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31 de julho de 2015

Roupas Brancas: Para além do Preceito e da Paz de Oxalá


Eu já disse que se as condições financeiras me permitissem, usaria branco todos os dias da semana. Trocaria o guarda roupas para que a maioria das peças fossem alvas e, no máximo, com variações em tons claros - os mais próximos do branco possível.
Faria com orgulho e com a certeza de um passo a mais na aproximação com Oxalufan, eus que rege a minha existência no mundo e que vive por todos os elementos por onde a cor branca e suas sutis variáveis perpassam.

Vestir-se de branco vai muito além de cumprir um preceito para não “quiziliar” o Senhor que nos permite Ar para respirar; 
vestir-se de Branco vai muito além de se resguardar no período em que Oxalá passa na Terra para visitar os seus filhos... 
Vai muito além de pedir Paz. Até porque Oxalá não é só paz como pensamos. E ele se veste para Guerra. 



Oxalá é a divindade africana da criação de Homens e Mulheres. A força que sopra vida nos seres. 
É quem permite o último suspiro na vida terrena.
Oxalá é Vida e Morte; É Paz e Guerra! 
E eu sou seu filho, sou Paz e Guerra: Paz em Querer Paz, e Guerra para se manter vivo. Por isso, meu desejo é vestir-se de branco todos os dias.
Vestir-se de Branco é por fé, e sobretudo, um Importante Ato Político. Toda vez que ocupamos lugares com nossas vestes brancas, estamos também ocupando um lugar em ação política para afirmamos que: "Sim! Temos e fazemos uso do direito de estar onde quisermos, e representar quem representamos, a força de Oxalá e dos Deuses Africanos. 
Quem estranha meu Branco, Estranha a Paz que vivo. Estranha por Intolerância. 

Vestir-se de Branco é manter viva a Luta.
 É criar o costume, até que parem de estranhar-nos quando caminhamos limpos pelas ruas sujas de racismo.

É preciso tornar normal a prática de respeito à gente que carrega em seus vestes e adereços, toda a força de uma ancestralidade que é vivida, todos os dias da vida de quem tem Orixá.



Meu Branco é Luto!
Eu nasci no Branco!
Meu Orixá veste Branco
Come no Branco
e domina todas as Forças do Branco
Eu Vesti Branco quando Mãe Dede foi Assassinada
Não vesti um Branco de Paz, não
O Branco de meu Pai também é Luto!
Quando Kayllane foi apedrejada, eu já estava de Branco
No Branco do Luto.
Um Luto pela Liberdade de Crença que é violentada todos os dias
Meu Branco é de Luto pelo Direito de Expressão da Fé assassinado
O meu Branco, eu vesti quando nasci para Buscar a Paz, na Guerra, no Embate, na Luta porque eu visto Luto sim! E me visto do Verbo Lutar que é Branco em Essência.
Visto Branco, sem Flores
Visto Branco, com Pedras na Mão, de Luto!
 

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved













24 de julho de 2015

Gente Grande é quem me Fez!


Ninguém precisa carregar o mundo nas costas, precisa não...
Há no mundo, muita mais dor que o nosso mundo suporta
Aahh, eu me faço homem bravo,sim!
Me atrevo a bater de frente, sagrando em correntes e gritando Nãos!
Visto-me de tudo que é valentia e parto, com o peito pra cima
Me embrenho nas ruas da vida, não descanso em esquinas e saio a encarar o mundo
Mundo tinhoso que eu tanto escorraço
por que deixastes ser tomado pelos mais sentimentos amargos..?
Mundo meu que me penso fora dele, quando sou todo parte do pecado, do próprio escorraço, e por muitas vezes, eu o Amargo...
Mas passa sábado, passa domingo, segunda, terça, quarta... Na quinta, eu me tomo em postura, e já sinto que não vale tanto o peso que ainda me assusta.
Anoitece em quinta,e eu vou me encontrando comigo
Já consigo lembrar que o peso desse mundo não precisa ser todo meu, não.
Já sei que de homem, só careço do peito aberto pra receber e dar amor. Vou de leve, desacelero e quero mesmo estancar a dor.
Dor de semana doente, mais doente que o mundo demente que me fazia o que for...
Aahh, já passa a noite e meu reflexo reluz eu!
Eu ainda sou aquele que de forte só tem Fé. Mas que seja na pancada pra aprender que é.
Acordo o Eu e repito: Menino eu sou, Ainda sou... E Amanhã serei menino... 


É o que sou!
E se o mundo não me permitir, insistirei em ser
Gente grande é quem me fez
Gente grande é quem me guarda
Gente grande é quem me ama
Eu, com o mundo, não guento não!
Eu devo mesmo ficar quietinho,
Confiar no dono do destino,
Entender que sou menino...
Vou sim, jogo o peso de lado
Não é mesmo o que tenho plantado,
De nós eu me desarmo
Eu sou só o filho dele
Quem manda no mundo é o meu pai
Desço um degrau,
Abaixo mesmo a crista
Sigo de peito aberto - só para acolher e amar
Sem pressa, é como devo ir e não fazer barulho mais
Tá bom, já sei que sou menino,
Mas vai dar certo
Homem do mundo, é meu Pai

Roger Cipó © Olhar de um Cipó 2015 - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

Oxaguiã



Oxaguiã é um orixá guerreiro. Sua maior luta é pela perfeição: de si mesmo, dos outros e das coisas. Odeia a preguiça, que ele considera o inimigo número um da perfeição. Da união de Oxaguiã com Iyemanjá, nasceu Ogum, orixá guerreiro como o pai. Ogum guerreia para destruir o que precisa ser renovado, enquanto Oxaguiã luta para construir o que foi destruído. Neste vai e vem de batalhas, Oxaguiã foi um dia à cidade de Ogum para buscar munição e encontrou o povo em festa. A comemoração era pelo término da construção do novo palácio do rei Ogum. Tudo parecia perfeito. Não para Oxaguiã! Ele bateu sua poderosa espada no palácio, que ruiu imediatamente. O povo ficou irado! “Tanto trabalho jogado fora, por um capricho de Oxaguiã”.

O pai de Ogum então falou: “O rei de vocês está em guerra e não voltará tão cedo. Por que entregar este palácio para ele, quando um muito melhor pode ser construído?”. Passado um tempo, Oxaguiã retornou à cidade e encontrou o palácio reconstruído. Entretanto, tudo se repetiu: O pai de Ogum destruiu o novo palácio e ordenou que o povo construísse outro, ainda mais perfeito.

Aconteceu que o dia da volta de Ogum se aproximava, só restando para Oxaguiã contentar-se com o último palácio construído, que para todos estava mais do que perfeito. De tanto reconstruírem o palácio, os moradores daquela cidade passaram a ser conhecidos como “os construtores quase perfeitos”. O povo não gostou daquele “quase” e ousou reclamar com a divindade. Oxaguiã disse: “A perfeição é como uma donzela arisca, ela se compraz em ser buscada, mas nunca permite ser encontrada e muito menos ser cultuada”.

Esse itan (estória narrada de geração para geração) fala sobre a importância da busca pela perfeição. Outro dia ouvi o seguinte comunicado: “Não basta fazer, é preciso fazer com amor”. Eu completo esse lindo comunicado, dizendo: Não basta fazer, é preciso fazer com amor, mas fazer bem feito. E ninguém faz nada bem feito se não tiver tempo. Se a preguiça é o inimigo número um da perfeição, a falta de eficiência para lidar com o tempo é o número dois. É por isso que se diz: “Quem tem tempo faz a colher e borda o cabo”.



Quem tem tempo faz arte. E a arte é uma das importantes formas de aproximação com o sagrado. Não é preciso ser artista para se fazer arte, é preciso apenas se tentar fazer as coisas da melhor maneira possível. Tanto nas coisas mais simples, como nas mais complexas; tanto nos assuntos sociais, quanto nos assuntos religiosos.
Lavar os pratos e estar atento para não deixar na pia nem um grão de arroz, de modo que a harmonia e pureza externas ajudem a harmonizar o interior de quem penetre naquele recinto, é arte. Quem me ouve ou lê o que escrevo está acostumado a ouvir a frase “estou sempre correndo atrás da perfeição”. Acontece que quanto mais eu corro atrás da perfeição, mais parece que a perfeição corre de mim. É como um gostoso jogo de “picula”, onde não tem vencido nem vencedor. E a graça consiste exatamente nisso: tentar, incansavelmente, domar essa virgem rebelde. Sim, acredito ser realmente virgem, a perfeição.

Não conheci ninguém que conseguiu casar-se com ela, apesar de não lhe faltar pretendentes. Entretanto, todos nós gostamos de crer que existem pessoas perfeitas. Gostamos de criar ídolos. Um grande risco, tanto para quem idolatra, quanto para quem é idolatrado. Parece que precisamos de ídolos para seguirmos, como se a “perfeição” (ou o axé) do outro pudesse ser por nós absorvida.

O caminho para a perfeição não é reto, ele é cheio de saliências e reentrâncias. É um caminho individual, como individual é o encontro que cada um tem com sua própria forma de construir e reconstruir seus palácios, sejam eles de areia ou de cristal. A perfeição, como o próprio nome indica, é um movimento em direção a: alguma coisa, algum lugar, alguém… Aperfeiçoar-se é simplesmente manter-se em movimento; é buscar sempre o que lhe parece faltar a cada dia, a cada momento. E é Oxaguiã o orixá que nos auxilia a manter acesa essa chama. É Oxaguiã o orixá que estimula o progresso.

Maria Stella de Azevedo Santos (Mãe Stella de Oxóssi)
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.
Quinzenalmente, seus artigos são publicados em A TARDE, sempre às quartas-feiras.

[Fotos: "Run de Oxaguiã" - Ile d'Osala - Queimados/RJ e Ile Asé Odé T'Olá - Juquitiba,SP. - Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

23 de julho de 2015

Preto no Branco que Colore o Coração (Iya Branca de G'unté)


Faço questão de compartilhar esse lindo pensamento de minha mãe, que hoje, ao comentar o novo set fotográfico (Clique para ver) Cotidiano de Axé em Preto e Branco na Olhar de um Cipó, me tomou de emoções. Benção, Mãe! 

"O preto no branco colore meu coração de emoção.
 Sou Mulher de Fé, quando vejo essas fotos viajo nos pensamentos e transformo em palavras o que Esu faz de melhor a alegria de ser lembrado.
Orunmila me deu familia; Yemonja abençoou meu Ori; Osun me deu crianças; Ogun certeza; Omolu deu terra firme e Sango bons amigos. Ossaniyn me deu com seu verde a esperança, Odé me presenteou com o foco; Nana com o silencio me ensinou a ninar meus medos. Oyá essa sim, me mostrou que preciso ter sempre cabeça erguida, como toda a mulher deve ter; Logun ede que sutileza me mostrou a articulação das palavras.
Vocês nem imaginam o que Osumare teve de trabalho comigo me mostrando que a língua era venenosa; Iyewa me ensinou que a gente pode se misturar; e com Iroko aprendi que as estações passam e a gente sobrevive.

Só posso finalizar com a Paz e serenidade de Osaala, que por inumeras vezes me acalmou quando com lagrimas nos olhos me senti perdida e me disse que esperar era preciso.
Convido a todos a aprender com a Fé."

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved
 

16 de julho de 2015

Há um Odé em Mim




 
Orixás Caçadores são as forças - ou estado da energia, responsáveis por impulsionar-nos a caçar o que nos é de necessidade.

Em algum momento da vida, essa força te fará um caçador. Seja o caçador arisco que entra na mata levando tudo nos peitos e apanha a caça na força; seja o caçador ardiloso que calculará milimetricamente a distancia de sua presa (objetivo) e usará da inteligência para não precisar deferir golpes bruscos; seja o caçador persistente que não volta para a aldeia sem que esteja levando sua caça - e isso pode demorar um dia, uma noite, semana, meses e até anos... O Caçador não te fará desistir de quem você é e nem do que quer ser.

Sim, todos nós temos uma força vital que, uma hora nos ensinará a Caçar o alimento, o Sentimento, e o Amor. Porque os Odés querem que nós cacemos - Caçar para não ser Caça... Como foi assim, O Caçador que há em mim, me ensinou:




Em largos passos, Ele alcançou sua caça, e me pediu...
Pediu que eu caçasse um meio termo para andar na linha
Mandou que eu caçasse um jeito de buscar, direito, o que caço
Ordenou que eu nunca fosse caça
Me ofereceu a arma de caçador, e lá vou eu
Caçar um jeito de ser Feliz...


Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

 

14 de julho de 2015

Sobre caçar Borboletas e medir Axé e Selfies


Não. Eu não tenho problema algum em falar dos problemas que o Candomblé enfrenta. Não tenho e acho que não deveríamos ter. Acho até que se falássemos mais, instigaríamos mudanças que já passaram da hora de acontecer. 
Eu até tentei não comentar sobre as fantasias de um artista muito bem seguido (e agora "perseguido") pelo povo de Santo. Tentei não comentar, mas sempre pensei sobre os temas abordados com muita veemência. 

O meu não gostar do trabalho onde Odé Caça Borboletas tem a ver com dois pontos: 1- Meu Não gosto pela estética onde os Orixás ostentam megas torços coloridos psicodélicamente. E 2- por ser da opinião que por mais que nós jovens estudemos, busquemos e nos aventuremos na literatura produzida com os contos, parábolas, rezas e receitas do culto a orixá, não teremos tanta propriedade para falar do tema, como nossos mais velhos tem e sempre terão. 
Sim, eu sou do tipo que tenta ler muito, mas que prefere ouvir muito o mais velho. 
Não me aventura a recontar - muito menos, criar - Itans porque sei que a minha pouca idade não me dá a propriedade adquirida ao longo da vida sacerdotal de um Agbá. 
Logo, lugar de gente nova, é sentado de ouvidos abertos, e a boca mais fechada possível. 

Concordo que a informação e conhecimento estão aí para todo mundo, que a internet nos ajuda a aprender e ensinar (todo mundo quer ser professor, né?), mas tratando-se de uma tradição de ensinamento oral, como me permito acreditar cegamente em tudo que me brilha os olhos na internet e descredito o que me foi ensinado em casa a partir dos anos de vivência da minha comunidade? 

Tudo bem, até entendo que há sim uma carência tremenda do povo de santo que não tem suas expectativas sanadas a curto prazo. Acontece que candomblé é um filosofia de vida e o conhecimento deve caminhar junto com a sabedoria. A sabedoria só chega com o tempo e ela que te segurará, por exemplo, quando você acordar com vontade de criar um Caçador que se embrenha nas matas atrás de Borboletas. 

Embora eu seja um grande defensor do registro fotográfico e filmado das experiências, cerimônias e cotidiano do candomblé, ainda não consigo entender o poder que as selfies tem dentro dos momentos religiosos. 

Não preciso ir longe para lembrar o episódio da Selfie no Velório - com caixão, defunto e tudo -de um sacerdote de candomblé. 
Quando vi a imagem, minha vontade era mesmo quebrar meu celular, por mais que eu sentisse falta das minhas tantas selfies que tem lá. Sim, eu uso o celular para selfies, é normal, né? 
Só não é tão normal quando se interrompe a dança sagrada do Orixá para garantir uma foto; Não é normal e é um tanto estranho optar por selfies em momentos e espaços que deveríamos trocar as câmeras de smarthphones por posturas educadamente sérias para lutar contra as inúmeras agressões sofridas pelo povo de santo, dia após dia. 

A Representatividade deu espaço à Representação (de representar personagens, Sim!) tornou-se cultura de que é preciso da selfie em todo lugar, ou melhor, é preciso estar nos lugares para garantir a tal selfie e assim vender o peixe, o Axé. 
Não basta mais só promover as luxuosas festas, consultas e tabelas de preços para momentos esotéricos, é preciso brilhar os olhos, seja com cores pscodélicas ou com selfies - palavra chata que até eu cansei de repetir, rs rs.

O maior perigo disso é que tem muita gente de bem comprando sorrisos bonitos de picaretagem travestidas de Sagrado. Isso sim é um problema grande. Da mesma maneira que, pode sim, aparecer alguém dançando com um pote e vidro na mão, justificando ser ferramenta do Senhor da tal Borboleta, já vendida como fundamento. 

Preciso dizer que, infelizmente, estamos em um caminho perigoso. Pensamos que não, mas há muitos que nos olham e conseguem perceber o que, de fato tem verdade, ou não - Isso me alivia. Alivia, mas não tira a nossa responsabilidade de arrumar a casa que tá bagunçada. Cabe a nós falarmos das nossas alegrias e tristezas, cabe a nós falarmos o que anda certo e o que não anda tão certo, para a religião não se perder mais. 

Por outro lado, e para terminar, preciso dizer também que acabamos por fazer bem a aula de idiomas, adotamos o sentido real da palavra, que pode ser definido como: "si mesmo", e colocamos em prática um contra-axé tão antigo quanto a história da religião - Olha ai, o velho Egocentrismo do Candomblé, agora vem em imagem e palavra (Self)... É verdade, estamos cada vez mais chiques e distantes, né? 

Foto e Texto: 
 Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

13 de julho de 2015

Família de Santo


"... Ser mãe ou pai de uma família de santo hoje, no meu entendimento, exige muito mais que antes já que hoje não estamos isolados, vivendo nos nossos guetos, em comunidades que de certo modo eram extensões dos terreiros.

Hoje, estamos agindo, interagindo nos terreiros e ao mesmo tempo dentro da sociedade, queiramos ou não. Quem somos nós hoje no terreiro? Quem somos nós hoje na sociedade? Até que ponto temos o controle da base da educação, dos valores que nossas crianças, os nossos jovens recebem? Ainda que insistamos em sinalizar em apontar valores nos quais acreditamos, podemos competir com a mídia, com as instituições que aí estão a mostrar o contrário?

Diante do quadro em que estamos inseridos, as comunidades dos terreiros têm que iniciar para o viver hoje não só transmitindo o legado das tradições recebidas, mas educando para viver esse legado fora do ambiente do terreiro, como trazer para o ambiente do terreiro as questões que nos afligem e que é parte do nosso cotidiano dentro da sociedade em que vivemos a fim de
buscarmos saídas, caminhos de solução."

[Trecho de "Família de Santo e Educação" de Valdina O. Pinto. Foto: Iyalorisa Branca de Iya G'unté e Elegun de Ogun do Egbé Iya G'unté - Roger Cipó © Olhar de um Cipó]

A Culpa é da Marmota


(Texto de Roger Cipó)

Chegou curioso, malandreado e um tanto afobado para entender todo o movimento. 
Tenso, não queria saber de tempo e sim de seu contentamento, cai dentro investiu no tormento e foi...
Três batidas na porta de tal da Sinhá e do  convite para entrar, soou aquele Agô antes de avançar. Ah, palavra que não podia faltar, meio que popular, aprendida nas andanças de quem busca um patuá, na besteira de ostentar, e ele entrou.  Mas não demorava a sair.

"Menino venha aqui, pois uma coisa vou lhe pedir: Não quero promessa, nem mesmo dim dim, o que eu te peço, moço novim, é que espere o Orixá chamar por tí!"
"Mas minha velha, como assim?  Como chamar, se é isso que quero pra mim. Já até escolhi roupas, panos, penas, Igbin...
Bem, não paguei... mas parcelei tudim... 
Olha, a senhora que me de outro Ago, posso ser pequininim, mas vou seguir sim!"

E lá se foi, agora mais bravo, pois sem o resultado esperado, ainda tinha lama em seu branco sapato, igualmente parcelado, que no quintal da marmoteira havia sujado.
"Ah que eu nunca mais volto naquela marmota... Essa muié deve tá morta! Se negou ao meu torço da moda, os panos afros que trouxe de fora, mandou cancelar a compra das angolas e me diz que não é minha hora. Quer saber? Eu quero é prova. Não preciso de esmola, eu mesmo pago quem faça agora"

"Se sentido indignado", era o post seguido de triste relato, que logo no chat foi amparado: "Menino entendo o que tens passado, mas estou do seu lado. Pegue logo suas coisas, sou seu amigo e tô com tudo preparado." Mais que imediato, o amor foi  revelado ao Babá que entendera que nada é por acaso.

"Sim! Aqui você foi aceitado. Não ligue pra'quela que disse que o momento é o errado. Até porque, seu Orixá, eu mesmo tenho moldado!"

Por mais de cinco vezes, revirou as roupas e assegurou que tivesse perfeito.

"Ah tá que dou motivo para o povo achar defeito. Vou sai  bem melhor que uns 'sujeito'". Saiu.
Plumado, atracado em seu pano importado de detalhe aveludado, no tecido engomado. Até Posou para o retrato.
 "Olha lá, já nasceu ousado." "Que nada, isso é filho mal criado" - É que o povo resmunga, só não manda recado. 

E agora, o povo queria ver o que viria, ritmado pelo couro, que tocava em maestria. Mas lá no fundo do quintal,  algo estranho acontecia. Enquanto a palma batia, ninguém aparecia. Só sei que o pai de santo tremia, a visita não entendia.

"Oh meu velho, me diga o que que há?"
"Nada minha velha, é coisa que resolvo já."
"Ah tá, mas uma coisa não entendi. Quando ele vai virar?"
"Oras minha mãe. Não é nada pra falar. Mas tinha pressa pra terminar, e eu pouca história pra contar... Nem meus sete, consegui arriar... Mas sabe, né? Sou de bem, resolvi que ia ajudar. 
Fiz de tudo que sabia, para iniciar,  só me restou uma duvida, acho que pode colaborar.

Já que tu bem mais conheces, Como chamo o Orixá? 

[Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved] 

8 de julho de 2015

Ajere: Ọya e Ṣàngó na disputa pelo inọ́n!

O ritual do Ajere tem como fundamento principal a disputa entre Yánsán e Ṣàngó pelo dom do uso do fogo.




Ajere é especificamente o nome da própria panela na qual se faz o ritual. Ela é repleta de buracos, por toda parte, por onde escapam línguas de fogo.

Ìtón (mito) resumido:
 Ṣàngó sempre em busca de novas formas de poder bélico para controlar e dominar seus adversários, enviou um mensageiro a Èṣù solicitando que este lhe fizesse uma magia para que Ṣàngó passasse a ter domínio sobre o fogo (inọ́n). Èṣù aceitou a encomenda com duas condições, uma que ele deveria receber um cabrito como sacrifício e outra que a esposa de Ṣàngó, Ọya, deveria ser a portadora da magia.

Dias depois, já feito o sacrifício para Èṣù, Ọya foi até ele para buscar o poder produzido. Èṣù entregou a Ọya uma pequena cabaça enrolada em folhas sagradas, ewé ọ̀gbọ́, dizendo-lhe que tivesse cuidado no transporte da poção e que não a abrisse. Ọya, muito curiosa, abriu o pacote e viu que dentro da cabaça havia um líquido muito vermelho e dele tomou um pouco. Nada aconteceu e ela seguiu para o palácio do Aláàfin de Ọ̀yọ́. Ao chegar e entregar o pacote ao ọba, da boca de Ọya saíram faíscas de fogo e Ṣàngó então percebeu que ela havia experimentado um pouco da poção mágica. Ṣàngó ficou enfurecido e Ọya fugiu de sua ira.

Ṣàngó, por sua vez, retirou-se para uma montanha e lá tomou todo o líquido que havia na cabaça e este líquido o fez espirrar. O ọba viu sair de sua boca e de suas narinas imensas labaredas e percebeu que dali em diante seria o dono do poder sobre o fogo, o que o tronava mais poderoso do que nunca.

É nesta perspectiva que se dá o ritual do Ajere, numa representação da disputa do fogo entre esses dois Òrìṣà.
O ritual:
 Uma panela de barro repleta de brasas é trazida na cabeça por Ọya que em meio ao toque do àlúja dança e a entrega a Ṣàngó que após dançar com ela, devolve a Ọya novamente  sucessivamente. No fim, é Ṣàngó quem termina com a panela de fogo simbolizando que o poder do fogo é dele.
 Ṣàngó sai novamente distribuindo entre fieis o Àmàlà, comida feita com quiabos, camarão, azeite de dendê, dentre outros ingredientes, ao som do seguinte cântico:
 Yorubá:                    
 Àjàká  máa  bẹ̀  ká  wòóo
Àjàká  máa  bẹ̀  ká  wòóo
A e bàbá  Àjàká máa bẹ̀ ká wòóo                             
 Pronúncia:
 Ajacá mabé cauô
Ajacá mabé cauô
Aê babá, Ajacá mabé cauô
 Tradução:
 Àjàká não implora nem mesmo ao poderoso Ṣàngó
Àjàká não implora nem mesmo ao poderoso Ṣàngó
Nosso pai Àjàká não implora nem mesmo ao poderoso Ṣàngó

Àṣẹ!

Texto extraído do portal Ìwé Ìmò - Candomblé sem Segredos
Fogueira de Sango - Egbé Iya G'unté 2014 - Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

7 de julho de 2015

Coração de Ferro



To pra conhecer um Duro Coração de Ferro que não estremeça ao som do Adarrun
Ainda não vi carne mais dura,
que Aquela coberta de Mariwo
Nada... 

Ainda não provei nada que seja mais gostoso 
que o Feijão Preto bem temperado pra mata fome de guerra
E não me diga que existe amigo melhor que o Cão,
Nesse mundo Cão
Haja Ajá para nos aturar!

Aquele cordão de Ouro caro, banhado em qualquer coisa 
Quebra fácil quando encontra minhas correntes de ferro
Salgadas em suor de quem Luta
É que eu gosto mesmo de amolar arma na mão 

Não tem arma de fogo não. Porque do fogo, nasci
Não tem coronel, não tem alibã, não tem capataz, ninguém no divã
Faca cega é pra quem tem fé Cega
Eu já me fiz sentinela das ruas de terra
Nem chorar consigo

E quando choro, há lágrimas quentes que forjam espadas
E por nada, do nada, eu volto pru tudo ou nada e fico com Tudo
Do Mundo, Mariwo pra escudo,
Nem que seja no escuro, Não fico mudo 

E Luto
Faço Guerra, Serpenteio, Peço o inteiro pra cortar maldade em pedaços
É que sou filho do Aço
Do seu Dom não desfaço

No mundo não me embaraço
E somente em sua presença,
No seu canto e encantos... Somente no seu compasso
Quando em seu Adarrun me acho
E meu coração de Ferro, Desarmo
Pois, eu desarmo e sou Amado
Quando Ògún está Armado!

[Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

6 de julho de 2015

Senhor do Silêncio



"Sabe-se que os antigos nem seu nome gostavam de chamar 
Era algo de Respeito acompanhado de um Temor que ninguém queria conhecer 
Seu nome nunca o traz sozinho,
Ele senhor da Terra, dessa Terra que tudo come
Traz o outro mundo no nome 
O mundo daqueles que se foram, mas não foram com fome
Há quem diga que por traz de suas palhas
Há uma beleza que não se espalha
Esconde em si todos os raios do Sol
Um calor que aquece, queima, mas não falha
Nasce da Terra como a vida que se restitui, todos os dias 

Nasce da terra por magia que se aflora 



Nasce do estourar de Pipoca
Pipocando em flores tudo aquilo antes doente, demente
Senhor de dança quente, de brilho reluzente
Quase que cega quem mente...
Há quem diga que seu nome é tão mistério quanto é sua dança,
Mas não se cansa, Cura em Amor, Cura na Guerra quando empunha sua Lança
E lança pelo mundo para germinar as nossas andanças, nunca é só lembrança...
É vida que guarda a outra vida com sorte
É caminho que protela e acaricia a morte"

[Foto: Olubajé - Egbe Iyá G'unté 2014 - Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

4 de julho de 2015

Quem se curva, se curva por quê?


Nenhum nome, 
Nenhuma raiz, 
Nenhuma casa tradicional,
Nenhum filho do Asé y ou x,
Nenhum rechillieu,
Nenhum brocado africano,
Nenhum torço,
Nenhum um fio de estrondosas pedrarias,
Nenhum sentimento de superioridade...

Nada está acima da força responsável por nossa existência.
Por entender o quão pequenos somos diante de tal energia, é que entendemos também a necessidade de se curvar perante as divindades.

Feliz daquele que tem essa consciência e dignidade em seu sacerdócio para se dobrar na presença do Orixá.

Curvar-se, antes de tudo, é poder agradecer pela oportunidade de vida, pela saúde, pelo ar respirado, pela terra pisada, pelo amor e amparo das forças sagradas.





Oras, mas se Orixá é tão grande assim, porque se curva também?

Orixá se curva por respeito a quem o cultua. Orixá se curva também em gratidão pela oportunidade de ser evocado e pela oportunidade visitar seus descendentes para dançar, celebrar, cuidar, e dar carinho. Dar aFÉto.

Sei que Orixá é uma força sagrada que vive no vento e por isso pode estar onde quiser, quando quiser, mas o fato de poder habitar a carne, cabeça e coração de um de seus filhos é algo mágico e que depende de uma linda cooperação entre as divindades e nós (perigosos seres humanos errantes). Sim, Orixá precisa do nosso tocar de atabaques, do nosso cantar sagrado, do nosso rezar com fé e das palavras que os Deuses ancestrais ensinaram para os mais velhos e que se perpetuaram até os dias de hoje. Tudo é integração, tudo é cooperação. E em sua onisciência, quando Orixá se dobra para alguém, agradece pela preocupação, cuidado e pelo chamado para o nosso tempo.

Tudo isso, porque a gratidão é também um Axé, e como bons pais e boas mães, os Orixás nos ensinam com exemplos. Ensinam sim que devemos nos dobrar por tudo aquilo que acreditamos e por agradecimento à todas as experiências que nos são ofertadas para viver.

E se Orixá fielmente se curva, quem somos para mantermos os narizes em pé e não nos dobrar em Amor, Respeito e Gratidão?

Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

Amor que vem do Mel




Mais Doce que o Mel 
É o Amor entre Osun e Osaala
A cumplicidade Mais Linda, a Reverência mais Apaixonante... 
Ela: Ventre do Mundo 
Ele: o Fecundar das Espécies
Ela: Placenta de Amor
Ele: Primeiro suspiro
Ela: Lágrimas doces da chegada
Ele: Oxigênio que toma o corpo
Ela: O sorriso no Brilho de Sol
Ele: A Paz do Céu Mais Lindo

Por aí vai, e sempre se completam
Sempre se Respeitam
Ele: Rei que atende ao que Manda a Rainha
Ela: Rainha que nunca se opõe ao seu Preferido
Ele que compartilha do Doce do seu Mel
Ela que sabe como ganhar dele o que quiser
Ele que é Pai, Amigo, Conselheiro e Amor
Ela que é Amor, Amiga, Conselheira e Guardiã da Doçura de Osaala.
São únicos e é melhor só sentir, já que é Muito Amor pra tentar explicar.

[Roger Cipó - Olhar de um Cipó © Todos os Direitos Reservados]

3 de julho de 2015

Revivo Osaalá






Eu não pestanejarei diante de suas ordens

Não gritarei porquês e nem pedirei explicações 

Cairei
Uma, 
Duas, 
Três, 
E quantas vezes precisar, mas andarei 
Calado. 
Somente seu Silêncio alimentará meu Eu 
Somente a sua Perseverança perdoará minha astúcia 
Porque eu me sujarei de arrogância, 
Uma, 
Duas, 
Três, 
E algumas outras vezes, 
Mas terei em ti águas para sede 
Eu, andarei, não falarei, aceitarei a prisão em minhas atitudes
Serei detento das minhas próprias escolhas, e errarei 
Uma, 
Duas, 
Três, 
E algumas outras vezes
Pode ser que me falte cama e conforto 
Pode ser que um passo me leve ao escuro da ignorância em sereno 
Mas o acalanto da fé no Senhor 
Que me guardará em limpos panos brancos

Uma, 
Duas, 
Três, 
E quantas vezes eu precisar
Reviverei Osaalá


[Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]