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24 de fevereiro de 2016

Desconstruir é Importante: 17 Inverdades sobre o Candomblé



1. “O Candomblé não é lugar da família e um casal não pode pertencer à mesma comunidade” – o Candomblé é familiar e nasce para a reconstituição da família e para a sua manutenção. A palavra Candomblé poderia ser sinônimo de “Família”;

2. “Candomblé não é o lugar de crianças” – no Candomblé, acredita-se no interminável, no contínuo, em uma linha sem fim que inclui todos, desde os mais jovens aos mais velhos; 

3. “Cada Casa é uma Casa”– somos parte de algo maior e, por isso, quem se crê único toca apenas levemente o todo. Pode acontecer, mas não é uma verdade absoluta; 

4. “Somos desorganizados, desunidos” – não! Não somos! Se fôssemos, nem Candomblé teríamos (...) Fomos, intencionalmente, excluídos dos movimentos sociais, culturais e da política e, agora, estamos fazendo o caminho inverso. Some-se a isso a questão de seremos “denegridos” e, durantes séculos, termos sido obrigados a viver na segregação, no silêncio e guardados em “nosso mundo”; 

5. “Somos fracos e não lutamos!” Lutamos, diuturnamente, desde que fomos arrancados da nossa Terra, da nossa Família, da nossa História, das nossas Crenças e da nossa Cultura. Criamos estratégias sutis de luta e manutenção desses valores e, por isso, podemos praticar “livremente” o Candomblé hoje. Se assim não fizéssemos, estaríamos todos mortos e com ele o Candomblé; 

6. “O Candomblé é o lugar da dor, culpa e sofrimento” – quem ou que povo, em sã consciência, criaria um sistema de crenças e valores para desunir, torturar, desumanizar mais ainda as pessoas? Considerando a escravidão, esta mentira não faz sentido algum; 

7. “As pessoas estão no Candomblé por amor ou pela dor”: a dor é das pessoas [sim, somos humanos] e as divindades clamam pela nossa aproximação para que possam nos proteger e cuidar de nós; as divindades foram designadas pelo “criador” – “pré-existente” para criar o mundo, cuidar de nós e nos manter vivos e felizes;

8. “Orixá, Nkisi ou Vodun matam ou podem matar aqueles que deveriam guardar” - não faz sentido, os três valores do Candomblé são: 1) Filhos (descendência e manutenção da memória); 2) Longevidade (se a “divindade” matasse e fosse feita para isso, iria contra este princípio ancestral); 3) Poder de trocas (que dizem respeito às relações, aos movimentos e à ética do empoderamento);

9. “Candomblé é coisa de gente sem cultura” – a pergunta é: como alguém sem cultura conseguiria praticar, a um só tempo, uma “Fé”, “Ciência”, “Filosofia”, “Cultura”, “Medicina” e, de quebra, manter a África Ancestral no Brasil, mesmo diante de sua negação e diante do Racismo? 

10. “Somos bruxos e feiticeiros” – sim, há bruxos e feiticeiros no mundo, mas não podemos falar por eles. O Candomblé é da natureza e dos fenômenos da natureza; acreditamos em milagres, no intangível, no invisível, mas quem não acredita? 

11. “Não acreditamos em ‘Deus’ (...)” – crença e cultura são fenômenos sociais intrínsecos; o fato de a nossa crença voltar-se a divindades “negras”, “africanas”, “míticas” e “da natureza” não quer dizer que não acreditamos em Deus;

12. “Somos antiéticos e imorais” – a moral é um princípio cristão e tem bases no culto ao medo e à culpa, ela não empodera o outro, apenas o aprisiona e controla. O Candomblé é o lugar de uma ética do empoderamento, ou seja, estamos em família e, ao empoderar o outro, todos se empoderam. A visão de mundo do Candomblé é afrocentrada e, por isso, fala-se em ética do empoderamento. Há valores, há disciplina, há um código de ética e muitas lições ancestrais. Mas deve ser sempre um convite, nunca uma convocação;

13. “Não temos liturgia – sistema organizado de crenças, valores e princípios”. Temos e ela é levada a sério, porque, ao desrespeitá-la, negamos o “criador”, os “nossos guardiões” e os fundadores do Candomblé;

14. “Eles judiam dos animais e os matam” – o Candomblé possui um “Modo Tradicional de Alimentação”, alimentamo-nos da mesma proteína animal comprada no açougue e comida fartamente nas churrascarias, mas somos contra a dor, a tensão da “imolação” e contra o modo como a sociedade em geral consome carne. Comemos bodes, galinhas, galos e aves, escolhidos ou criados por nós, tratados, lavados, honrados ritualmente e, depois, essa carne sagrada se junta à comunidade e une a comunidade. O princípio é do repasto e do comer em família e isso começa desde a escolha ou criação do animal que servirá de alimento. O rito não inclui barbárie e fazer o animal sofrer, como é comum em abatedouros, não faz parte do rito ancestral;

15. “Eles cultuam os mortos e pedem o mal a eles” – sim para cultuamos os “mortos” – tomos aqui o sentido ocidental e assustador da palavra. Cultuamos os mortos, mas não como a nossa coirmã Umbanda, que também não prega o “MAL”. Somos a religião da memória ancestral, da continuidade, o culto àqueles que estiveram conosco é um museu historiográfico. Honramos a “morte” que nos toca quando chega a hora e honramos igualmente os nossos entes queridos e isso se dá por meio de um complexo conjunto de ritos e saberes ancestrais; 

16. “Todos são homossexuais no Candomblé” – pouco importa afirmar ou negar isso. Eles também estão conosco e em família. No Candomblé, todos são humanos e a sexualidade ou identidade de gênero, que são coisas diferentes, são humanas e como o Candomblé é humano e essas pessoas são, igualmente, filhos e filhas do criador, estão conosco entre humanos. Somos todos humanos.

17. “Somos APENAS uma religião” – não, não somos apenas “isso”, no sentido ocidental da palavra – creio que nenhuma religião o seja “só isso” conceitualmente; somos um Quilombo Urbano, Quilombo Contemporâneo, somos guardiões dos saberes ancestrais africanos, somos negros, somos seres-humanos unidos para resistir à segregação que se apresenta por meio dessas mentiras, somos homens, mulheres, jovens e crianças, somos um espaço privilegiado que reproduz valores ancestrais da África Negra; somos o lugar do corpo e da palavra, somos o amor e a vida que se volta ao criador por meio da natureza e da humanidade.

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Texto de Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira
Babalorisa da CCRIAS – Comunidade da Compreensão e da Restauração Ile Axé Xangô São Paulo, 12 de março de 2015. 
criasango@gmail.com
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Coordenador do Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial “Conversa de Terreiro” – Jornada de Diálogos, Estudos, Sistematização de Conhecimentos Ancestrais da África Negra no Candomblé Nagô-Queto – criasango@gmail.com

Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

30 de dezembro de 2015

Para Quem e Para Que Fazemos ou Somos de Candomblé?




(...) quando eu empodero o outro, eu me empodero também. Porque, quando ele entende o que eu compreendi, passa a ser parte de mim.
Ontem em conversa com uma irmã do Rio de Janeiro, mulher, negra, ativista, escritora e de Candomblé; terminamos a nossa conversa até altas horas da madrugada com esta questão: PARA QUEM E PARA QUE FAZEMOS OU SOMOS DE CANDOMBLÉ?
Na mesma hora, uma filha de santo de Osun, manda-me a boa notícia de que o edital do Iphan referente à Edital PNPI 2015 - Prêmio Boas práticas de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial e tínhamos o início da resposta a nossa questão.
Parece-me que os motivos pelos quais deveríamos fazer Candomblé se perderam ao longo do seu caminho histórico.
A mim, o Candomblé nasce como um movimento de resistência negra. Diante de tanta dor, tanto sofrimento, opressão e subalternização dos seres humanos escravizados no Brasil e da tentativa de retirada de sua negritude e africanidade, a família negra se mobiliza para que, de alguma maneira, pudesse ter, aqui no Brasil, um pedaço de sua África Ancestral – nagô, fon ou banta e, por isso, passamos a ter o Candomblé.
Obviamente, estamos diante de a-FÉ-to. A fé nas divindades africanas, na força vital, no sopro de vida, na cabeça ancestral e na ancestralidade africana como um todo se mobiliza para que esta família sobreviva, cure-se, fortaleça-se, renove-se, ame, tenha filhos, vida longa e para que esta família e os seus sejam protegidos por seus ancestrais e pelas divindades africanas e para que tenham uma caça próspera de modo que possam (sobre-) viver como seres humanos que até então não eram.
Sempre me pergunto se, no momento, da gênese do Candomblé tínhamos tudo o que temos hoje; porque, salvo engano, ela nasce pronto; foi elaborado e ali já nasciam seus primeiros iniciados; não sei se ele nasceu como uma colcha de retalhos que foi se tecendo ao longo dos anos e se podemos atribuir a sua completude ao século XXI.
Muito pelo contrário, penso que podemos atribuir ao século XXI a sua incompletude, pois, certamente, buracos deixados pela falta de vivência foram sendo tapados com coisas não necessariamente do universo africano no Brasil.
Hoje, o que conta são os “bodes” – a quantidade deles determinará os ganhos, o número de dias – quantos mais dias forem utilizados para a iniciação mais forte se diz que ela será, a roupa mais bonita e o adê mais alto, o pano de cabeça, igualmente, mais alto e mais vistoso; pois, essas são as verdadeiras contribuições do século XXI – apenas para citar algumas. Na sociedade do visível e do ter para ser, o que importa é a concretude das coisas.

Sou muito jovem, eu sei que sou jovem, mas, tendo eu nascido em uma família de axé, vejo com tristeza os rumos do Candomblé. Obviamente, eu também, como todo mortal, fui contaminado e acreditei, por alguns anos, que o exagero agradaria Orixá, mas, chega o dia em que você precisa (re-)pensar como o fazem os filósofos, tudo o que lhe disseram que era verdadeiro e bom e tudo o que tomou como verdade absoluta.
Vejo agora que, quando pensava desta forma, ou seja, na grandeza, na materialidade, nos bodes gigantescos, no Ojá de edredom e apenas no resultado de um suposto pacto, nem negro era. Não pensava como negro e nem pensava o Candomblé como negro e de origem africana.
E ali estava o meu maior problema; eu não fazia Candomblé, fazia algo europeu e cultuava o etnocentrismo com o nome de Candomblé.
Creio que um dia temos que acordar nos perguntar: por que e para quem fazemos Candomblé?
Hoje, vejo que o Candomblé se faz para a manutenção da memória ancestral, integração humana, também pelos a-FÉ-tos, e, sobretudo, para que possa ser um espaço da Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.
Não sei se a minha voz lhes parece excludente, não gostaria que soasse assim, mas falo de coração aberto que precisamos pensar, falar, conversar e entender a grandiosidade do Candomblé e o seu papel social para além das estratégias de fragmentação que o opressor nos impôs e aceitamos – porque sempre são sutis e com a sutileza própria daqueles treinados para dominar os que subjugam; este mesmo opressor que, de alguma forma, transformou-nos em algo que não deveríamos ser.
Convido a todos do Candomblé para um diálogo franco e aberto com vistas ao “empoderamento” por meio da nossa essência e por meio do que nos for autentico e nosso.
Porque, quando eu empodero o outro, eu me empodero também. Porque, quando ele entende o que eu compreendi, ele passa a ser parte de mim.

Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira
Babalorixá da CCRIASàngó
Coordenador do Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial “Conversa de Terreiro” – Jornada de Diálogos, Estudos, Sistematização de Conhecimentos Ancestrais da África Negra no Candomblé Nagô-Queto – criasango@gmail.com
Para Jacqueline Oba Negraline e aos irmãos do Ile Ara
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Fotos: 
Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

3 de novembro de 2015

É Hora de Denegrir o Candomblé!



Já faz um tempo que venho olhando com bastante atenção para as manifestações segregacionistas do candomblé, especialmente o tão aclamado, Candomblé Tradicional de São Paulo. 

Algumas pessoas que me acompanham podem, num primeiro momento, achar que há uma certa contradição nessas linhas, pois grito aos quatro cantos que o candomblé é a religião do acolhimento, da reconstrução dos laços familiares ancestrais, mas não se trata disso. Falo, porque em essência, candomblé é e deve sempre ser o espaço sagrado de acolhimento, onde se comunga em comunidade da importância de ser como se é, respeitando as individualidades e peculiaridades de cada ser.

Mas, como comungar quando o ritmo alucinado, soberbo e individualista da cidade que não dorme influencia tanto a estrutura social das comunidades religiosas? 
Como confraternizar se o candomblé de São Paulo estabelece suas relações e co-existência a partir daquilo que se veste, da quantidade de Omo Orisa - pessoas no axé, do que é servido no Ajeum - ou buffet pós/durante cerimônia, da quantidade de pedrarias, dos metros de panos e do pertencimento ao clã X ou Y? 
Os questionamentos são muitos e, talvez, o mais urgente seja mesmo a reflexão de, como pensar uma religião afro-brasileira a partir de conceitos negros? 
Como denegrir o Candomblé de vez?

Das últimas experiências de diálogos, formações, debates e até discussões, nada tem me chamado tanto a atenção quanto o pavor e negação de muitos quando citada a expressão Religião Negra. E se a verdade causa espanto, eis a importância de se Denegrir de vez o Candomblé!

Denegrir quer dizer "tornar negro", mas socialmente usada, a palavra é usada para explicar que alguém hostilizou, inferiorizou, tornou ruim, ou tornou algo negro/negativo. Mas pera aí! Tornar Negro ou ser Negro é tão ruim assim? Para a sociedade racista em que vivemos, é. Mas para o Candomblé não! É essencial que nossa estrutura seja negra, que nossa educação seja negra e que nossos conceitos sejam negros.

Quando falo de pensar um candomblé negro, não me refiro à tez da pele dos fiéis, até porque racismo não se resume às questões de pele. É uma estrutura de poder, de opressão e que precisaria de um texto inteiro para explica. Principalmente para que não se acredite mais em racismo inverso, e nem em consciência humana.

Acredito mesmo que candomblé é sim a religião do acolhimento, amparo e amor às diferenças e todxs são bem vindos, mas em reforço, repito, nossa concepção é negra.
Criada por descendentes de reinados africanos que foram ultrajados, sequestrados e condicionados à condição de escravos, o candomblé é uma religião de culto a seres africanos divinizados. Yemonjá antes de assumir o domínio e morada dos mares, era uma rainha negra. Osun, antes de se transformar no rio que carrega seu nome, era uma rainha negra. Ogun, antes de se fundir aos caminhos do mundo, era um Rei Guerreiro Negro. Logo, mesmo que as águas da cachoeira sejam cristalinas e as folhas sejam verdes, todas essas energias são negras.



É negro, é negra e negro é Lindo, negra é Linda!
Posso também lembrar o poeta Sergio Vaz que em seu texto "Magia Negra" traz heróis, heroínas, músicos, atores, e personalidades negras e finaliza dizendo que: "Isso e mais um monte de coisas que é magia negra. O resto é feitiço racista", numa inteligente desconstrução de conceitos enraizados em nossa língua que, somente por racismo e opressão, usa o termo para nos associar àquilo que não presta, não é bom, ou envolvo de maldade. 
Quer um dos culpados para isso? Vá até os escritos sagrados e entenda como o cristianismo atuou e segue atuante no ideal da supremacia branca e demonização do negro e sua cultura.

A cultura de ostentação imperialista no candomblé atual retrata exatamente o distanciamento da essência de culto ideal às divindades africanas - digo até que se distancia do ideal africano. Pois se a essência nos motiva a ser, a contradição explicita a importância de ter, e obviamente quem não tem, não faz parte. Assim entendemos as manifestações de segregação na sociedade religiosa: são barreiras visualmente perceptíveis. Aquele que chegar com a melhor roupa, o melhor rechillieu, panos brocados, torços enormes e pedrarias reluzentes é sempre melhor recebido que aquele que opta pelo jeans branco, camisa simples e chinelo de dedo. 
Naturalmente, é importante que cada um se vista com o que te faz bem, concordo e nem discuto. Julgo problema quando aquele que tem condições de usar os melhores panos se sente superior ao sem condições financeiras, e em um grupo de já oprimidos, oprimir também.
Esse tipo de cultura é responsável pelo contraditório distanciamento em uma religião onde, em verdade, deveria acolhe, igualmente, o rechilieu e o morim, mas em colocá-los em uma posição antagônica de melhor/pior ou rico/pobre.

Impossível falar de questões econômicas e não lembrar que negros e negras no Brasil ainda recebem os menores salários e em sua maioria, ocupam os cargos de faxina, serviço gerais, manutenção, operários, vendedores de pequenos portes, e outros serviços e sub-serviços marginalizados. 
E se a sociedade é desigual ao ponto de estabelecer pseudo lugares para negrxs, porque no âmbito religioso reforçaríamos esses espaços?


Como podemos reafirmar idéias segregadoras em uma tradição pautada no amor ao o que se é? Eu que não consigo conceber essa ideia, penso pela desconstrução imediata de todas as barreiras criadas até hoje. Por se tratar de uma religião, um dos caminhos é conhecer a história do povo negro, suas lutas, seus reinados. A história negra começa bem antes da escravidão, bem antes da invasão do Brasil (...) A história do negro antecede Jesus Cristo - esse mesmo Jesus que só foi pintado de branco com cabelos lisos e olhos azuis para satisfazer um mercado onde a branquitude representa o belo, o sútil, o limpo - e a negritude é tida como o feio, o assustador, e a representação do mal na terra.  Isso também explica o porquê de a estátua de Iemanjá, na Praia Grande ser Branca, mesmo que uma representação da Umbanda, em verdade a força da divindade é africana e negra.  Esses e muitos outros mecanismo, de caso pensado, têm a mesma finalidade. Já citei e torno a dizer, enfraquecer socialmente a força e representatividade negra. 

Mas que sigamos pelo enegrecimento do candomblé, em seus conceitos. Enegrecer quer dizer, retornar para os princípios e valores nos ensinados pelas divindades africanas. Restaurar a identidade da religião onde a força maior pisa  solos, descalços e que não precisa de metros e mais metros de panos, para ter vida, porque o importante para o Orixá é Ser e quando o assunto e ter, o único pedido é que se tenha fé e respeito em abundância. Para que os bens materiais e a estrutura social escravagista de nossa sociedade não nos permita reproduzir e estabelecer espaços de Casa Grande e Senzalas nos Terreiros, e muito menos, sejamos Capitães do Mato, contra os nossos próprios irmãos, filhos e famílias de Axé.

Texto e Fotos*:  Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved - *: Exceto a foto da Estátua de Iemanjá: retirada da internet.
Revisão de texto: Professor e Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira. 


22 de outubro de 2015

Omi Eró - O Banho que Acalma a Alma


De longe, eu observava minhas mais velhas entrando na mata. 
Falavam baixinho para não perturbar o Dono das Folhas - que não gosta de barulho e não permite colheita sem que um 'Agô' anteceda a paga. 

Eu olhava... 

Olhava, de cabeça baixa, e só via os pés descalços,

No ouvido soava cânticos que eu acompanhava sem pressa, esfregando uma mão na outra... Era assim, que compassadamente, os olhos iam se fechando.
O pensamento cada vez mais firme nos sonhos, nos pedidos, na cura e calma que tanto queria... Já rezava. - Sem falar do coração que no embalo de tudo aqui, seguia o ritmo e me encorajava a permitir que o danado falasse... Chorava

No canto que chorava, Elas pegavam água, onde mergulhavam folhas e alquimia começara.

Era Lindo! Era mágico! Um perfume exalava os quatro cantos, e a chama da vela encandecia e se movia para afirmar a presença do vento sagrado, que tudo observava, que tudo entendia sobre os meus pedidos e as rezas sutilmente entoadas, em apoio ao meu clamor... Tudo era Amor!

E assim, passo a passo, me despia das vestes sujas e cansadas do mundo, pisava o chão gelado, me dobrava e era cada vez mais frágil, chegando ao ponto de só ter forças para pensar e suplicar pelo conforto que as folhas podiam me dar...

Foi quando, no auge de meus pensamentos, recebi uma cachoeira em mim. 

Era cachoeira, era Rio, Mãe, Mar, Tempestade, Chuva, e tudo se somava às lágrimas que foram deixando de ser de angústias e transformavam-se em Paz, Aconchego e em um frescor jamais sentido.

Estava eu, limpo e prote
gido pela Vida que habita o sumo das folhas. Estava apto a vestir-me de branco, deixar meus chinelos gastados, para poder pisar a terra de Orixá. Era tão intenso e a água que caia em meu corpo, invadia-me de uma forma incrível, e tocava o coração... 

Agora, Eu era, simplesmente, Limpo por Proteção e Amor... 

Foto e Texto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

17 de outubro de 2015

Terreiros e Especialistas promovem encontro sobre Políticas Públicas para Povos Tradicionais de Matriz Africana, em São Paulo



 Entre os dias 23 e 24 de outubro, o CEU Caminho do MAR receberá terreiros de todo o estado para o I Seminário Ìpàdé (encontro) dos Saberes. Um encontro de diálogo entre especialistas, representantxs do poder público, alunxs da rede pública, educadorxs, sacerdotes, sacerdotisas e sociedade religiosa de matriz africana, a cerca das políticas públicas afirmativas voltadas para as religiões afros e comunidade negra.

O Direito de ter direito dos Povos e Comunidades de Terreiro de São Paulo é um dos temas que serão abordados, com a importante participação da Professora Pesquisadora Alessandra Gama – capoeirista, atuante nas áreas de educação, patrimônio imaterial e gestão cultural, além de ser articuladora da Rede SP de Memória e Museologia Social e do Coletivo Salvaguarda da Capoeira de Campinas, que na companhia do Professor e Jornalista Juarez Tadeu de Paula Xavier, fundador da UNEGRO, com importantes palestras de empoderamento para a participação política das lideranças religiosas no o processo de elaboração, desenvolvimento e monitoramento destas políticas para a promoção da igualdade racial, enfrentamento do racismo e de todas as formas de intolerância.


Entre os convidados e convidadas confirmadas, estão a Deputada Leci  Brandão   do Deputado Federal Orlando Silva, Doné Oyacy, Doné Lurdes, Pai Carlos d´Ogum e o Fotógrafo Roger Cipó, com sua exposição Exposição Fotográfica "aFÉto", uma série sobre a Relação de Amor entre Orixás e Fiéis. 
Gratuito, o evento ainda reserva uma animada programação artística, embalada com muito samba de roda, intervenções culturais, entre outras. As inscrições podem ser feitas no dia. Para mais informações e programação completa, clique no link https://www.facebook.com/events/463662060425472/

Serviço:
I Seminário Ìpàdé dos Saberes: Políticas Públicas e Afirmativas para os Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro
Data: 23 e 24 de Outubro de 2015
Entrada GRATUITA 
Local: CEU Caminho do Mar
Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, 5241 - Vila do Encontro, São Paulo - SP


15 de setembro de 2015

Baba Mí - O Candomblé de Pais que não Abandonam suas Crianças




Escrevi esse texto, em agosto de 2015, sobre o dia dos pais, minha relação com a data e meu encontro com a paternidade amada, no Candomblé.  Nesse texto, me proponho a falar de mim. Somente das minhas experiências com o segundo domingo de agosto e de como o candomblé re-significou essa data, em minha vida.

Bem Sou filho de Mãe que cruelmente viveu solitária, trabalhando dia e noite para educar a mim, meus irmãos e outros quatro sobrinhos que ela acolheu quando uma tia faleceu. Isso não é uma história de vitimismo. Tampouco uma tentativa de romantizar as dores que minha mãe atravessou sozinha, durante os últimos 30 anos.É uma história que me ensina sobre a capacidade de amar em meio ao caos.E foi com essa Mulher de força Incrível que entendi que preciso ser um homem melhor para ela, para as pessoas que amo, e para que meus descendentes (não sou pai, ainda!), não precisem passar por todas as ausências que eu, meus irmãos, meus primos e muitos dos nossos próximos passaram. 

Mas como ser um Homem melhor sem o exemplo de um homem bom para seguir?

Tenho bons tios, e nos caminhos da vida, encontrei homens que inspiraram, ajudaram e fortaleceram, mas que só podiam ficar um pouco. Eram professores, padrinhos, mestres da capoeira, pais de amigos, educadores e não eram alguém que eu poderia encher o peito pra chamar de Pai. 

É... Hoje, posso dizer que já consigo entender o que um Pai significa para a formação de um menino. É mais difícil jogar bola com sua mãe quando ela precisa trabalhar, ou estar em casa fazendo comida, lavando, passando, limpando, pensando como pagar a próxima conta de luz. Por mais orgulho que se tenha,  parece que "destoa" quando você tem que fazer desenhos comemorativos na escola, pintar gravatinha, maletas e desenhos de pai e filho, quando sabe que vai entregar para sua mãe e sabe também que ela não usa, nem gosta de gravatas. Dá um nó na cabeça ao lembrar, pensar e escrever sobre isso, mas preciso dizer porque o certo seria que esses nós fossem laços de união,mas ainda não são. Não foram.

Nesse mundo, cresci conhecendo tudo a minha forma, com meus próprios olhos e decidi o meu retorno ao candomblé - nunca digo que "entrei para a religião". Retornei para a religião dos meus ancentrais. Assumindo, se apropriando e significando aquele universo em mim. 

A primeira vista, tudo é um monte de santo com nomes estranhos que você não sabe nem o que significa. Depois vai entendendo que esses santos tem nome de Orixás, e mais um pouco de vivência, aprende que são forças lindas, que vivem dentro de você, e o mais especial e incrível de tudo: As Forças Masculinas são seus Pais e as Forças Femininas, são suas Mães. E eu que nem gostava dessas coisas, descobri que eu tinha Pai. Um não, vários Pais que me trouxeram e me amparam nesse universo, cada um com sua responsabilidade.

Agora, a vida tinha um outro significado. Se por um lado, a figura paterna humana fazia falta, por outro, a paternidade sagrada, chamada de Orixá me atendia no ar que respirava, no fogo que me aquecia, no chão que caminhava, nas escolhas que fazia, no remédio que tomava, nos desejos que só eu sentia, nas transformação que o mundo me pedia. Nada mau para alguém como eu, não mesmo. A presença transcendia qualquer coisa.  Nesse universo, entendi que a presença paterna era a essência dos Deuses Homens que sempre me amaram e nunca deixaram de jogar bola, me olhar enquanto empinava pipa, corrigia-me das travessuras e até me alertavam das más companhias. Sem que eu ao menos eu entendesse, mas seguia. 

Foi assim que, dia após dia, a ancestralidade me  acolheu e me ensinou a compreender que as coisas da vida. Me ensinou ainda mais, ensinou que quando se é filho de Deuses Africanos, não existe solidão que assole. Me ensinou que era papel meu zelar pela existência digna desses Pais que permitiram reencontrá-los. 

Nesse caminho de eterno reencontro, aceitei a missão que o destino me preparou e nasci para a Eterna Ancestralidade Viva. Eu me tornei um filho do bastão sagrado que cuida dos ancestrais homens que por aqui já passaram. Sim. Além de ser filho de um Orixá, eu nasci filho de um pai que não pude conhecer, mas que desde minha gestação, já me conhecia e me escolheu para seu encontro ancestra. Eu nasci Omoixan – Filho do Ixan, que no Candomblé Egungun, nasce para uma vida de relação direta com  Pais que viveram por aqui, protagonizaram grandes feitos da vida espiritual, e ascenderam para cuidar de seus filhos, de um outro lado. E eu me orgulho muito disso.
Me orgulho em ser tão pequeno, mas de estar viver com o coração aberto para todas essas forças que me amparam. Me Orgulho de servir aos homens que lutaram e até morreram para que eu pudesse ter vida – e que eu nunca pare de lutar. Me orgulho em poder gritar meus Pais no vento e saber que eles me acolherão. Me orgulho e me sinto, sempre menino, por hoje ter o coração povoado por mais de um Pai, quem sempre me amaram e que preparam todos os caminhos para que eu aprenda, dia após dia, a ser o ser humano melhor que minha mãe ainda batalha para criar.

Eu escrevo essas linhas, somente para tentar mostrar a importância do candomblé em minha vida. Compartilho minha história, que certamente é semelhante a de outros homens (sempre meninos) que encontraram abrigo, colo e referência paterna na religiosidade africana. 

Homens que, por motivos da vida, nunca abraçaram seus pais no segundo domingo do mês de Obaluaie, mas que por sorte do destino, hoje podem se dobrar, e agradecer, todos os dias aos Orixás Exu, Ogum, Oxóssi, Ossain, Omolu, Oxumare, Xango, Logun, Oxaguian e Oxalufan – Benção, Pai, pelo Amor que é ser Filho dessas energias. Escrevo para agradecer aos Ancestrais Homens Divinizados no Candomblé Egungun por re-significarem minha vida, fazendo-me entender que ser  bom Omo (filho) é a certeza de um dia ser um Pai Bem cuidado pelos seus descendentes. 
Escrevo para agradecer o Candomblé por me permitir reencontro com todos os Pais Exemplares, que o Universo me permitiu antes mesmo de ser gerado por um homem que um dia se ausentou. 



Gbogbo Babá Mí, Mo jubá – A todos os meus Pais, Meus respeitos!

Texto: Roger Cipó 

A foto é sobre "O dia que Omolu me fez filho mais amado". Registro do meu irmão: Barulemi. 

4 de setembro de 2015

Sexta-Fria - Quando chega Oxalá




Percebe o frio da primeira sexta-feira do mês? Agora, vá me dizer que Oxalá não sabe o que acontece no mundo..? 
Não ouse me dizer que meu Deus é força distante e que só nos encontraremos em um certo juízo final, antes de um Paraíso.
Não é assim não. 

Minha sorte é essa. É a força de um Deus presente em todos os dias, horas, minutos, segundos. Minha sorte é poder perceber quando a força mais sagrada passa na terra. E o meu pai faz assim, baixa as temperaturas, assenta a fúria, e no vento gelado, vai confortando quem por ti tem fé. 

E manda chuva porque aqui anda tudo muito sujo mesmo. Mas ele, em mais pura piedade, nos lava das impurezas que nossas próprias vontades criam. Nos permite água nova para lembrarmos que é tempo de reviver sua saga de resiliência constante no mundo apressado. 
 
Astuto? talvez. Mas quem sou eu para questionar o Rei quando ele diz que vai? Eu posso não ir, mas ele vai quando quiser, para onde quiser. Reveza os passos mais lentos e certeiro e chega onde quer chegar. 

Percebe que é a primeira sexta-feira do mês e corre água vinda do céu. É tempo de água rolar para lavar o mundo. É tempo da peregrinação branca que acorda os dias, em quartinhas alvas. Caminha em fila única, canta sem muito alarde - canta rezando. Pisa o chão descalços, sente o frio que toma a terra umedecida pela neblina. Canta com o coração a chorar. Curva-se com calma e sem pressa, mergulha  e enche sua pequena porcelana de água mais limpa que as lágrimas que nos escorrem o rosto... Volta a cantar, volta rezando que o próprio caminho te lava. Chega para lavar  a vida mais uma vez. Em pura paciência, repita os caminhos por todos os dias, e dia após o outro, o peso do mundo diminui... É quando as vestes do Rei tornam-se alvas, mais uma vez e ele perdoa o mundo. 

Mundo esse que Ele traz nas costas sozinho, amparado, no bastão pra sustentar a vida. Vai menino novo, limpa  coração para poder te estender a mão!  Sim, o Rei me dá a oportunidade de lhe tocar. Emoção! É quando as minhas pernas tremem, eu fraquejo por dentro, e por fora sou firma rocha de sustento, porque meu Pai quer dançar. Ele vem, quase em um... dois... três, passos só, quando o coro se bota a quebrar.  

É que essa é a nossa vida. E entender nem se faz em meu pensar. Viver para a força Branca é sentir o frio, acalentar na chuva fina, e tudo, na neblina, enxergar. É que o Rei já tirou a pressa do mundo, para que nada a gente não pudesse mais a vida sujar.
Mas tenha calma. Olhe a janela, veja o Rei no breu. Seja também a neblina, de vento gelado que arrepia a espinha, dobre os joelhos, alcance o chão gelado, dobre-se mais até que o topo do seu mundo, encontre a base da existência - sim. bata cabeça - cante, reze cantando, converse no silêncio... e sinta quando passa Oxalá...


Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved
 


18 de agosto de 2015

Maria - A Empregada que no Terreiro é Rainha


As divindades africanas foram generosas na concepção da religiosidade negra que, por mais complexa que seja, assegurou o espaço da reencontro ancestral de seus filhos com a realeza preservada no DNA, que fora sucumbida pela opressão social e os vestígio, sempre tão presentes, da escravidão. 

Certa vez, conheci Maria e nunca mais a esqueci.
Mulher de posição firme como sua pele negra brilhante que não envelhecera com o tempo. Dona de um sorriso lindo em diamante que facilmente brotava no rosto de fortes expressões, combinado a um olhar que tudo via, e via adianta do nosso tempo.

Maria, Vó e Mãe que sozinha, deu conta de criar @s filh@s, “tudo homem feito e mulher véia já” – como dizia e lembrava como os meninos aprenderam a se virar cedo porque ela, dona de uma força que só ela conhecia, trabalhava fora o dia inteiro, pegava três conduções e quando chegava em casa, as crianças já estavam dormindo. 

Ela era como uma heroína
Passava grande parte do tempo no seu uniforme de doméstica, cozinhando, limpando, encerando, lavando e cuidando dos filhos dos bacanas, enquanto suas crianças cresciam á boa sorte, guardados somente na fé que a Mãe tinha nos Deuses Africanos.

Mas o mundo inteiro mudava quando Maria se preparava para pisar o solo de seus Orixás.
Por mais bem passado e limpo que era seu avental branco, não chegava "aos pés" da goma de sua saia, alva como as contas leitosas do brajá de Oxalá que ostentava no pescoço. Na cabeça, o simples torço costurado a mão, no pano mais barato da 25 de março, lhe permitia a realeza que a touquinha das casas de patroas escondia.

Quando Maria descia a rua e era saudada por todos aqueles que de branco passavam.
Quem via de longe, nada entendia.

 "Oxe... Olha lá... Dona Maria parece o Papa. O povo todo para pra beijar sua mão."

Resmungava indignado o dono do bar,  que mal sabia que por suas vistas passarva uma autoridade maior que o soberano do Vaticano. 
Desfilava a Rainha do Terreiro, Mãe Maria, que já na descida, juntava sua comitiva de filhos, netos e bisnetos de santo. 

Eles vinham orgulhosos como seguranças da majestade que seguia para o barracão. 
A Rainha ia andando porque nunca dependeu de carona nenhuma, e gostava de andar pelas ruas do bairro que ela mesmo lutou para ser asfaltado e ter água encanada. 
"Mas eu fui lá e briguei com aqueles homens tudo porque falaram que o caminhão do lixo não conseguia passar na rua. Como não? Tem que passa sim!" contava, e acrescentava orgulhosa: - "Nem bagunça tem mais por aqui. Os meninos do movimento agora vão para o Terreiro, e mudaram muito, viu...  Se engana que pensa que é só o povo da igreja que salva. Quem salva do mundo é Orixá!" 

Ela, mesmo que Rainha,  sempre soube do seu lugar perante os Orixás.

Obediente, parava sempre na última encruza antes do terreiro, tirava as sandálias de salto baixinho, dobrava-se calada em paó, tomava benção de Exú e só seguia depois de sentir o vento em seu rosto. 

"Se Exu não deixar eu entrar, não entro. Se ele barra santo na porta de Oxalá, pode me barrar quando quiser!"

Respeitosa como ninguém, pedia agô no portão, esticava o braço e com cuidado punhava a quartinha para despachar a rua. 
Rainha Mãe, não se importava em rodar a aquela velha quartinha de barro na cabeça de cada filho que a acompanhava no cortejo real.




 


E era a partir daquele portão que a magia acontecia.
Naquele lugar não tinha patroa, nem filho bocudo de patrão folgado. 

Não mais empregada. No mundo dos Deuses Africanos, Maria servia com muito Amor seus Orixás, cuidava do mais novo ao mais velho, com o mesmo zelo. 
Abraçava e amava todos filhos e todas as filhas santo com a mesma porção de afeto. E muito afeto.

Naquele lugar, a opressão não tinha espaço.
Naquele lugar, a força de Maria não se restringia em copa de granito importado e não era invisível como na casa dos bacanas que a tinha como "quase da família".

Ali, naquele barraco de telha cinza e paredes caiadas com frequência e zêlo, Mãe Maria podia ser quem ela era e não silenciada como no edifício nobre da Vila Mariana, onde, todas as manhãs, entrava e saia calada pelas portas de serviços. 

Era assim, naquele punhado de Terra, ocupado há décadas, que Maria viveu a dignidade de ser respeitada, amada e olhada em sua essência. 
Porque era só ali, no chão desnivelado que a autoridade era reconhecida pela grandeza que só podia ver, quem a via com o coração - coisa difícil para os patrões das casas grandes que até hoje se perpetuam, e com míseros salários, insistem numa escravidão social que vitimiza nossos reinados de resistência. 
Era naquele cantinho de terra, onde se respirava a ancestralidade africana que a felicidade de Mãe Maria se completava, pois à luz dos Orixás, sua estrela se mantinha iluminada.  

Texto e Imagens: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

[Esse texto é uma homenagem às tantas Marias que conheci nesse pouco e importante tempo de vida religiosa. Muitas são as Senhoras Mães Guerreiras que vivem mundos diferentes para uma vida melhor, sempre com Orixá no Coração. Sem nenhuma relação direta (que eu saiba rsrs) com o texto, as fotos são para ilustrar a história e inspirar nossas vidas em imagens.]