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1 de setembro de 2015

Janaína Grasso não é Descolada, Marie Claire! - Resposta de uma das Entrevistas à Revista



"Candomblé é TRADIÇÃO, ANCESTRALIDADE, RESISTÊNCIA.



Pra começar, não há nada de descolado em ser de religião de matriz africana.
Não é alternativo nem religião da moda. O que me espanta é ver como a nossa
mídia ainda se sustenta na superficialidade e continua representando aspectos
da cultura negra de maneira esvaziada, estereotipada, deturpada. “Com festas e
sem regras rígidas?” Não entendi este título. Mas de que candomblé e umbanda
vocês estão falando? Eles tem milhares de fundamentos,
regras, tradições que sustentam sua existência.

Quando você recebe um convite para ser entrevistada numa revista, não há
garantias de como o conteúdo vai ser veiculado. Mas, associar a sua entrevista
à uma reportagem que traz o Candomblé e a Umbanda como religiões da moda, e
como se isso fizesse de você “alternativo” é lastimável. Até quando o
jornalismo vai se prestar a este papel? Nós precisamos nos retratar de outra
forma, com criticidade e mais respeito. Querem falar sobre os jovens no
Candomblé e da Umbanda? Identifique que essas são religiões de matriz africana,
elas tem origem, elas tem tradição, memória, história, estrutura.


As religiões de matriz africana, o Candomblé e a Umbanda se mantem vivas
graças a muita RESISTÊNCIA, elas enfrentam um racismo e discriminação secular!
Quantas casas de candomblé são destruídas pelo ódio, racismo e violência?
Quanto racismo se enfrenta todo dia por seguir uma religião negra? Quanto da
história do negro não é APROPRIADA por uma cultura embranquecedora? 

Eu me dedico ao candomblé desde criança. Sou nativa da Ilha de Itaparica, na
Bahia. Minha família, especialmente meu Bisavô Cassimiro, se dedicou ao culto
de Egungun e ancestralidade até a morte. Ele era Ojé (sacerdote) no culto a
Egungun. O meu avô foi Ogan suspenso em Ogum durante muitos anos.


Eu sou filha de orixá, e essa religião foi apresentada a minha vida e me fez
nascer de novo para minha espiritualidade. Nos inúmeros rituais do candomblé há
preceitos, obrigações, hora pra iniciar os rituais, rezas, banhos, saudações.
Os preceitos especialmente não são fáceis pro jovem. 

Eu por exemplo, tive minha iniciação como filha de orixá aos 18 anos.
Durante UM ANO, tive que viver em resguardo (momento dedicado para que os
orixás exerçam proteção e influência direta para o iniciado).


Nesse resguardo tive que durante 6 MESES me privar do sexo, do álcool, de
algumas comidas específicas, oferendar meu orixá toda segunda feira, não pude
frequentar festas, baladas, não podia ficar na rua depois da meia noite etc.
São inúmeras regras fundamentais, referente a um exemplo dos tantos rituais
existentes no Candomblé, poderia citar vários aqui. Não é brincadeira ser filho
de orixá.

Não vejo como posso ser descolada por ter a minha fé, por ter uma religião
familiar, passada de geração pra geração, como herança. Eu sou o que sou graças
a fé que dedico aos orixás, graças ao mundo que o candomblé me apresentou. É
dele também que extraio minha voz pra me posicionar aqui." 




Janaína Grasso