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18 de outubro de 2017

E os “brancos” do candomblé’?


 Texto de Yasmin Rodrigues, originalmente publicado em Flor de Dendê
 


A intolerância religiosa, nos últimos vinte anos, aparece como um fenômeno violento que se dirige às religiões africanas em diáspora no Brasil. A questão é que o termo “intolerância religiosa”, embora pareça aglutinador, tem se mostrado insuficiente para nomear a complexidade do sistema opressivo sobre as crenças originalmente negras do país. Digo isso porque acredito que é passada a hora de superar jargões e frases de efeito, já que podemos e devemos olhar para nós e para os fatos com a densidade que merecem. A terceira pessoa do plural refere-se aos religiosos, não só aos pesquisadores e estudantes, mas a todos aqueles interessados em refletir sobre esta prática, principalmente os que são identificados como os ‘brancos do candomblé’.

Poderia escrever este texto fazendo mea culpa sobre minha posição na hierarquia racial brasileira, e que me mantém longe do genocídio que mata pretos no país. Poderia também me declarar como mestiça (e é esse o argumento utilizado por muitas pessoas brancas que se ofendem nos espaços de discussão acadêmica ou política por serem brancas, não é verdade?), mas seria de grande desonestidade, já que, até hoje, minha cor jamais foi uma questão.

Seria desonesto porque, ainda que eu seja o resultado do processo de branqueamento – política pública em andamento há cerca de 150 anos no Brasil, que fez com que a concentração de melanina tendesse a diminuir das peles brasileiras – jamais saberei o que é discriminação racial. Veja, sou de uma família que há décadas vem branqueando e que reúne, do lado materno, até onde pudemos saber, prevalência negra e indígena e, do lado paterno, uma genealogia bem definida, que remonta várias gerações, até hoje conhecidas e constituídas no norte de Portugal.

Bem simbólico, não é? No entanto, minha avó materna, apesar de negar sua negritude, era vista e apontada como mulher negra. Há quem diga que minha mãe é pouca-tinta, mas eu sou incontestavelmente branca (aos olhos da polícia, principalmente). A questão é que o racismo, enquanto sistema estruturante das relações de poder no nosso país, atua pela marca, de modo que é a cor da pele o que define se a experiência será mais ou menos violenta por aqui.

Privilégios

Neste sentido, é preciso afirmar que componho parte da população que fala por si e não se vê como parte de uma raça. Ao meu ver, assumir este posicionamento ao falar sobre os ‘brancos do candomblé’ é o nosso maior desafio. Certamente, é possível fazer com que pessoas visivelmente brancas se reconheçam dessa forma e consigam expressar-se declaradamente a partir de sua posição de poder e privilégios. Entendo que só assim conseguiríamos deslocar o problema da dinâmica racial, considerando a posição privilegiada que ocupo neste cenário. Bem, não tenho certeza se estou apta a fazer esta provocação, no entanto, posso falar sobre meus pares e consigo compreender e acessar nuances da performance social de pessoas brancas, entre as quais, candomblecistas.

É fato que para alguns movimentos que discutem e demandam sobre os direitos dos negros e negras, embora não seja uma posição hegemônica desses movimentos e das disputas políticas que envolvem religiosidade, “brancos no candomblé são abomináveis” e “Não deveriam existir”. Esse é um discurso facilmente encontrado, principalmente nas redes sociais, espaço onde a doutrina religiosa não funciona ou não garante que a interação se dê sob as premissas estabelecidas nos terreiros.

Por outro lado, há diversos, ‘mais velhos’ e ‘mais novos’ que são socialmente identificados como ‘brancos do candomblé’. Alguns desses se destacam por serem assíduos defensores da religião (enquanto sistema de crença tradicional) e seus pares religiosos (enquanto pessoas) de ataques discriminatórios nas ruas, nas redes sociais e até dentro de suas famílias.

O fato é que, a partir do movimento de ataque do setor neopentecostal e de defesa do setor afrorreligioso, surgiram diversos grupos contra a intolerância religiosa e a favor dos direitos dos religiosos de matriz africana. Na esteira dessas disputas, militantes negros, em maioria, passaram a classificar a violência direcionada aos cultos afro como ‘racismo religioso’ no intuito de demarcar a origem da discriminação no racismo antinegro, indicando que as religiões sofrem represália por serem originalmente negras. Pois bem, o que venho tentando refletir e fico me perguntando: mesmo se tratando de “racismo religioso”, não é possível que estejamos escamoteando a noção de corpo? De quem é o corpo que sofre ‘racismo religioso’?

É aí que os ‘brancos do candomblé’ entram, levantando a mão junto com os negros e batendo o pé em dizer que é o corpo do ‘macumbeiro’ que sofre. Tenho cá minhas dúvidas. Penso que o ‘xis’ desta questão está em algo que para o Povo do Santo é simples: no candomblé, nossa noção de corpo se estende também às nossas insígnias sagradas.



Junção

Desse modo, a roupa de ração, os fios-de-conta, o contregun e todos os demais paramentos que indicam a qual religião pertencemos, são também sagrados e partes indissociáveis do nosso corpo – esses objetos se alimentam conosco, representam a nossa ligação direta com o Orixá e nascem conosco quando renascemos. No entanto, no momento da discriminação, são eles, os artefatos, e não o nosso corpo humano branco, os alvos da discriminação.

Vou dar um exemplo: às sextas, quando me visto de branco e coloco meu fio-de-conta no pescoço, é normal que o lugar ao meu lado no ônibus demore um pouco mais a ser ocupado do que nos outros dias. O fio-de-conta e a roupa branca – insígnias negras! -, causam medo. Mas eu posso tirá-los e aí, a sociedade me vê como inofensiva. No entanto, já há pesquisas no sentido de que pessoas negras (principalmente homens) costumam ficar sozinhas ou são a última escolha para dividir a viagem no transporte público. Nesse caso, como no primeiro, o que é negro causa medo, repulsa. Só que para quem é negro não há alternativa: não há como se despir de sua própria pele…

É por este motivo que quando penso na discussão sobre os ataques dos neopentecostais aos terreiros país à fora, não acho honesto que nós, ‘brancos de candomblé’, entremos à reboque em uma leitura séria sobre racismo de origem por causa da escolha religiosa que nos atravessa. A origem dos brancos, numa análise sobre as interações, não é africana, muito menos melanodérmica (e ancestralidade e mestiçagem não são questões colocadas aqui.

Trata-se do efeito que seu corpo causa em outro corpo quando se vêem e como o outro te enxerga. E, vamos combinar?, este ‘outro’ generalizado não enxerga o branco como originalmente perigoso).  E o racismo é antinegro. Antinegro. Pessoas brancas não sofrem racismo de qualquer tipo, sequer o religioso. E isso não é negar trajetórias brancas marcadas pela violência religiosa, mas admitir que esses corpos que nascem blindados, em algum momento, vestiram-se de vulnerabilidade quando colocaram sobre si símbolos tipicamente negros.

Os fios-de-conta, as roupas, o pano de cabeça são negros, são geneticamente (no sentido da gênese) negros. E não faz mal olhá-los assim, já que são vivos. Porém, penso que a reivindicação desleixada, feita por ‘brancos do candomblé’, por uma opressão que habita vidas brancas que acontece esporadicamente nos momentos de preceito religioso, tem feito muito mal ao enfrentamento da violência religiosa que todos estamos sofrendo.


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Yasmin Rodrigues, é Dofona de Yewa do Ile Axé Omilayo e graduanda em Ciências Sociais pelo IFCS/UFRJ.

Nas fotos: 1 - Yasmin durante seu preceito. 2 - Detalhe de Yasmin e sua Iyalorisá, Sidnéia de Igbu, durante sua saída de yawo. Creditos: Roger Cipó - Olhar de um Cipó. Todos os direitos reservados

3 de novembro de 2015

É Hora de Denegrir o Candomblé!



Já faz um tempo que venho olhando com bastante atenção para as manifestações segregacionistas do candomblé, especialmente o tão aclamado, Candomblé Tradicional de São Paulo. 

Algumas pessoas que me acompanham podem, num primeiro momento, achar que há uma certa contradição nessas linhas, pois grito aos quatro cantos que o candomblé é a religião do acolhimento, da reconstrução dos laços familiares ancestrais, mas não se trata disso. Falo, porque em essência, candomblé é e deve sempre ser o espaço sagrado de acolhimento, onde se comunga em comunidade da importância de ser como se é, respeitando as individualidades e peculiaridades de cada ser.

Mas, como comungar quando o ritmo alucinado, soberbo e individualista da cidade que não dorme influencia tanto a estrutura social das comunidades religiosas? 
Como confraternizar se o candomblé de São Paulo estabelece suas relações e co-existência a partir daquilo que se veste, da quantidade de Omo Orisa - pessoas no axé, do que é servido no Ajeum - ou buffet pós/durante cerimônia, da quantidade de pedrarias, dos metros de panos e do pertencimento ao clã X ou Y? 
Os questionamentos são muitos e, talvez, o mais urgente seja mesmo a reflexão de, como pensar uma religião afro-brasileira a partir de conceitos negros? 
Como denegrir o Candomblé de vez?

Das últimas experiências de diálogos, formações, debates e até discussões, nada tem me chamado tanto a atenção quanto o pavor e negação de muitos quando citada a expressão Religião Negra. E se a verdade causa espanto, eis a importância de se Denegrir de vez o Candomblé!

Denegrir quer dizer "tornar negro", mas socialmente usada, a palavra é usada para explicar que alguém hostilizou, inferiorizou, tornou ruim, ou tornou algo negro/negativo. Mas pera aí! Tornar Negro ou ser Negro é tão ruim assim? Para a sociedade racista em que vivemos, é. Mas para o Candomblé não! É essencial que nossa estrutura seja negra, que nossa educação seja negra e que nossos conceitos sejam negros.

Quando falo de pensar um candomblé negro, não me refiro à tez da pele dos fiéis, até porque racismo não se resume às questões de pele. É uma estrutura de poder, de opressão e que precisaria de um texto inteiro para explica. Principalmente para que não se acredite mais em racismo inverso, e nem em consciência humana.

Acredito mesmo que candomblé é sim a religião do acolhimento, amparo e amor às diferenças e todxs são bem vindos, mas em reforço, repito, nossa concepção é negra.
Criada por descendentes de reinados africanos que foram ultrajados, sequestrados e condicionados à condição de escravos, o candomblé é uma religião de culto a seres africanos divinizados. Yemonjá antes de assumir o domínio e morada dos mares, era uma rainha negra. Osun, antes de se transformar no rio que carrega seu nome, era uma rainha negra. Ogun, antes de se fundir aos caminhos do mundo, era um Rei Guerreiro Negro. Logo, mesmo que as águas da cachoeira sejam cristalinas e as folhas sejam verdes, todas essas energias são negras.



É negro, é negra e negro é Lindo, negra é Linda!
Posso também lembrar o poeta Sergio Vaz que em seu texto "Magia Negra" traz heróis, heroínas, músicos, atores, e personalidades negras e finaliza dizendo que: "Isso e mais um monte de coisas que é magia negra. O resto é feitiço racista", numa inteligente desconstrução de conceitos enraizados em nossa língua que, somente por racismo e opressão, usa o termo para nos associar àquilo que não presta, não é bom, ou envolvo de maldade. 
Quer um dos culpados para isso? Vá até os escritos sagrados e entenda como o cristianismo atuou e segue atuante no ideal da supremacia branca e demonização do negro e sua cultura.

A cultura de ostentação imperialista no candomblé atual retrata exatamente o distanciamento da essência de culto ideal às divindades africanas - digo até que se distancia do ideal africano. Pois se a essência nos motiva a ser, a contradição explicita a importância de ter, e obviamente quem não tem, não faz parte. Assim entendemos as manifestações de segregação na sociedade religiosa: são barreiras visualmente perceptíveis. Aquele que chegar com a melhor roupa, o melhor rechillieu, panos brocados, torços enormes e pedrarias reluzentes é sempre melhor recebido que aquele que opta pelo jeans branco, camisa simples e chinelo de dedo. 
Naturalmente, é importante que cada um se vista com o que te faz bem, concordo e nem discuto. Julgo problema quando aquele que tem condições de usar os melhores panos se sente superior ao sem condições financeiras, e em um grupo de já oprimidos, oprimir também.
Esse tipo de cultura é responsável pelo contraditório distanciamento em uma religião onde, em verdade, deveria acolhe, igualmente, o rechilieu e o morim, mas em colocá-los em uma posição antagônica de melhor/pior ou rico/pobre.

Impossível falar de questões econômicas e não lembrar que negros e negras no Brasil ainda recebem os menores salários e em sua maioria, ocupam os cargos de faxina, serviço gerais, manutenção, operários, vendedores de pequenos portes, e outros serviços e sub-serviços marginalizados. 
E se a sociedade é desigual ao ponto de estabelecer pseudo lugares para negrxs, porque no âmbito religioso reforçaríamos esses espaços?


Como podemos reafirmar idéias segregadoras em uma tradição pautada no amor ao o que se é? Eu que não consigo conceber essa ideia, penso pela desconstrução imediata de todas as barreiras criadas até hoje. Por se tratar de uma religião, um dos caminhos é conhecer a história do povo negro, suas lutas, seus reinados. A história negra começa bem antes da escravidão, bem antes da invasão do Brasil (...) A história do negro antecede Jesus Cristo - esse mesmo Jesus que só foi pintado de branco com cabelos lisos e olhos azuis para satisfazer um mercado onde a branquitude representa o belo, o sútil, o limpo - e a negritude é tida como o feio, o assustador, e a representação do mal na terra.  Isso também explica o porquê de a estátua de Iemanjá, na Praia Grande ser Branca, mesmo que uma representação da Umbanda, em verdade a força da divindade é africana e negra.  Esses e muitos outros mecanismo, de caso pensado, têm a mesma finalidade. Já citei e torno a dizer, enfraquecer socialmente a força e representatividade negra. 

Mas que sigamos pelo enegrecimento do candomblé, em seus conceitos. Enegrecer quer dizer, retornar para os princípios e valores nos ensinados pelas divindades africanas. Restaurar a identidade da religião onde a força maior pisa  solos, descalços e que não precisa de metros e mais metros de panos, para ter vida, porque o importante para o Orixá é Ser e quando o assunto e ter, o único pedido é que se tenha fé e respeito em abundância. Para que os bens materiais e a estrutura social escravagista de nossa sociedade não nos permita reproduzir e estabelecer espaços de Casa Grande e Senzalas nos Terreiros, e muito menos, sejamos Capitães do Mato, contra os nossos próprios irmãos, filhos e famílias de Axé.

Texto e Fotos*:  Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved - *: Exceto a foto da Estátua de Iemanjá: retirada da internet.
Revisão de texto: Professor e Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira.