º edição do Prêmio FOESP para Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda e Mulheres Ilustres da Diversidade Religiosa. 
Data:12 de maio, às 19h 
Local: Auditório Teotônio Vilela - Assembléia Legislativa de São Paulo 
Av. Pedro Álvares Cabral, 201 - Parque Ibirapuera, São Paulo - SP 
Evento Gratuito 




17 de março de 2016

Quando uma menina de 14 anos resolve escrever o que é candomblé para combater a Intolerância



Cansada de ter que justificar suas convicções religiosas, a todo momento, a brasiliense de 14 anos, Izabelle Aymee resolveu escrever o que é candomblé para combater a Intolerância Religiosa, através da informação compartilhada. De formas simples e educada, a menina, filha de Bessen explica o seu olhar para a religião dos orixás.

Sobre Izabelle, eu sugiro: Guardem esse nome (Acompanhe também o perfil dela no Facebook). Ela é uma jovem força de Combate à Intolerância Religiosa no ambiente escolar. - Mas isso é uma outra publicação, que em breve, a gente conta. 
Segue o texto: 

Escrevi esse texto com um único objetivo: explicar o que é o candomblé para aqueles que não possuem conhecimento sobre a religião.
Gostaria que vocês tirassem alguns minutos para ler e tirar, pelo menos, parte das duvidas que vocês possuem sobre o candomblé. E por favor, se alguém te fizer alguma dessas perguntas, mostre esse texto. Tenho certeza que não restarão duvidas.
 
O candomblé ainda é uma religião bastante discriminada por grande parte das pessoas, isso devido ao que a mídia mostra e os tais "pais de encosto" que, para conseguir fama nas igrejas, inventaram historias sem pé nem cabeça. Então decidi escrever um pouco sobre isso e ajudar de alguma forma, aqueles da religião, principalmente os mais novos, a terem argumentos para defender sua fé. Abaixo contem perguntas,algumas que eu já escutei até mesmo de "novatos" no candomblé,por estarem cheios de dúvidas ainda e não terem tanto conhecimento.. E outras que escuto diariamente. 







- O que é o candomblé? 
É uma religião de origem africana,que cultua a ancestralidade e os Orixás. 

- No candomblé,existe um Deus principal? 
Sim,o chamamos de Olodumaré / Olorun, o criador - o senhor do céu, e ele nos colocou aos cuidados dos Orixás, que são nossos intermediadores. 

- Mas se existe um Deus,porque vocês tem os Orixás? 
Os Orixás são divindades da natureza,portanto,são mais próximos de nós,e assim eles se "comportam",ou melhor,são os nossos pais! Ou seja,nos educam e nos ensinam a conhecer nossas qualidades e defeitos. 

- E sobre matar animais? 
O sacrifício de animais, tem como objetivo dividir com Deus o resultado do nosso trabalho. É uma tradição trazida da África. Contudo, respeitamos a natureza e só é retirado aquilo que for consumido. Tudo é feito em um longo ritual, quando pedimos Agô (licença) à natureza, em que rezamos antes, durante e depois de seu sacrifício, por retirar aquela vida, que é muito importante, por ser um ser vivo.
E não benzinho,nós não sacrificamos gatos, cachorros... Nem nada disso. Os animais que são sacrificados, são os mesmos que compõe a mesa do almoço e jantar. Até porque, parte do ritual é se alimentar daquela carne que após ofertada aos Orixas, se torna ainda mais sagrada.

- Porque vocês vestem aquelas roupas engraçadas? 
Bom, pelo que eu sei, as saias longas são mantidas dos tempos coloniais. O pano que envolve o seio e o ventre das mulheres,chama-se pano da costa. E o pano que cobre a cabeça,é usado por acreditarmos que a força maior esteja no Ori (cabeça), ou seja, uma forma de proteção,de "guardar" a cabeça. 

- E porque tem que raspar a cabeça? 
É porque, quando fazemos o santo, quando nos iniciamos no candomblé. Significa renascimento, de abdicação da vaidade pela fé, o de buscamos nos "conectar" totalmente ao nosso Orixá. E vou te falar:  Quando é por amor, como é o meu caso, você nem liga para cabelo! Ah, e lembrando: NÃO SÃO TODAS as pessoas do candomblé que precisam raspar a cabeça,na religião, existem os Yaôs, as Ekedes e os Ogãs,cada um com a sua "função" e desses, somente o Yaô, e alguns Ogans e Ekedes raspam as cabeças. 



- O candomblé pertence ao diabo? 
É como eu sempre digo: nós do candomblé, sequer acreditamos no tal coisa ruim. Fiquem tranquilos que ele é exclusividade da mitologia cristã. Nós não temos essa força inimiga dentro de nosso culto.

- E Esú? 
Esú é uma divindade mensageira, ligada à sexualidade e a semelhança da natureza. Costumo dizer que ele é o reflexo das pessoas, e por isso, o motivo delas o temerem tanto, por ele apenas reflete o que nós somos realmente. Ele é luz e escuridão, como tudo o que existe, inclusive nós. O que aprendemos dentro do candomblé é a equilibrarmos essas forças. 

- Por que vocês "se cortam"?
Esses cortes, nós chamamos de "Cura", e ela tem como objetivo proteger nossos corpos de toda a influencia negativa. 


- Se o Orixá é um Deus, porque quando vocês os recebem, se abaixam para os humanos? 
Acredito que o Orixá é uma inteligência superior, e como pais, eles dão exemplo, ou seja, quando estão manifestados, demonstram gratidão, humildade e amor aos seus filhos. Quando ele se abaixa é um sinal de estar colocando seu filho ao cuidado daquele determinado sacerdote, que defende e se dedica a cuidar do seu filho. 



Texto: Izabelle Aymee 
Fotos: Acervo pessoa de Izabelle Aymee 

2 de março de 2016

"As coisas estão ruins. Deve ser macumba" O Pensamento e Discurso Intolerantes



Quando nada vai bem, a sorte te vira as costas e o azar ri da sua cara, o que você pensa?

Eu estava na sala de reunião, quando uma colega começou relatar seus problemas e finalizou: "parece que é macumba... só pode!"

Parei, pensei e entendi que, por melhor instruída que é, minha colega traz em sua educação um vocabulário intolerante que nem ela mesmo percebe. Consciente, ou não, reproduz um comportamento de intolerância religiosa, e precisamos falar sobre  isso.
Engana-se quem pensa que Intolerância Religiosa é só a violência física, verbal ou psicológica contra a crença de alguém. Se eu puder listar, diria que a explosão em violência é o cume da agressão, e se não quisermos chegar ao extremo, preciso entender que, até agora, só falamos da ponta do iceberg. Obvio que a violência declarada choca (ou não) e nos coloca em movimento. Mas e a violência naturalizada?

O antropólogo e professor congolês naturalizado brasileiro,  Kabengele Munanga afirma que o "Racismo no Brasil é um crime Perfeito". Inspirado nessa afirmação, o antropólogo Gill Sampaio Ominirò diz que a intolerância religiosa também é um crime perfeito (artigo 208 do Código Penal Brasileiro), "pois é possível ser intolerante com um olhar". Quantos de nós, adeptos do Candomblé ou Umbanda , não somos mal olhados ao chegar em um espaço público vestido de branco e/ou ostentando fios de contas? Já no olhar, identificamos a aversão aos nossos símbolos e é como se ouvíssemos o xingar saltar os olhos, mesmo que o agressor mantenha a boca fechada. Sutilmente, a intolerância religiosa está presente no pensamento, postura e simples ações.

Assim, a demonização da crença, ritos e símbolos de nossa cultura religiosa se faz também em simples palavras. Como disse, minha amiga atribui-se a má sorte à uma possível macumba feita. Sua fala relaciona as coisas ruins acontecidas em rituais da Umbanda e Candomblé. Mesmo conhecendo o verdadeiro significado da palavra "macumba", sabemos que se trata de uma expressão socialmente intolerante.


Quem nunca ouvir alguém dizer que a criança, ou o amigo agitado está com Exú no corpo, ou é um Exú? "É aquela pessoa chata que 'exuriza' sua vida". E já ouviu dizer que iria no terreiro só para "bater um tambor" e afastar alguém?
Há os clássicos de fim de ano: "Tão ruim, que nem Iemanjá aceita", ou até mesmo "volta para o mar, oferenda", ou o corriqueiro: "tinha que ser macumbeir@"

No combate ao racismo, atentamos para a importância de descolonizar o vocabulário. Pois desde a infância,nos foram ensinadas palavras  e expressões com significados ou criações racistas que parecem inofensivas, mas que, em uso só fazem manter estruturas e comportamentos racistas: Mulata, Denegrir, Dia de Preto, da Cor do Pecado, Nasceu com o Pé na Cozinha, entre outras... A lista é grande, e representa uma educação opressora, herdada do regime de escravidão.

Seguir uma linha de pensamento não ofensivo, cuja base seja o respeito e não se utilizar de palavras e expressões intolerantes é também caminho para se combater a violência contra as religiões de matriz africana ou outros seguimentos que sofrem perseguição ideológica.

É importante se reeducar para não reproduzir o preconceito embutido no inconsciente coletivo da sociedade, quebrar este ciclo vicioso de continuidade no uso de piadas desnecessárias e ofensivas. Mais que isso, é importante o uso de expressões, frases e até "brincadeiras afirmativas", pelas quais seja possível desconstruir as estruturas de violência para construir pontes de respeito e de comunicação não-violenta.

Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved


5 de fevereiro de 2016

Valinhos (SP) vota projeto Inconstituicional contra Religiões de Matriz Africana


No último dia 02/02, enquanto milhares de brasileiros celebravam o Dia de Iemanjá, em festejos pelas praias do país, a Câmara Municipal de Valinhos (SP) votava e aprovava, por unanimidade, o projeto de 147/2015  que Dispõe sobre a proibição de utilização, mutilação ou sacrifício de animais em rituais religiosos ou de qualquer outra natureza no Município, e dá outras providências.

O projeto que agora segue para aprovação ou veto do prefeito da cidade, obteve parecer contrário da Comissão de Justiça. 


A inconstitucionalidade do projeto de lei 174/2015 



O projeto é inconstitucional e atenta contra os direitos das tradições de matriz africana, previstos na Carta Magna brasileira, de 1988, sobre tudo no que versa o Art. 5º: 

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
 (...)
 VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Leia a matéria de Gill Sampaio Ominirò, do projeto Candomblé sem Segredossobre os aspectos jurídico, atropológico e religioso do sacrifício de animais nas religiões de matriz Africana: http://candomblesemsegredos.sitepx.com/url-1403033158.html

Movimentos sociais, coletivos e demais organizações afroreligiosas da região estão se organizando para ações e posicionamentos de repúdio ao projeto: 

NOTA DE REPÚDIO CONTRA O PROJETO DE LEI N.º 147/2015 – LEGISLATIVO (VALINHOS-SP) QUE “DISPÕE SOBRE A PROIBIÇÃO DE...
Publicado por Sidnei Barreto Nogueira em Sexta, 5 de fevereiro de 2016

NOTA DE REPÚDIO E CHAMAMENTO DASCOMUNIDADES TRADICIONAIS DE TERREIRO.O Coletivo Saravaxé de Campinas vem a público...
Publicado por Oluandeji Diá Ngola em Sexta, 5 de fevereiro de 2016




14 de janeiro de 2016

A Realidade por trás da Tentativa de Proibição dos Sacrifícios Animais nos Cultos Religiosos


Não me causa espanto um projeto de lei que proponha proibir o sacrifício de animais em rituais religiosos. É um desdobramento previsível em um cenário político dominado pelo conservadorismo, racismo e por tentativas de imposição religiosa.
A suposta ideia de proibir o sacrifício supondo alguma política de proteção aos animais demonstra claramente como em uma sociedade desigual, preconceituosa e punitiva o uso das leis é predominantemente feito com o intuito de reforçar essas desigualdades. Traduzindo: as leis para brancos e para a cultura dominante são de uma forma e para negros e culturas não brancas são de outra.
A primeira coisa que precisamos entender é a seguinte: em uma sociedade laica ninguém é obrigado a ter a mesma visão espiritual sobre os animais “irracionais”. Ser vegetariano é uma opção individual. Então, vamos partir do princípio básico de que TODAS as pessoas têm direito a se alimentar de carne. Visto isso vamos lembrar o que na nossa realidade significa se alimentar de carne.
Alimentar-se de carne significa comer um animal. E para comer esse animal é preciso que ele esteja morto. Até os animais irracionais carnívoros matam suas presas para comê-las. Parece óbvio, mas para as pessoas que julgam o sacrifício animal nos ritos religiosos não é. A dificuldade de entender essa simples questão de matar para comer vem da intolerância religiosa, da discriminação e do preconceito que pressupõe quais crenças devem ser consideradas corretas e aceitas ou não.
Em geral nas religiões de matriz africana acredita-se que o processo de fortalecimento do espírito passa pela alimentação de diversas fontes de energia que podem ser minerais, vegetais ou animais, de acordo com os símbolos da cultura envolvida, o que ficou popularmente conhecido como oferenda.  As oferendas envolvem não só o consumo dessas fontes de energias, mas também os rituais e as crenças de quais seres precisam realizar esse consumo. Rituais e crenças que envolvem o reconhecimento dos animais como seres com propriedades divinas e que por isso merecem ritos de demonstração de respeito e permissão para seu consumo.
O intuito aqui não é promover um esclarecimento sobre a simbologia das religiões de matriz africana, mas sim de mostrar que a tentativa de proibir o sacrifício de animais em rituais religiosos não visa à proteção dos animais e sim a criminalização do culto religioso. Nunca houve a proposta de se proibir o consumo de animais, mas sim o ritual religioso através do qual ele se desenvolve.  Palavras como “crueldade” e “sofrimento” são usadas com o objetivo claro de moralizar as religiões de matriz africana, de atribuir a seus ritos ares de maldade e de julgar seus valores e crenças como ruins ou errados. E todos nós sabemos muito bem que essa é uma estratégia de dominação, de imposição cultural, racismo e intolerância religiosa.
Além de desrespeitar os valores e crenças de uma cultura religiosa essa tentativa é um esforço claro de moralizar um processo de consumo que é comum a toda sociedade, pois de uma forma geral toda a sociedade se alimenta de carne animal e mata animais para isso. O que os indivíduos que propõe a proibição do culto religioso tentam nos dizer é: você pode comer carne animal, mas não pode rezar, cantar ou matar esse animal com suas próprias mãos, ou seja, não pode expressar sua fé e principalmente, não pode baratear o custo desse consumo ou deixar de pagar por ele aos grandes produtores.
Se a preocupação fosse realmente com códigos de proteção ao animal seriam aprovadas leis para regulamentar a forma absurda como animais são criados nas grandes propriedades rurais. Nesses locais animais são criados totalmente presos, sem nenhum contato com o ambiente natural, forçados a reprodução e têm sua estrutura totalmente alterada por “anabolizantes” e medicamentos. O intuito dessa manipulação toda é baratear o custo de criação desses animais e aumentar ao máximo seu rendimento para se ter o maior lucro possível com sua comercialização. Os processos que envolvem a criação de animais nas indústrias de alimentação já foram apontados por organizações de proteção aos animais como absurdos e cruéis e inclusive prejudiciais a saúde humana em alguns casos. Mas a crença envolvida nesse caso é a do lucro e essa nunca é questionada.
Entra aí outra questão que incomoda os grandes produtores, referente ao sacrifício animal que acontece nos cultos religiosos: em geral os animais utilizados para consumo são oriundos de aviários de pequeno a médio porte, regionais ou até de criações caseiras. Essa relação direta entre pequenos e médios produtores  e consumidores não é interessante ao agronegócio que tem interesse de dominar o mercado. E só para reforçar, sabemos que essa dominação do mercado de alimentos define inclusive quem na nossa sociedade pode ter  privilégio de comer carne.
Com esses poucos argumentos já entendemos aqui que a questão de legislar sobre o sacrifício de animais nos cultos religiosos envolve interesses de grandes empresários reforçados pelo apoio de fundamentalistas religiosos que tentam violar o princípio básico de um estado laico para aumentar seus lucros e impor suas crenças. Eles alegam equivocadamente o intuito de proteger a vida animal, para na verdade retirar o direito à liberdade religiosa e se livrar das tentativas de produção econômica “desvinculadas” das grandes cadeias produtoras de gênero alimentício. Uma iniciativa intolerante, opressora e exploradora para obter lucro e violar direitos.
Texto de Monique Britto - originalmente publicado no Portal Geledés, em 13 de março de 2015.
Foto: Roger Cipó - Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados 

7 de janeiro de 2016

7 de janeiro: Dia da Liberdade de Culto. Mas a Liberdade é pra quem mesmo?




 Você sabia que, hoje o Brasil celebra o Dia da Liberdade de Culto? 

A data foi escolhida para homenagear a primeira lei criada no Brasil sobre a liberdade de culto, em 7 de janeiro de 1980, por iniciativa do gaúcho Demétrio Ribeiro, Ministro da Agricultura naquela época.

Mas em um país tão contraditório e fundamentalista como o Brasil, eu pergunto: Liberdade de culto é pra quem? Quem é que tem a liberdade de gozar do artigo 5º da Constituição Federal de 1988?

Não quero falar de quem tem o direito a tal privilégio. Chamo atenção para um grupo que a cada dia tem o direito em questão desrespeitado e violentado pelo estado e sociedade civil.

Historicamente os terreiros de candomblé, concebidos por descendentes de reinados africanos tem sido alvo do cerceamento, opressão e sileciamento de seus cultos. Liberdade pra quem, Brasil?

Liberdade pra quem, em um país onde usar roupas brancas que te coloca na mira de uma pedrada?

Liberdade de culto pra quem, quando os símbolos sagrados são demonizados por outras crenças e menosprezado pelo estado?

Por falar em estado: liberdade para quem, se o estado não respeita a laicidade e institucionaliza a opressão à crença nos Orixás?


Liberdade de Culto pra quem, quando tocar os tambores sagrados pode ser considerado crime e repreendido pela polícia?

Liberdade de culto, para permitir que um grupo de determinado seguimento invada um terreiro e hostilize uma sacerdotisa até que a senhora infarte e morra?

Liberdade de culto, para quê se atearão fogo nos territórios sagrados e deixaram bíblias como "recados"?

Muitos são os questionamentos a cerca da pseudo liberdade de culto existente no Brasil. Se por um lado, a sociedade se fundamentalizou em conceitos hegemônicos eurocêntricos para o opressão, por outro, o estado acolheu tal prática e converteu as leis de direitos, em marginalização da fé, sobretudo a fé em Divindades Negras, que se pauta em ensinamentos milenares de relação e co-existência com a natureza, respeito à vida, à ancestralidade e à diversidade. Conceitos jamais aceitos para uma estrutura tão sub-desenvolvida, bem como noçiva à vida, como a sociedade brasileira. 
  
Jorge Amado escreveu que Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa, convicção filosófica ou política” (Carta Magna 1946), mas só esqueceu que de dizer que ninguém será privado desde que não sejam negros, pobres, periféricos e adeptxs de religiões de matriz africana. Mas na real, sabemos bem pra quem Jorge Amado escreveu, com tantas idéias racistas e machista em suas obras, para nós de matriz africana, que não foi.


É na contra-mão de tanta contradição e devaneios conscientes de um tempo violentamente fundamentalista que convido para a reflexão de tal dia. Existe mesmo liberdade de culto? Á quem permitimos tal direito e como assegurarmos que o outro também exerça seu direito de Fé, Crença e Culto com dignidade?

Ou aceitaremos que, por mais uma vez, uma Lei criada para a dignificar a vida seja mais uma privilégio gozado por um grupo de opressão?