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11 de maio de 2016

ALESP promove Prêmio em Homenagem às Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda



Na próximo quinta-feira, 12 de maio, a Assembléia Legislativa de São Paulo realizará a 14º edição do Prêmio FOESP para Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda e Mulheres Ilustres da Diversidade Religiosa. 
Evento acontecerá no Auditório Teotonio Vilela, às 19H. 

Organizada pelo Portal do Candomblé e com colaboração do Instituto Nacional de Defesa das Religiões Afro-brasileiras - INDRAB, SOS Racismo, entre outras organizações atuantes pelos direitos de crença e no enfrentamento a Intolerância Religiosa, o tradicional evento homenageia, no mês das Mães, Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda, em agradecimento e reconhecimento pela luta de resistência, em uma sociedade que historicamente prega o ódio, extermínio e cerceamento estrutural de direitos das comunidades religiosas de matrizes afro-brasileira e africana.

Deputada Leci Brandão e Equede Sinha no lançamento do livro Equede - A Mãe de Todos, em São Paulo, organizado pelo Grupo Ìkórítá

Entre as homenageadas está Equede Sinha, uma das principais sacerdotisas do Terreiro da Casa Branca - Salvador,  que no último dia 06, esteve em São Paulo para o lançamento do seu primeiro (e já importante) livro "Equede - A Mãe de Todos" (2016, Editora Barabô). 
A lista também traz a  Leci Brandão, Sambista e Deputada atuante na luta pelos direitos das manifestações artísticas, culturais, sociais e religiosas de matriz africana, e que, também na semana passada, atuou diretamente no fortalecimento e assistência da luta dos estudantes secundaristas pela instauração e investigação da CPI da Merenda, impedindo que a truculência da polícia militar não violentasse os estudantes na desocupação da ALESP, como o ocorrido na Ocupação do Centro Paula Souza.  

O jornalista e escritor, Oswaldo Faustino, comentou obre a importância do evento: 
"Se as perspectivas políticas são de destruição do ainda ínfimo RESPEITO às RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA, conquistado com muita luta e a duras penas -- prenúncio de retrocesso e fatalismo, com ataques e agressões de toda sorte --, ainda há excelentes iniciativas como esta do dia 12 de maio, na Assembleia Legislativa de São Paulo. Parabéns a todos e todas que se uniram em prol dessa realização!". 


Foto: Roger Cipó - Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados 


Serviço: 
14º edição do Prêmio FOESP para Sacerdotisas do Candomblé e Umbanda e Mulheres Ilustres da Diversidade Religiosa. 
Data:12 de maio, às 19h 
Local: Auditório Teotônio Vilela - Assembléia Legislativa de São Paulo 
Av. Pedro Álvares Cabral, 201 - Parque Ibirapuera, São Paulo - SP 
Evento Gratuito 




12 de fevereiro de 2016

Diadema oficializa o Dia das Águas de Iemanjá e garante lei em prol das Tradições de Matriz Africana

Enquanto comunidades de terreiro de algumas cidades brasileiras tem suas práticas ameaçadas e direitos silenciados, como é o exemplo do Município de Valinhos - que na semana passada votou e provou o projeto de lei que pretende criminalizar o uso de animais em rituais religiosos - o povo de matriz africana de Diadema comemora a aprovação do Projeto de Lei 77/2015, de autoria do Vereador Josa Queiroz (PT) que oficializa a data 02 de fevereiro como o "Dia das Águas de Iemanjá", na quarta cidade mais negra do país.

Josa Queiroz (PT Diadema) é o único vereador Umbandista, em Diadema.


Há quase uma década, a Festa de Iemanjá é realizada na cidade, por esforços das comunidades  e da Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema (FUCABRAD).


Com somente um voto contrário, o Dia das Águas de Iemanjá entra para o calendário oficial do município e passa ter "tratamento igualitário, assim como tem outras religiões", afirmou o vereador Josa Queiroz, que tem se empenhado para garantir os direitos e valorização das tradições de matriz africana, na quarta cidade mais negras do Brasil.

Clique para acessar o projeto de lei: http://www.cmdiadema.sp.gov.br/PLidos/PL077-2015.pdf

"É de fundamental importância que a gente tenha leis aprovadas que vão de encontro com o reconhecimento, e com tratamento igualitário para as nossas religiões. Infelizmente, por termos poucos representantes que assumam de fato a nossa religião, nós ficamos limitados a ter projetos numa dimensão muito menos do que aquilo que nós representamos e do que representa nossa religião. Esse projeto vem muito de encontro com esse diálogo de estabelecer que as comunidades sejam reconhecidas, de estabelecer que a nossa religião seja tratada de forma igualitária, assim como outras religiões são tratadas no âmbito municipal. Aqui em Diadema nós temos diversos projetos que fazem referências às comunidades católicas e evangélicas, e nós procuramos, no nosso mandato priorizar que o mesmo tratamento seja dado ao povo do santo, ao povo da Umbanda, ao povo das religiões de matriz africana, de Diadema." - Explicou o vereador que é Umbandista e além do oficialização do Dia de Iemanjá, lutou para aprovação de outros projetos de leis que pautem e reconheçam as celebrações do Povo de Santo diademense, entre eles: a criação da Medalha Francelino de Shapanan que homenageará sacerdotes e sacerdotisas da cidade; Medalha Zélio Fernandino de Moraes, em referência aos dirigentes da Umbanda; e a oficialização do Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa, Dia da Umbanda, e a inclusão da Tradicional Festa de Ogun no calendário da cidade:
 "Acho que é muito pouco ainda, diante do que nós representamos, diante da importância que nós temos, mas não vamos deixar de continuar trabalhando para trazer outros projetos." comentou.



Segundo Josa, "Resistência ao projeto sempre tem. Infelizmente... Os vereadores, no nosso caso aqui, não assumem publicamente qualquer tipo de contrariedade de posicionamento em relação a projetos que vão de encontro com o interesse da nossa religião e do nosso povo. Mas obviamente aqueles que representam os setores das igrejas evangélicas, esse tem assumido posicionamentos claros, e inclusive votado contra.
Nós tivemos um voto contrário de um membro da Assembléia de Deus. São setores mais reacionários. Setores mais radicais e que demonstram claramente que o discurso de intolerância, de preconceito e homofóbico ocorre em grande escala.
Na medida que um vereador, representante desse segmento, se posiciona contrário, ele demonstra que ele não tem respeito nenhum por outra religião, que não seja a dele.
Mas isso é tranquilo também. Estamos aqui para fazer o enfrentamento, o debate e se houver necessidade, convocamos o nosso povo para ocupar o plenário da Câmara e fazer pressão política. Não houve necessidade. A grande maioria dos vereadores entendeu a importância do projeto e votou favorável. Foram 18 votos favoráveis. O presidente não votou porque ele não vota esse projeto, e duas abstenções - uma por falta de um vereador e outro voto contrário (vereador membro da Assembléia de Deus)".

"Essa discussão de como a municipalidade trata nossos direitos e deveres tem muito a ver com o nosso nível de organização. Aqui em Diadema, nós temos um nível de organização muito grande. A FUCABRAD se faz presente, ocupa os espaços e participa dos fóruns de debates e discussão e é uma federação extremamente atuante na reinvidição dos direitos da nossa comunidade. Isso se dá em todos os sentidos: na organização de eventos, simpósios, seminários. Isso se faz presente também quando ocorre situações de perseguição em templos e casas nossas. Então o fato da Federação se fazer presente, o fato da gente ter um vereador aqui na Câmara que representa os nossos interesses, faz com que o poder público local tenha um tratamento diferenciado. Um tratamento que não é o adequado, não é o ideal, mas que nós estamos trabalhando bastante para que esse tratamento, cada vez mais, se assemelhe ao tratamento dado para outros seguimentos e religiões."

[Entrevista cedida pelo vereador Josa Queiroz ao blog Olhar de um Cipó, em 12/02/2016. 
Foto I: Roger Cipó - Olhar de um Cipó / Foto II: Reprodução]








9 de novembro de 2015

Elba Ramalho e Alexandre Frota: As Desculpas da Opressão




Onde eu nasci, diziam que "depois que inventaram a desculpas, pilantra nenhum tomou tapa na cara", e essa foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando assisti o depoimento de Alexandre Frota, após lembrar que Elba Ramalho também se redimiu, pelo mesmo motivo: Desrespeito às Religiões de Matriz Africana.

A expressão acima, usada por mim, pode ser ignorante, mas é a grosso modo mesmo que a relembro, para dizer que pedir desculpas é muito fácil, muito fácil quando se comete um crime de Intolerância Religiosa.

É muito fácil para Elba Ramalho ligar a câmera de um smartphone e gravar um vídeo pedindo perdão para o Candomblé e Umbanda por "não bem entender" as nossas particularidades e reforçar a idéia de demonização às Divindades Africanas. É fácil porque fica "elas por elas" e a cantora famosa não responde legalmente por um crime de Intolerância Religiosa ao fazer mal uso de canais de comunicação para espalhar inverdades, violentando e desrespeitando a fé alheia. É muito fácil, e a gente acredita.

É muito fácil para um cara como Alexandre Frota fazer piadas nojentas e machistas, usando a figura de uma sacerdotisa como brinquedo sexual, e depois ir até um terreiro, em um evento público, pedir desculpas, chorar e ainda receber palmas de consolo. É fácil porque o Frota, com a sua prepotência preconceituosa, não será indiciado por crime de intolerância religiosa e possível estupro.  É fácil! 

Coincidência ou não, duas figuras públicas decidiram pedir perdão às religiões de matriz africana por conta de seus "desconhecimento" - como Elba Ramalho tentou se desculpar, e pelas "brincadeiras de mal gosto" - como chorou o Frota.

Respeito o direito de resposta, mas preciso lembrar que cometeram um crime e que deveriam ser responsabilizados legalmente, principalmente porque a intolerância religiosa mata e o propagar do tipo de conduta como a de vocês é o que dá margem para outros brincalhões fanáticos sintam-se no direito de queimar terreiros, apedrejar crianças, ou até abusar sexualmente de meninas  e mulheres.


Na semana passada, um vídeo testemunho de Elba Ramalho durante um culto em igreja ganhou as redes sociais, chamando atenção para a "salvação" encontrada pela cantora, na igreja, após seu contato com terreiros, e Exú - o que segundo ela, seria o Demônio. Poucos dias após a viralização do vídeo, milhares de respostas em repúdio foram postadas nas redes sociais, a produção da artista retirou o vídeo testemunho do ar e imediatamente, a cantora enviou um vídeo com pedido de desculpas ao Candomblé e Umbanda. Fácil pedir desculpas assim, né? 

Há um ano atrás, Alexandre Frota contou uma "piada" no Programa Agora é Tarde de Rafinha Bastos, de forma extremamente pejorativa, que narrava como obteve relação sexual com uma Mãe de Santo. A verdade é que, qualquer pessoa que assisti ao depoimento com calma, vai entender que a história contata por Frota remete, não à uma brincadeirinha, mas à uma "piada" de tentativa de estupro.



 "Ai eu fiquei olhando aquele bundão, e falei: 'po! vou comer, vou pegar. Ai, pô, cheguei pra ela e falei: Ai, deixa eu te falar uma parada. Eu não acredito nessas paradas que você faz - não sei o que, e coisa e tal... Mas eu queria te dar uns pegas (...) E aí, tem jogo?' Ela ficou assim mesmo (comentando sobre o silêncio da Mãe de Santo), não falou nada e eu falei, vou pegar... Aí virei e pô, botei a Mãe de Santo de quatro assim... aí eu tava preocupado com as minhas amigas lá fora, então garrei assim pela nuca (...)" - contou o ator que disse que ao fazer muita pressão na nuca, a mulher dormiu (leia-se desmaiou sufocada - porque isso que é).


A forma dos artistas brasileiros de fazerem piadas é uma das mais violentas do mundo, porque em sua maioria, usam da "comédia" para oprimirem ainda mais classes e indivíduos socialmente oprimidos e excluídos. Nossos comediantes, em quase maioria tem como alvo de piadas, negros, gays, lésbicas, transexuais, mulher, pobreza, nordestinos, e outros grupos colocados à margem social do fundamentalismo e conservadorismo.

Sou chato. Sou sim, porque é inaceitável fazer piada com a mulher quando uma das principais causas da morte de mulheres brasileiras é a violência sexual. E quem vê graça nisso? O Alexandre Frota vê!

 É inaceitável fazer piadas com sacerdotes e sacerdotisas de matriz africana em um país onde as comunidades de terreiros sofrem historicamente um processo de caça às bruxas e demonização, e na maioria dos casos de intolerância religiosa que culminam em agressão física, as mulheres são violentadas.

É covarde, irracional, repugnante. É criminoso.
E crimes devem sim ser encarados como tal.

Desculpas são bem vindas, mas respostas legais são também e devem acontecer para sirva de exemplo e outros criminosos não se sintam no mesmo direito de atentar contra as religiões de matriz africana.

Clique para assistir o pedido de desculpas de Frota, durante o evento "Toque da União", realizado ontem, 08/11, no Terreiro Batistini, em São Bernardo do Campo. 

É importante que o povo de santo também acorde para essas questões, pois se nossa luta é pela criminalização eficiente da Intolerância Religiosa, porque criminosos nos ganham nas desculpas? É fácil, né? Sim, o fato de um ator ir até um terreiro de candomblé para pedir desculpas e chorar, é fácil sim. Alguém treinado para chorar, sorrir, sentir prazer e tantas outras expressões em públicos, sabe bem comover com pedidos de perdão.

Verdadeiros ou não, os perdões de Elba Ramalho e Alexandre Frota nos foram pedidos e estão ai pra quem quiser, comprar, mas suas ações intolerantes seguem marcadas em nossa história. São só mais algumas chibatas de uma sociedade racista em nossas costas. Esquece quem quer, pois eu não. Mas se as desculpas estão aí, a gente que se organize para cobrar que ele e ela não tenham novas recaídas e não tornem a desrespeitar-nos. Ou quem sabe, poderíamos sugerir que usassem de suas famas e acessos à grande mídia para publicizarem seus arrependimentos. Seria um pouco mais justo, né? Oras, continua fácil usar um programa de TV de canal aberto para hostilizar a fé alheia e pedir desculpas em um pequeno vídeo de internet, ou em evento fechado com menos de mil pessoas. Embora as mensagens foram direcionadas a quem é de direito (povo de santo), sabemos que a sociedade em geral precisa entender o quão desrespeitoso foram tais condutas para que os "exemplos angelicais" (ambos vestidos de branco, viram?) de Elba Ramalho e Alexandre Frota, incentivem outros opressores.


Aguardemos os próximos arrependidos. E talvez, eu mude de idéia e acredite no arrependimento quando ambos somarem às lutas do povo de axé contra os crimes de intolerância e violência contra a mulher brasileira e fazerem com que seus seguidores e seguidoras pensem diferente e com respeito às nossas lutas e histórias. Antes disso, repito que não compro lágrima barata.

1 de outubro de 2015

Sociedade Afro-Religiosa celebra o dia da Matriz Africana, em São Paulo.


Pouca gente sabe que o dia 30 de setembro é instituído como o  Dia Municipal das Religiões de Matriz Africana: Umbanda, Candomblé e seus segmentos- Lei Municipal 14.619/07, de autoria do Vereador Wadih Mutran, sob orientação da Sacerdotisa Iyalorixá Edelzuíta de Oxaguian.

" Sobre a lei, já me perguntaram por que 30 de setembro? Porque é o mês em que está se colhendo inhame na África, o período quando se faz as águas de Oxalá no Ilê Axé Opô Afonjá, no Engenho Velho e no Gantois, e também porque é quando se inicia a primavera. Então, achei que 30 de setembro seria uma boa data por isso e também por ser dia de São Gerônimo, que não é Xangô mas é sincretizado com ele. E Xangô é a força da nossa tradição." - explica Mãe Edezuíta.



Ontem, 30 de setembro, a Câmara Municipal de São Paulo foi ocupada pela sociedade afroreligiosa para a abertura oficial do Movimento As Águas de São Paulo 2015. O evento é também uma importante reflexão sobre a intolerância religiosa que dia após dia explícita sua guerra contra a liberdade de expressão e direito à fé. Em sua nona edição, o Ato Solene As Águas de São Paulo contou com  a participação da diretoria do movimento, autoridades religiosas de todo o estado, representantes do poder público e difusores da cultura afrobrasileira, como o  Diretor Cultural do Revelando São Paulo, Toninho Macedo. Intervenções musicais afro-religiosa permearam o evento. "a nossa tradição é baseada em musicalidade" - comentou Felipe Brito (um dos diretor do movimento) que se dividiu em mestre de cerimônia e cantor do Novo Coral de Suzano, grupo que encerrou a noite com uma emocionante apresentação.   


Tradicionalmente, a sessão solene homenageia e condecora uma sacerdotisa e um sacerdote com a posição de embaixatriz e embaixador. Esse ano, o casal escolhido para conduzir o cortejo é formado pela Iyalorixá Neinha de Nanã (Candomblé) e Pai Reinaldo Tupinambá (Umbanda). Em respeito à ancestralidade que ampara as lutas do Povo de Axé, o legado da Iyalorixá Sandra Epega (1947 - 2013) foi lembrado em uma importante homenagem póstuma, representada pelos seus descendentes que se fizeram presente na ocasião.  



Essa Luta também é Minha!

Sim. A Luta contra a desigualdade é de todo aquele que não se silencia. 
No próximo sábado, 03 de Outubro, vista-se de branco, pegue seu instrumento, sua quartinha branca e junte-se ao movimento o Movimento que tomará as ruas de São Paulo para o ato púbico em repúdio aos crimes de Intolerância Religiosa, Racismo e atentados contra as diferenças. A concentração acontece no Vale do Anhangabaú, a partir das 12H, com diversas apresentações culturais, e segue com o tradicional cortejo até a Monumento Mãe Preta para a lavagem da estátua que representa a ancestralidade feminina negra, na cidade.

Mais Informações: https://www.facebook.com/aguasdesaopaulo?fref=ts

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]


1 de setembro de 2015

Janaína Grasso não é Descolada, Marie Claire! - Resposta de uma das Entrevistas à Revista



"Candomblé é TRADIÇÃO, ANCESTRALIDADE, RESISTÊNCIA.



Pra começar, não há nada de descolado em ser de religião de matriz africana.
Não é alternativo nem religião da moda. O que me espanta é ver como a nossa
mídia ainda se sustenta na superficialidade e continua representando aspectos
da cultura negra de maneira esvaziada, estereotipada, deturpada. “Com festas e
sem regras rígidas?” Não entendi este título. Mas de que candomblé e umbanda
vocês estão falando? Eles tem milhares de fundamentos,
regras, tradições que sustentam sua existência.

Quando você recebe um convite para ser entrevistada numa revista, não há
garantias de como o conteúdo vai ser veiculado. Mas, associar a sua entrevista
à uma reportagem que traz o Candomblé e a Umbanda como religiões da moda, e
como se isso fizesse de você “alternativo” é lastimável. Até quando o
jornalismo vai se prestar a este papel? Nós precisamos nos retratar de outra
forma, com criticidade e mais respeito. Querem falar sobre os jovens no
Candomblé e da Umbanda? Identifique que essas são religiões de matriz africana,
elas tem origem, elas tem tradição, memória, história, estrutura.


As religiões de matriz africana, o Candomblé e a Umbanda se mantem vivas
graças a muita RESISTÊNCIA, elas enfrentam um racismo e discriminação secular!
Quantas casas de candomblé são destruídas pelo ódio, racismo e violência?
Quanto racismo se enfrenta todo dia por seguir uma religião negra? Quanto da
história do negro não é APROPRIADA por uma cultura embranquecedora? 

Eu me dedico ao candomblé desde criança. Sou nativa da Ilha de Itaparica, na
Bahia. Minha família, especialmente meu Bisavô Cassimiro, se dedicou ao culto
de Egungun e ancestralidade até a morte. Ele era Ojé (sacerdote) no culto a
Egungun. O meu avô foi Ogan suspenso em Ogum durante muitos anos.


Eu sou filha de orixá, e essa religião foi apresentada a minha vida e me fez
nascer de novo para minha espiritualidade. Nos inúmeros rituais do candomblé há
preceitos, obrigações, hora pra iniciar os rituais, rezas, banhos, saudações.
Os preceitos especialmente não são fáceis pro jovem. 

Eu por exemplo, tive minha iniciação como filha de orixá aos 18 anos.
Durante UM ANO, tive que viver em resguardo (momento dedicado para que os
orixás exerçam proteção e influência direta para o iniciado).


Nesse resguardo tive que durante 6 MESES me privar do sexo, do álcool, de
algumas comidas específicas, oferendar meu orixá toda segunda feira, não pude
frequentar festas, baladas, não podia ficar na rua depois da meia noite etc.
São inúmeras regras fundamentais, referente a um exemplo dos tantos rituais
existentes no Candomblé, poderia citar vários aqui. Não é brincadeira ser filho
de orixá.

Não vejo como posso ser descolada por ter a minha fé, por ter uma religião
familiar, passada de geração pra geração, como herança. Eu sou o que sou graças
a fé que dedico aos orixás, graças ao mundo que o candomblé me apresentou. É
dele também que extraio minha voz pra me posicionar aqui." 




Janaína Grasso