13 de julho de 2015

Família de Santo


"... Ser mãe ou pai de uma família de santo hoje, no meu entendimento, exige muito mais que antes já que hoje não estamos isolados, vivendo nos nossos guetos, em comunidades que de certo modo eram extensões dos terreiros.

Hoje, estamos agindo, interagindo nos terreiros e ao mesmo tempo dentro da sociedade, queiramos ou não. Quem somos nós hoje no terreiro? Quem somos nós hoje na sociedade? Até que ponto temos o controle da base da educação, dos valores que nossas crianças, os nossos jovens recebem? Ainda que insistamos em sinalizar em apontar valores nos quais acreditamos, podemos competir com a mídia, com as instituições que aí estão a mostrar o contrário?

Diante do quadro em que estamos inseridos, as comunidades dos terreiros têm que iniciar para o viver hoje não só transmitindo o legado das tradições recebidas, mas educando para viver esse legado fora do ambiente do terreiro, como trazer para o ambiente do terreiro as questões que nos afligem e que é parte do nosso cotidiano dentro da sociedade em que vivemos a fim de
buscarmos saídas, caminhos de solução."

[Trecho de "Família de Santo e Educação" de Valdina O. Pinto. Foto: Iyalorisa Branca de Iya G'unté e Elegun de Ogun do Egbé Iya G'unté - Roger Cipó © Olhar de um Cipó]

A Culpa é da Marmota


(Texto de Roger Cipó)

Chegou curioso, malandreado e um tanto afobado para entender todo o movimento. 
Tenso, não queria saber de tempo e sim de seu contentamento, cai dentro investiu no tormento e foi...
Três batidas na porta de tal da Sinhá e do  convite para entrar, soou aquele Agô antes de avançar. Ah, palavra que não podia faltar, meio que popular, aprendida nas andanças de quem busca um patuá, na besteira de ostentar, e ele entrou.  Mas não demorava a sair.

"Menino venha aqui, pois uma coisa vou lhe pedir: Não quero promessa, nem mesmo dim dim, o que eu te peço, moço novim, é que espere o Orixá chamar por tí!"
"Mas minha velha, como assim?  Como chamar, se é isso que quero pra mim. Já até escolhi roupas, panos, penas, Igbin...
Bem, não paguei... mas parcelei tudim... 
Olha, a senhora que me de outro Ago, posso ser pequininim, mas vou seguir sim!"

E lá se foi, agora mais bravo, pois sem o resultado esperado, ainda tinha lama em seu branco sapato, igualmente parcelado, que no quintal da marmoteira havia sujado.
"Ah que eu nunca mais volto naquela marmota... Essa muié deve tá morta! Se negou ao meu torço da moda, os panos afros que trouxe de fora, mandou cancelar a compra das angolas e me diz que não é minha hora. Quer saber? Eu quero é prova. Não preciso de esmola, eu mesmo pago quem faça agora"

"Se sentido indignado", era o post seguido de triste relato, que logo no chat foi amparado: "Menino entendo o que tens passado, mas estou do seu lado. Pegue logo suas coisas, sou seu amigo e tô com tudo preparado." Mais que imediato, o amor foi  revelado ao Babá que entendera que nada é por acaso.

"Sim! Aqui você foi aceitado. Não ligue pra'quela que disse que o momento é o errado. Até porque, seu Orixá, eu mesmo tenho moldado!"

Por mais de cinco vezes, revirou as roupas e assegurou que tivesse perfeito.

"Ah tá que dou motivo para o povo achar defeito. Vou sai  bem melhor que uns 'sujeito'". Saiu.
Plumado, atracado em seu pano importado de detalhe aveludado, no tecido engomado. Até Posou para o retrato.
 "Olha lá, já nasceu ousado." "Que nada, isso é filho mal criado" - É que o povo resmunga, só não manda recado. 

E agora, o povo queria ver o que viria, ritmado pelo couro, que tocava em maestria. Mas lá no fundo do quintal,  algo estranho acontecia. Enquanto a palma batia, ninguém aparecia. Só sei que o pai de santo tremia, a visita não entendia.

"Oh meu velho, me diga o que que há?"
"Nada minha velha, é coisa que resolvo já."
"Ah tá, mas uma coisa não entendi. Quando ele vai virar?"
"Oras minha mãe. Não é nada pra falar. Mas tinha pressa pra terminar, e eu pouca história pra contar... Nem meus sete, consegui arriar... Mas sabe, né? Sou de bem, resolvi que ia ajudar. 
Fiz de tudo que sabia, para iniciar,  só me restou uma duvida, acho que pode colaborar.

Já que tu bem mais conheces, Como chamo o Orixá? 

[Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved] 

11 de julho de 2015

aFÉto - Retratos da Relação de Amor entre Orixás e Fiéis


Acredito que grande parte das pessoas que acompanham a página Olhar de um Cipó sabem o quanto que sou fascinado pelo mundo dos Orisás. 
Tudo que tem haver com Orisá é mágico, é poético, é vivo... O que acontece na atmosfera criada pela força de Orisá é incrivelmente as coisas mais lindas que podem acontecer no mundo!  

Dia após dia, me descubro mais apaixonado por esse universo e por todo o aprendizado que essa religiosidade me proporciona, através da prática e também da minha insistência em documentar essa significante vivência que expandiu meu ollhar para o mundo e principalmente, me deu a oportunidade de olhar com mais cuidado, respeito e Amor. Sim, o Amor é a base das relações do Candomblé.



A coleção aFÉto (A Afetividade que nasce da Fé)  é um pouco da recorrência mais linda que "ganho" em meus registros.
 A interação, expressões e contantes trocas de declarações de Amor e Carinho entre o Sagrado (Orixás) e Humanos (Fiéis)... Coisas simples, de significado tão especial e que nos ajudam a olhar o que de fato o candomblé ensina. São experiências que só afirmam que no mundo dos orixás não existe nada das maldades que a intolerância nos conta. 
São essas coisas lindas que reforçam a minha grata admiração e paixão por tudo que essas energias significam em minha existência, e por isso que: "Se me perguntar o que Orisá faz, eu digo: 'Ama... Orisá Ama!". 

Clique no link e veja mais fotos da Coleção: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.800560469986114.1073741877.458700457505452&type=3

8 de julho de 2015

Ajere: Ọya e Ṣàngó na disputa pelo inọ́n!

O ritual do Ajere tem como fundamento principal a disputa entre Yánsán e Ṣàngó pelo dom do uso do fogo.




Ajere é especificamente o nome da própria panela na qual se faz o ritual. Ela é repleta de buracos, por toda parte, por onde escapam línguas de fogo.

Ìtón (mito) resumido:
 Ṣàngó sempre em busca de novas formas de poder bélico para controlar e dominar seus adversários, enviou um mensageiro a Èṣù solicitando que este lhe fizesse uma magia para que Ṣàngó passasse a ter domínio sobre o fogo (inọ́n). Èṣù aceitou a encomenda com duas condições, uma que ele deveria receber um cabrito como sacrifício e outra que a esposa de Ṣàngó, Ọya, deveria ser a portadora da magia.

Dias depois, já feito o sacrifício para Èṣù, Ọya foi até ele para buscar o poder produzido. Èṣù entregou a Ọya uma pequena cabaça enrolada em folhas sagradas, ewé ọ̀gbọ́, dizendo-lhe que tivesse cuidado no transporte da poção e que não a abrisse. Ọya, muito curiosa, abriu o pacote e viu que dentro da cabaça havia um líquido muito vermelho e dele tomou um pouco. Nada aconteceu e ela seguiu para o palácio do Aláàfin de Ọ̀yọ́. Ao chegar e entregar o pacote ao ọba, da boca de Ọya saíram faíscas de fogo e Ṣàngó então percebeu que ela havia experimentado um pouco da poção mágica. Ṣàngó ficou enfurecido e Ọya fugiu de sua ira.

Ṣàngó, por sua vez, retirou-se para uma montanha e lá tomou todo o líquido que havia na cabaça e este líquido o fez espirrar. O ọba viu sair de sua boca e de suas narinas imensas labaredas e percebeu que dali em diante seria o dono do poder sobre o fogo, o que o tronava mais poderoso do que nunca.

É nesta perspectiva que se dá o ritual do Ajere, numa representação da disputa do fogo entre esses dois Òrìṣà.
O ritual:
 Uma panela de barro repleta de brasas é trazida na cabeça por Ọya que em meio ao toque do àlúja dança e a entrega a Ṣàngó que após dançar com ela, devolve a Ọya novamente  sucessivamente. No fim, é Ṣàngó quem termina com a panela de fogo simbolizando que o poder do fogo é dele.
 Ṣàngó sai novamente distribuindo entre fieis o Àmàlà, comida feita com quiabos, camarão, azeite de dendê, dentre outros ingredientes, ao som do seguinte cântico:
 Yorubá:                    
 Àjàká  máa  bẹ̀  ká  wòóo
Àjàká  máa  bẹ̀  ká  wòóo
A e bàbá  Àjàká máa bẹ̀ ká wòóo                             
 Pronúncia:
 Ajacá mabé cauô
Ajacá mabé cauô
Aê babá, Ajacá mabé cauô
 Tradução:
 Àjàká não implora nem mesmo ao poderoso Ṣàngó
Àjàká não implora nem mesmo ao poderoso Ṣàngó
Nosso pai Àjàká não implora nem mesmo ao poderoso Ṣàngó

Àṣẹ!

Texto extraído do portal Ìwé Ìmò - Candomblé sem Segredos
Fogueira de Sango - Egbé Iya G'unté 2014 - Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved