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4 de julho de 2016

O Doce Encontro entre Ancestrais e Descendentes, segundo o Ethos e a Práxis


Por Celso Monteiro, do Portal das Áfricas 





Em meio a tantas histórias boas e ruins do nosso cotidiano, faz-se necessário lembrar o quanto é fundamental saudar aqueles que nasceram primeiro, que chegaram primeiro e, os que já retornaram de volta ao Orún (mundo dos Deuses). São muitos os fatos que compõem a trajetória de cada um de nós, inclusive por conta de nossos feitos e são inúmeros também os motivos que nos mobilizam, que nos tiram do lugar comum e fazem com que, pessoas e coletivos se entrelacem, se misturem, se encontrem e muitas vezes se separem. Nas voltas que o mundo dá, existem vários encontros e desencontros significativos, que por vezes estão para além daquilo que entediamos ser necessários para a nossa caminhada. Mas alguns desses eventos são de fato, fundamentais para o nosso desempenho espiritual mesmo quando os sinais parecem insuficientes para nossa compreensão. Parte desse processo está acoplada ao que chamamos de memória ancestral e nos faz viajar, de volta ao nosso ponto de partida, ou encontro com si próprio. A isso tudo, soma-se o encontro com aquela pessoa que você acha que conhece, mas nunca viu, ou aquela sensação de que já vivenciamos determinado momento, ou ainda, quando passamos por certa situação “novamente” apontando para uma lembrança distante, porém muito presente.
Esse ponto de partida de que trato aqui é quem possui a capacidade de reunir as forças contidas no passado, no presente e no futuro de cada um de nós, em uma perfeita sinergia entre a ancestralidade e a descendência. Esse doce encontro entre ancestrais e descendentes alimenta a nossa alma e gera a paz individual enquanto força para os próximos passos, alimentando-nos para o futuro. E, experimentar desse encontro implica muitas vezes em assumir ou fazer cumprir certos compromissos, responsabilidades e desejos que atravessam gerações.
A ancestralidade é um valor central, que serve de base para o Terreiro, mas mais do que isso, é o referencial de toda e qualquer pessoa. Aliada à descendência, a voz dos ancestrais se dá por meio dos diferentes caminhos da vida, seja no âmbito espiritual da consulta e dos ebós pré-determinados, seja cotidiana e rotineiramente, da porta de nossas casas pra fora, pra o mundo, na relação com a sociedade ampliada. Os entraves de uma vida tranquila também são parte desse encontro.
Eu não conheço nenhum investimento, exitoso, realizado por um homem nagô, que não tenha tido antes, a consulta, a permissão, o apoio ou a negativa dos Orixás. Não há investimento algum, seja de qual for sua envergadura, que se perpetue, sem conexão com a essência e origem do sujeito a que se propõe. Entre os critérios para o avanço do caminho, está a clareza de que todos os passos que damos, nós os descendentes de toda aquela gente, deve contar com a benção de nossos antepassados, para que se obtenha êxito. Para isso, a consulta ao oráculo sagrado, o ebó determinado e lucidez necessária para compreender a mensagem dos Orixás, quando a resposta for: não; pare; não vá; não avance!
Compreender que o caminho hoje é esse, mas amanhã é outro, foi negado ou permitido, tem ou não tem a permissão, inclui fatores outros como a legitimidade do meu desejo e o que eu faço com isso, já que a energia que se gera, envolve terceiros. Essa regra, conforme temos vivenciado na condução do Asé Igbin de Ouro, vale para atravessar a ponte do rio que cai, ou seja, o nosso pertencimento deve contar, também com certa disciplina, para além da reverência e do discurso. A mim parece anos depois que as pessoas vivem soltas por aí, desconectadas, ainda que pertencentes a este ou aquele clã. É como se estivessem vestidas com roupas transparentes.

Minha tese é que o pertencimento per si é mais que necessário e importante, mas não dá conta de questões que são anteriores, como o aprendizado, a educação, a disciplina e a participação que deveria ser o cerne da relação entre as pessoas e o sagrado, a partir de dentro de nossa casa, retroalimentando-se nessa caminhada em que a índole e o respeito aos costumes, deveriam estar em primeiro lugar. Essas regras e normas, parte do código nagô, no que incluem-se as reverências a quem chegou primeiro, são é claro, básicas, da conduta e, centrais para os próximos passos e a continuidade das coisas, porque com isso, dizia meu Pai que “se vai ao longe” identificando possibilidades múltiplas como o investimento no futuro, individual e coletivo.
Arrisco-me dizer, com base no pouco que eu conheço que as muitas articulações relacionadas ao desenvolvimento social, humano, coletivo ou individual, eram parte da educação ofertada por nossos avoengos, que serviam-se de recursos naturais, como a relação do homem com a natureza, com a sociedade e com seus antepassados. Esta descontinuidade é a razão pela qual, me assustam certas posições desse atual mundo liquido, moderno, de plástico. A guerra e a paz, espiritual, de cada um de nós, demarcaram sempre, as relações intercomunitárias de um povo, mas afetam as pessoas individualmente, não tenho dúvidas disso. Somos parte de um todo, por isso não somos gerados como ilhas e não podemos nos comportar dessa forma, insustentável.
Imagem da série aFÉto 
Ouvi de um sacerdote nigeriano na infância (que saudades…), que era assim, na velha África, foi assim na cruzada das divindades do panteão africano e assim, se reproduziram na trajetória de cada um de nós, acumulando experiência á essa caminhada. Mas, parece que não apreendemos e não fixamos o conhecimento obtido, lamentavelmente. Do contrário, seria negar o aprendizado e dizer que ele não serve, mas não há substituição.
Provocado pelos limites entre a religião e a ciência, a mim parece, já há algum tempo, que nesse mundo líquido que tanto debruçou-se Bauman e outros intelectuais que são algumas das minhas importantes referenciais, que é tudo tão solto, desconectado, que pouco importa a lição ofertada e a orientação dos Sacerdotes, das Sacerdotisas, mesmo quando mais antigos, vividos, experientes. As coisas vão e vem, surgem ou aparecem, de forma não contabilizada, pois o sujeito embora “lá de casa” tem lidado com o acaso, com o talvez e, por conseguinte, com o “que assim seja” sem lembrar a necessidade de pedir licença, de levar água à rua, de esfriar a terra onde pisa, de agradecer pelo sol nascente e o sol poente, de levantar-se para os velhos sentarem-se ou de controlar o discurso e a forma como ele é proferido, muitas vezes sem o aporte e o caráter necessário para tal e, a necessária reformulação de suas práticas.
Não pretendo, porém, construir aqui, um manual para a vida plena, mas, diante da intolerância religiosa que tanto aflige cada um de nós, diária e rotineiramente, vale lembrar, que muitas vezes em meio à caminhada, é central voltar às encruzilhadas da vida e indagar de onde viemos, porque estamos e para onde iremos.
São tantas as nuances da atual vida em sociedade, que as pessoas esquecem que a vida no mundo dos homens e dos deuses, se entrelaçam, interagem, dialogam e se rompem, a cada passo, a cada palavra, a cada iniciativa, inclusive com a permissão para tal, quando necessária. A vida em sociedade a partir desse lugar tão vívido deve considerar a conexão entre vivos e mortos, o fogo e a água, o carvão e a pemba branca, os grandes e os pequenos, o sal e o mel, por serem esses elementos, um complementar ao outro, com funções diversas e posições múltiplas. Sem essa conectividade que deveria por fim, alinhavar as vinte e quatros horas do dia, fica a vida, inviável, mentirosa. É aqui, nesta encruzilhada (a possibilidade de fazer escolhas), que está apoiada a ideia de que é possível ser responsável ou descompromissado com os códigos culturais, da família, da comunidade, conforme os valores da tradição, mas é claro, com o peso da mão de nossos desejos.
Não há como sustentar a religiosidade que começa e termina no momento do culto, na hora da cerimônia pública, no dia da festividade. É insustentável a falsa paz, mas é obvio que o desejo tem lugar certo na tradição e seu preço a pagar, afinal, a consciência e a reação do universo são juntas, o primeiro e talvez o mais exigente crivo. E há momentos em que o peso da mão de nossos antepassados não é de uma surra, mas sim, do fato de que não foram convidados a opinar. Assim, é preciso andar com a certeza de aquele trajeto já foi feito por alguém, que sabe aonde ele vai dar, que gostou do trajeto ou não obteve felicidade nele. Mais que isto: ali está a possiblidade de não sofrer e de não prejudicar ninguém, o que eu entendo ser magnifico, pois resultará em andar com dignidade, sem ser apontando por ninguém, por motivo algum. Para tanto, é preciso postura e comprometimento com o sagrado, pois não basta vestir-se de branco e sair por aí, desconectado, sem vinculo, sem respaldo!
Agora, me responda muito francamente: aonde você pensa que vai sem pedir licença?

Fotografias de Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

2 de junho de 2016

Candomblé - Religiosidade que nos Liga à Força de África em Nós e N@ Outr@


Conta-se que o Deus cristão expulsou Adão e Eva do paraíso. Eles conhecem o pecado, e como penitência perderam a relação harmoniosa com o todo poderoso. Há que diga que é nesse momento de distanciamento que se nasce a religião, no sentido de religar reles mortais à divindade sagrada. Pode até ser, mas religião não é só isso, nem tampouco um branco-cistão-eurocêntrico.

Há quem pense o candomblé como religião e há que acredite que o conceito religioso é raso para uma tradição em que a divindade sagrada nunca se distancia de seus e suas fiéis. E eu concordo. Diferente de outras vertentes a relação sagrada com os deuses e deusas é uma constante. A vida co-existe com a vida de fé. Os Orixás habitam as águas doces, salgadas e águas dos corpos, habitam as folhas, as plantas, as árvores - que por sinal são tempos e ligam a terra e o céu, habitam as estradas, a terra, as montanhas, as cidades, os ventos, e tudo que é vivo. Porque os Orixás africanos e africanas são forças vitais que garantem o equilíbrio da vida na terra, em harmonia com o determinado por Olodumaré, nosso Deus.

A vida em cooperação com os Orixás, de fato, ultrapassa o conceito e religião comentado, isso porque nosso fundamento é outro, é relação direta, é entender que tudo ao redor é sagrado e que o corpo é o templo onde habita Orixá.
Candomblé é uma religião afro-brasileira de culto às divindades africanas, logo é importante que nos percebamos propagadores da filosofia e religiosidade dos deuses de África.

Nessa forma de viver, Orixá é a força para nos equilibra na estrada do viver. A medida em que permitimos que essa força se aproxime de quem somos, nos tornamos pessoas melhores. Não melhores como dizem os padrões do capitalismo, e sim melhores para as relações de vida ao redor. 

Desde que me encontrei no candomblé tenho me esforçado para viver a partir do que Orixá ensina e nos pede. Mais que nos ligar a Deus, o Candomblé nos conduz para uma busca de religar-nos a nós mesmo, perceber humanidade sagrada no outro, porque se em meu ser habita um deus, no outro também, logo o cuidado e o respeito devem ser bases importantes das relações sociais.


A minha verdade é que o candomblé fez com que eu me descobrisse negro. Uma descoberta que vai além da cor da pele, dos cabelos crespos e traços. Uma descoberta de identidade, da afirmação de uma negritude que me permite dignidade e força para gritar todos os nãos contra uma cultura racista que, quando não tenta nos limitar a padrões de belezas que não nos cabem, marginaliza nossa estética, criminaliza nossas vidas e demoniza nossa fé. Conhecer o candomblé ligou quem eu era a mim mesmo, a quem eu poderia ser, a quem eu sou. E isso é religião, isso é sagrado. Porque me faz perceber o quão sagrado o mundo pode ser, e é. 

Candomblé é a religião que permite  que encontremos o pedaço de África em nós, que fora sucumbido por uma cultura intolerante e racista que nunca se permitiu, e não se permite olhar, perceber, sentir e respeitar a humanidade da fé negra. Quem se inicia no candomblé, seja lá em qual for a nação, ou em cultos africanos, se permite nascer para a vida ancestral. Quem assim faz, faz para viver uma filosofia diferente das superficialidades de um mundo que tem banalizado por demais o sentido de fé, religiosidade e força sagrada. Faz (nasce) para aprender como a vida africana lida com as diferenças, cuida dos mais novos, dos mais velhos, respeita as mulheres, aceita opiniões divergentes, valoriza o que tem valor, não se baseia - e não deve se basear em preços.


Candomblé é o abraço dado a quem a sociedade nega afeto. É acolhimento a quem não se permite ser posto em pequenos vidros de ensaio para ter a vida esteriotipada e assistida por uma mentalidade normativa. Candomblé é o caminho para quem quer sentir que sagrado é o curso natural da vida e caminha para viver mais próximo da Mãe do Mundo, a Terra África nunca distante dos seus filhos e filhas.  

Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

4 de fevereiro de 2016

Crianças no Candomblé - 21 Imagens e 21 Motivos


O Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira listou 21 “motivos” para que você permita a iniciação/ingresso de crianças no CANDOMBLÉ [se não for de CANDOMBLÉ, aí a história é outra] – um olhar sobre um espaço de desenvolvimento bio-psico-social privilegiado. Tomei a liberdade e, ilustrei a lista com 21 imagens colhidas ao longo dos anos de pesquisas e registrosdas relações sociais e sagradas dos terreiros de candomblé. 
Confira:


1. O Candomblé valoriza a família, a vida em família e é uma família; sendo assim, a criança é vista como um vir a ser e como a continuidade da família e da vida em família – ela é e deve ser elemento nuclear e protagonista neste universo africano;


2. Considerando a crença nagô de que nascemos sempre na mesma família – uma das explicações nagôs para uma existência cíclica e contínua, a criança pode ser um ente querido que retornou para o seio de sua família, manter esta criança e valorizá-la por meio da iniciação são também formas de, mesmo sem saber explicitamente, valorizar esta memória ancestral;


3. A iniciação é um processo de vínculo com o sagrado, com a centelha-divina-divindade- ancestral, com a divindade africana como guardiã da vida da criança, com a família – pais e parentes – se também o forem iniciados e, sobretudo, com a identidade africana-“preta”-“negra”- África- berço do mundo da criança;


4. Por meio da iniciação, a criança é alçada à posição de protagonista do processo iniciático que se reproduz em diversas formas de carinho: alimentação, roupas, colares especiais, pinturas matinais, banhos de folhas sagradas, cantos, danças, rezas, modos de ser e fazer dentro de um novo país chamado Candomblé;


5. Por meio dos cantos e rezas a criança aprende e se diverte com uma nova língua;




6. Por meio da dança, a criança aprende e se diverte, movimentando o corpo de forma mítica;



7. Durante o processo iniciático, há a contação de (h)estórias e, mais uma vez, a criança aprende e se diverte com atividades de escuta e memorização;


8. A criança aprende a respeitar os mais velhos: pais, mães, avós, tios e todos da nova família de Candomblé;


9. Além dos pais e mães e parentes biológicos, a criança reforça estes vínculos – quando a família também é do Candomblé, ou cria novos vínculos com novas crianças, novos tios, irmãos e passa a ter mais um orientador/cuidador que, no caso, é seu iniciador ou iniciadora no Candomblé; 


10. A criança se flexibiliza e, desde cedo, aprende que a vida é feita de espaços/deslocamentos e ela passa a ter o seu espaço – a esteira como sua cama, mesa e espaço também de diversão. Ela pode chamar os amiguinhos para compartilhar esse espaço;


11. No momento chamado de “Efun” ou “Queima de Efun” – momento de consagração do corpo aos primórdios e aos Orixás primordiais e à gênese do corpo em Oxalá – pintura sagrada do corpo do iniciado; a criança é pintada e isso também é uma forma de valorização do seu corpo, forma lúdica e, sobretudo, forma de carinho que percorre todo o seu corpo. Muitas vezes, ela nunca recebeu um carinho sagrado desta sorte;


12. A palavra-cantada acompanha todo o processo iniciático e isso, além de lúdico para a criança, estimula a sua memória – sabe-se o quanto a música é benéfica à memória da criança;


13. No Candomblé, em momento algum, a criança é um adulto em miniatura e, desde cedo, mesmo como criança, ela aprende coisas novas e assume responsabilidades com o grupo – isso, sempre de acordo com a sua idade;


14. Se a criança for “preta” – “negra” – “diferente”, “gorda”, “magra” e afins – considerando os padrões e olhares sociais normatizados e excludente, ser do Candomblé pode ajudá-la na construção de uma identidade, em certa medida, diferenciada e que a proteja das diversas formas de violências contra as crianças e das diversas e diferentes formas de exclusão. Reconhecer-se do Candomblé – marginal – pode ajudá-la a se defender, bem como a frustrar-se menos diante de uma sociedade racista e excludente, quem se sabe e se sabe protegido e com os “diferentes” tem a sua identidade reforçada;


15. Os Orixás são também guardiões dos seus filhos/iniciados e, nesse sentido, trata-se de, no universo sagrado- ancestral, a criança ter um cuidado a mais para uma vida longeva, com saúde e felicidade – valores nagôs;


16. Ainda a questão do espaço: neste Candomblé cíclico e contínuo, a criança iniciada tem papel de protagonista e tem seu espaço, ela é honrada, louvada e protegida, como criança, que será o futuro da comunidade, porque sabem que, efetivamente, ela o será. Em uma sociedade que nega o espaço a esta criança, encontrar um espaço privilegiado no Candomblé pode, em certa medida, compensar esta ausência e, por isso, ela gosta de estar nele;


17. No Candomblé, a criança se torna protagonista da própria História a partir do momento em que, ainda que seja criança, pode ser o-a "irmão(ã) mais velho(a) de alguém"; ainda assim não deixando de ser a criança em formação; 


18. A criança tem de lidar com realidades, muitas vezes, diferentes da sua e da sua casa. Conviver com novas crianças e adultos, fazer novos amigos, vivenciar novas experiências;



19. A criança aprende a se abaixar aos mais velhos e abaixamo-nos para falar com ela e, quando em transe de Orixá, quando ela se torna Orixá, Vodun ou Nkisi, os adultos e mais velhos deitam-se a ela e batem a cabeça para ela que, naquele momento, é a divindade africana e a África ancestral;


20. A criança recebe a possibilidade de pensar-se além dela, além do visível, do concreto e do tangível. Ter o sagrado e o inefável como companhia a ajuda com questões que nos são caras como a morte e/ou rupturas. Igualmente, a criança aprende no Candomblé a importância da natureza e a negação do desperdício;


21. Finalmente, em uma sociedade, onde a criança é cotidianamente esquecida, violentada, deixada à mercê apenas de equipamentos eletrônicos e tendo a televisão como Babá, ser filha de um corpo, de uma comunidade, de toda uma família e ser cuidada por esta família, proporcionar-lhe-á momentos não mais comuns na vida moderna. Vale destacar que o Candomblé empodera esta criança desde cedo e ela pode se tornar com sete ou dez anos um Ègbón (irmão mais velho), Ogá (Líder da orquestra do Candomblé) ou Ìyá Ekede (segunda mãe e aquela que zela pelos Orixás). As crianças podem aprender e ensinar, sempre!

Fotos: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

5 de novembro de 2015

Um dos Segredos da Iniciação no Candomblé


Para alguns, a iniciação termina no “Dia do Orukó” – dia do novo nome do iniciado/divindade - ou no dia em que há “A queda do kelê” – dia em que a jóia da divindade é retirada do pescoço do seu iniciado.
Todavia, não é tão simples assim; na verdade, naquele momento, a iniciação está, parcialmente, começando e levará sete anos para que se conclua. O final do ciclo, denominado iniciação, terminará quando o iniciado for considerado adulto e a sua divindade crescer com, no e por meio dele. Lembremo-nos que a divindade nasceu em seu corpo, em sua cabeça e em sua vida e esta mesma divindade crescerá e tornar-se-á adulta com o seu crescimento, ou seja, em uma relação de simbiose iniciado/divindade.
A iniciação requer participação, aprendizagem e o crescimento/desenvolvimento da “centelha natureza- divindade africana” que acaba de ser sacralizada e fixada em sua vida dependerá da relação e do compromisso que o iniciado estabelecer com a sua iniciação.
Lembremo-nos que se trata de um casamento. Originalmente, “ìyàwó” é esposa, ou seja, ao me iniciar eu me torno esposa ou esposo da divindade para a qual fui iniciado.
Por este motivo, é prematuro dizer que, antes dos sete anos ou “Oro Odun Eje” – ritos sagrados referentes aos sete anos, o “ìyàwó” está plenamente iniciado. Orisa/ Vondun ou Nkisi é a natureza que habita em nós e a natureza sacralizada em nossa vida; é a ancestralidade africana que nos harmoniza, nos fortalece e nos transforma em reis, rainhas, príncipes e princesas africanas, mas, a existência dessas forças sagradas e sua atuação em nossas vidas depende de informação, participação e aquisição de conhecimento.
Algumas pessoas estranham o fato de processos recíprocos de ensino e aprendizagem fazerem parte do processo iniciático. Alguns acreditam que isso invalida a existência da divindade, mas poderá existir um processo sagrado, social, cultural e histórico sem ensino e aprendizagem, sobretudo quando envolve uma nova língua, novos códigos, novos símbolos, novas alegorias, novos ritmos e danças em terras que não sejam aquelas originárias e que visam inserir o homem neste novo universo?
Orixá, Vodun ou Nkisi não são espíritos. No Candomblé, não se trata de um processo mediúnico. O iniciado NÃO É um médium da divindade, mas receptáculo da divindade, receptáculo capaz de receber, metaforicamente, a água do rio, o vento, o raio, a terra, o fogo (...) que, no momento do transe, irá preenchê-lo.
Esta natureza é “antropomorfizada” – transformada em humana e, neste momento, recorre-se a um conhecimento ligado à gênese do Candomblé, porque não existe um texto sem contexto e sem a valorização do conhecimento ligado à gênese do Candomblé.
Desse modo, aprender a cantar, dançar, ritmos, coreografias, cores, sons, gritos, códigos, modos de fazer e “ser” do Candomblé são fundamentais para que uma pessoa se diga do Candomblé e para que a sua divindade se “antropomorfize” plenamente, pois, se eu não vivo o Candomblé em sua plenitude e não recorro a este conhecimento anterior, posso começar a fazer algo que não necessariamente será reconhecido e concebido como “CANDOMBLÉ”.
Ainda nesse sentido, a água do rio só será água do rio se puder fluir livremente e ultrapassar as pedras – egos e desejos humanos e, para isso, aprender qual o papel do rio e como o rio deve estar limpo para cumprir o seu papel na natureza é fundamental para que o rio seja, efetivamente, rio.

Texto: Professor e Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira
Foto da série Saída de Yawo  por Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

3 de novembro de 2015

É Hora de Denegrir o Candomblé!



Já faz um tempo que venho olhando com bastante atenção para as manifestações segregacionistas do candomblé, especialmente o tão aclamado, Candomblé Tradicional de São Paulo. 

Algumas pessoas que me acompanham podem, num primeiro momento, achar que há uma certa contradição nessas linhas, pois grito aos quatro cantos que o candomblé é a religião do acolhimento, da reconstrução dos laços familiares ancestrais, mas não se trata disso. Falo, porque em essência, candomblé é e deve sempre ser o espaço sagrado de acolhimento, onde se comunga em comunidade da importância de ser como se é, respeitando as individualidades e peculiaridades de cada ser.

Mas, como comungar quando o ritmo alucinado, soberbo e individualista da cidade que não dorme influencia tanto a estrutura social das comunidades religiosas? 
Como confraternizar se o candomblé de São Paulo estabelece suas relações e co-existência a partir daquilo que se veste, da quantidade de Omo Orisa - pessoas no axé, do que é servido no Ajeum - ou buffet pós/durante cerimônia, da quantidade de pedrarias, dos metros de panos e do pertencimento ao clã X ou Y? 
Os questionamentos são muitos e, talvez, o mais urgente seja mesmo a reflexão de, como pensar uma religião afro-brasileira a partir de conceitos negros? 
Como denegrir o Candomblé de vez?

Das últimas experiências de diálogos, formações, debates e até discussões, nada tem me chamado tanto a atenção quanto o pavor e negação de muitos quando citada a expressão Religião Negra. E se a verdade causa espanto, eis a importância de se Denegrir de vez o Candomblé!

Denegrir quer dizer "tornar negro", mas socialmente usada, a palavra é usada para explicar que alguém hostilizou, inferiorizou, tornou ruim, ou tornou algo negro/negativo. Mas pera aí! Tornar Negro ou ser Negro é tão ruim assim? Para a sociedade racista em que vivemos, é. Mas para o Candomblé não! É essencial que nossa estrutura seja negra, que nossa educação seja negra e que nossos conceitos sejam negros.

Quando falo de pensar um candomblé negro, não me refiro à tez da pele dos fiéis, até porque racismo não se resume às questões de pele. É uma estrutura de poder, de opressão e que precisaria de um texto inteiro para explica. Principalmente para que não se acredite mais em racismo inverso, e nem em consciência humana.

Acredito mesmo que candomblé é sim a religião do acolhimento, amparo e amor às diferenças e todxs são bem vindos, mas em reforço, repito, nossa concepção é negra.
Criada por descendentes de reinados africanos que foram ultrajados, sequestrados e condicionados à condição de escravos, o candomblé é uma religião de culto a seres africanos divinizados. Yemonjá antes de assumir o domínio e morada dos mares, era uma rainha negra. Osun, antes de se transformar no rio que carrega seu nome, era uma rainha negra. Ogun, antes de se fundir aos caminhos do mundo, era um Rei Guerreiro Negro. Logo, mesmo que as águas da cachoeira sejam cristalinas e as folhas sejam verdes, todas essas energias são negras.



É negro, é negra e negro é Lindo, negra é Linda!
Posso também lembrar o poeta Sergio Vaz que em seu texto "Magia Negra" traz heróis, heroínas, músicos, atores, e personalidades negras e finaliza dizendo que: "Isso e mais um monte de coisas que é magia negra. O resto é feitiço racista", numa inteligente desconstrução de conceitos enraizados em nossa língua que, somente por racismo e opressão, usa o termo para nos associar àquilo que não presta, não é bom, ou envolvo de maldade. 
Quer um dos culpados para isso? Vá até os escritos sagrados e entenda como o cristianismo atuou e segue atuante no ideal da supremacia branca e demonização do negro e sua cultura.

A cultura de ostentação imperialista no candomblé atual retrata exatamente o distanciamento da essência de culto ideal às divindades africanas - digo até que se distancia do ideal africano. Pois se a essência nos motiva a ser, a contradição explicita a importância de ter, e obviamente quem não tem, não faz parte. Assim entendemos as manifestações de segregação na sociedade religiosa: são barreiras visualmente perceptíveis. Aquele que chegar com a melhor roupa, o melhor rechillieu, panos brocados, torços enormes e pedrarias reluzentes é sempre melhor recebido que aquele que opta pelo jeans branco, camisa simples e chinelo de dedo. 
Naturalmente, é importante que cada um se vista com o que te faz bem, concordo e nem discuto. Julgo problema quando aquele que tem condições de usar os melhores panos se sente superior ao sem condições financeiras, e em um grupo de já oprimidos, oprimir também.
Esse tipo de cultura é responsável pelo contraditório distanciamento em uma religião onde, em verdade, deveria acolhe, igualmente, o rechilieu e o morim, mas em colocá-los em uma posição antagônica de melhor/pior ou rico/pobre.

Impossível falar de questões econômicas e não lembrar que negros e negras no Brasil ainda recebem os menores salários e em sua maioria, ocupam os cargos de faxina, serviço gerais, manutenção, operários, vendedores de pequenos portes, e outros serviços e sub-serviços marginalizados. 
E se a sociedade é desigual ao ponto de estabelecer pseudo lugares para negrxs, porque no âmbito religioso reforçaríamos esses espaços?


Como podemos reafirmar idéias segregadoras em uma tradição pautada no amor ao o que se é? Eu que não consigo conceber essa ideia, penso pela desconstrução imediata de todas as barreiras criadas até hoje. Por se tratar de uma religião, um dos caminhos é conhecer a história do povo negro, suas lutas, seus reinados. A história negra começa bem antes da escravidão, bem antes da invasão do Brasil (...) A história do negro antecede Jesus Cristo - esse mesmo Jesus que só foi pintado de branco com cabelos lisos e olhos azuis para satisfazer um mercado onde a branquitude representa o belo, o sútil, o limpo - e a negritude é tida como o feio, o assustador, e a representação do mal na terra.  Isso também explica o porquê de a estátua de Iemanjá, na Praia Grande ser Branca, mesmo que uma representação da Umbanda, em verdade a força da divindade é africana e negra.  Esses e muitos outros mecanismo, de caso pensado, têm a mesma finalidade. Já citei e torno a dizer, enfraquecer socialmente a força e representatividade negra. 

Mas que sigamos pelo enegrecimento do candomblé, em seus conceitos. Enegrecer quer dizer, retornar para os princípios e valores nos ensinados pelas divindades africanas. Restaurar a identidade da religião onde a força maior pisa  solos, descalços e que não precisa de metros e mais metros de panos, para ter vida, porque o importante para o Orixá é Ser e quando o assunto e ter, o único pedido é que se tenha fé e respeito em abundância. Para que os bens materiais e a estrutura social escravagista de nossa sociedade não nos permita reproduzir e estabelecer espaços de Casa Grande e Senzalas nos Terreiros, e muito menos, sejamos Capitães do Mato, contra os nossos próprios irmãos, filhos e famílias de Axé.

Texto e Fotos*:  Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved - *: Exceto a foto da Estátua de Iemanjá: retirada da internet.
Revisão de texto: Professor e Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira. 


26 de setembro de 2015

Erê na mira do Alibã - A Polícia que Mata Criança


Lembro que a primeira vez que tive contato com um Erê fiquei curioso pra entender o porque aquela tão alegre energia temia o Alibã (como eles chamavam os policiais). Hoje, consigo entender melhor o porquê de tanto pavor. Como não sentir medo de alguém que mata crianças? 
Esse texto é um olhar para os tantos Erês que vivem na mira de extermínio da polícia brasileira. 27 de Setembro celebramos Cosme e Damião, os Erês, Vunjis e a dupla Ibeji, do Candomblé. O meu pedido à essas energias é um só: ajudem nossas crianças a enganarem Iku, porque tem muitos deles que não conseguirão chegar até o terreiro da esquina para comer doce, nos próximos finais de semana.

Lá se vai o protegido pelos gêmeos, lá se vai Erê pra viver. É que sua essência é brincar, e a felicidade o faz doce de ser.
Lá se vai Erê que não tem playground, não tem quintal grande pra o conter. Seu parque é a rua de asfalto esburacado, sua vida se faz verdade nas ladeiras do morro e seu maracanã é o plano terrão desnivelado, no coração da quebrada.

- Mas antes de ir pra rua, trate de comer, seu menino!
- Sim senhora, Dasmãe.

E ele come, todo afobado pra não perder tempo de brincar. Come quase que sem respirar, e ainda de boca cheia, entorna o copo de tang laranja. De sorriso travesso, limpa  boca no pano de mesa, sem que dasmãe veja. Grita pra tomar a bençã e sai feito foguete, pela porta da frente.

 - Eita menino, viu!? Vai com cuidado e que Oxum te proteja nessas rua. 

Dois passos de menino cruzados pelo portão de madeira e o coração chama  Dasmãe para conversar. O coração é jeitoso e dá uma apertadinha quando quer falar. Entre um tremido gole d´água e outro, corre uma lágrima no rosto que treme por inteiro. Bem lá no fundo, quando a mãe de puro amor pedia para Oxum proteger seu menino nas brincadeiras, ela dizia também que o amava demais. Parece até mentira, mas na correria do dia a dia, ela que saia cedo pra faxinar e só voltava no fim da novela das nove, quase nunca tinha tempo pra contar para o menino o quanto era grande seu amor pela doçura de Erê que só veio ao mundo depois de muita reza para a Dona das Águas Douradas.
É esse tipo de Amor que vive em nossos lugares. Amores vistos nas entrelinhas, mas nunca com espaço para gritar em vozes, porque o tempo é inimigo de quem não nasceu com vida fácil, e precisa ralar muito. Uma vez ou outra, quando a bateria de erê desligava no sofá da sala que Dasmãe o tomava no colo e ao acariciar o garoto quase homem, sussurava um Te amo no ouvido do menino que não ouvia, mas sentia no acolher de um singelo sorriso adormecido.

Do outro lado da vida, lá no pé do asfalto, o calor queimava os neurônios prensados na boina preta do Alibã. Protegido por toda sua arrogância e habeas corpus de justiça imperada na ponta de fuzil, transpirava a obscuridade entorpecida pela obrigação de cumprir ordem. A A Adrenalina em ânsia, o secava a garganta e ele só sabia salivar féu ao olhar para o alto e nada enxergava, além de alvos em contraste com a luz do sol.
Ali estava o medo em essência, e o medo covarde subia os caminhos pelas beiradas. Quem o via, corria, se escondia, pois sabia que ele nunca foi segurança. E a vida correu...

A vida corria em alegria, sem notar que Alibã subia. O que Erê queria?
Erê corria para tornar realidade a brincadeira. Descalços e sem camisa, livre como gostava de ser, Erê corria as vielas para chegar até a vendinha e comprar de vez a nova bolinha de ping-pong, que há dias esperava para ter. Ping... Pong... Ping... Pong... Pow! O menino não chegou.



Foi um Pow, sem pong,  sem ping. A doçura pingou de uma vez só no asfalto quente. Pingou como gota de felicidade agora despedaçada e sem vida. Pow! Explodiu a dor de vez no coração de Dasmãe que entendera o recado e correu em direção do seu menino que só era alegria no mundo cão.
Nesse mundo cão onde a bala de fuzil tem direção certa, o menino protegido pelos gêmeos não conseguiu desviar, porque sua pele negra o fazia alvo.

Protegido sim por Oxum, por Iemanjá e pelos Gêmeos, atravessou o mundo brincando, mas antes da hora - E quem sabe  a hora certa? Olorun sabe, mas o Alibã acha que que suas balas são os ponteiro de relógio e acerta quando e quem quiser, no país onde a impunidade extermina suas vidas mais importantes. O que esperar de uma nação que institucionalmente assassina suas crianças que só fazem brincar de ser feliz?




E lá vai Erê, agora acariciado no colo de Oyá, Príncipe como sempre foi, cortejado por todos os Orixás para se juntar aos seus outros irmãos e irmãs da patota de Cosme, Damião, Doum, Crispim, e a Ibejada tão doce quanto o amor de Dasmãe que ficara desamparada no mundo cão, mas que passa a ser cuidada em todos os dias por seu menino que poucas vezes ouviu seu Te Amo, mas que a partir de agora, a ouve sem dormir. Ele vai cuidar de sua mãe e vai brincar de ser criança somente para proteger todas as outras crianças que, dia após dia, tem trabalho para enganar Iku que habita a alma cruel do Alibã. 

[Para Herinaldo Vinicius de Santana, de 11 anos, morto após ser baleado na comunidade Parque Alegria, no Complexo do Caju, nesta quarta-feira (23/09).]

*Foto 1: Roger Cipó - Olhar de um Cipó
*Fotos 2: Frame de uma reportagem sobre o assassinato de Herinaldo 
*Foto 3: Amigos de Herinaldo protestam contra a violência policial no Rio de Janeiro. 

15 de setembro de 2015

Baba Mí - O Candomblé de Pais que não Abandonam suas Crianças




Escrevi esse texto, em agosto de 2015, sobre o dia dos pais, minha relação com a data e meu encontro com a paternidade amada, no Candomblé.  Nesse texto, me proponho a falar de mim. Somente das minhas experiências com o segundo domingo de agosto e de como o candomblé re-significou essa data, em minha vida.

Bem Sou filho de Mãe que cruelmente viveu solitária, trabalhando dia e noite para educar a mim, meus irmãos e outros quatro sobrinhos que ela acolheu quando uma tia faleceu. Isso não é uma história de vitimismo. Tampouco uma tentativa de romantizar as dores que minha mãe atravessou sozinha, durante os últimos 30 anos.É uma história que me ensina sobre a capacidade de amar em meio ao caos.E foi com essa Mulher de força Incrível que entendi que preciso ser um homem melhor para ela, para as pessoas que amo, e para que meus descendentes (não sou pai, ainda!), não precisem passar por todas as ausências que eu, meus irmãos, meus primos e muitos dos nossos próximos passaram. 

Mas como ser um Homem melhor sem o exemplo de um homem bom para seguir?

Tenho bons tios, e nos caminhos da vida, encontrei homens que inspiraram, ajudaram e fortaleceram, mas que só podiam ficar um pouco. Eram professores, padrinhos, mestres da capoeira, pais de amigos, educadores e não eram alguém que eu poderia encher o peito pra chamar de Pai. 

É... Hoje, posso dizer que já consigo entender o que um Pai significa para a formação de um menino. É mais difícil jogar bola com sua mãe quando ela precisa trabalhar, ou estar em casa fazendo comida, lavando, passando, limpando, pensando como pagar a próxima conta de luz. Por mais orgulho que se tenha,  parece que "destoa" quando você tem que fazer desenhos comemorativos na escola, pintar gravatinha, maletas e desenhos de pai e filho, quando sabe que vai entregar para sua mãe e sabe também que ela não usa, nem gosta de gravatas. Dá um nó na cabeça ao lembrar, pensar e escrever sobre isso, mas preciso dizer porque o certo seria que esses nós fossem laços de união,mas ainda não são. Não foram.

Nesse mundo, cresci conhecendo tudo a minha forma, com meus próprios olhos e decidi o meu retorno ao candomblé - nunca digo que "entrei para a religião". Retornei para a religião dos meus ancentrais. Assumindo, se apropriando e significando aquele universo em mim. 

A primeira vista, tudo é um monte de santo com nomes estranhos que você não sabe nem o que significa. Depois vai entendendo que esses santos tem nome de Orixás, e mais um pouco de vivência, aprende que são forças lindas, que vivem dentro de você, e o mais especial e incrível de tudo: As Forças Masculinas são seus Pais e as Forças Femininas, são suas Mães. E eu que nem gostava dessas coisas, descobri que eu tinha Pai. Um não, vários Pais que me trouxeram e me amparam nesse universo, cada um com sua responsabilidade.

Agora, a vida tinha um outro significado. Se por um lado, a figura paterna humana fazia falta, por outro, a paternidade sagrada, chamada de Orixá me atendia no ar que respirava, no fogo que me aquecia, no chão que caminhava, nas escolhas que fazia, no remédio que tomava, nos desejos que só eu sentia, nas transformação que o mundo me pedia. Nada mau para alguém como eu, não mesmo. A presença transcendia qualquer coisa.  Nesse universo, entendi que a presença paterna era a essência dos Deuses Homens que sempre me amaram e nunca deixaram de jogar bola, me olhar enquanto empinava pipa, corrigia-me das travessuras e até me alertavam das más companhias. Sem que eu ao menos eu entendesse, mas seguia. 

Foi assim que, dia após dia, a ancestralidade me  acolheu e me ensinou a compreender que as coisas da vida. Me ensinou ainda mais, ensinou que quando se é filho de Deuses Africanos, não existe solidão que assole. Me ensinou que era papel meu zelar pela existência digna desses Pais que permitiram reencontrá-los. 

Nesse caminho de eterno reencontro, aceitei a missão que o destino me preparou e nasci para a Eterna Ancestralidade Viva. Eu me tornei um filho do bastão sagrado que cuida dos ancestrais homens que por aqui já passaram. Sim. Além de ser filho de um Orixá, eu nasci filho de um pai que não pude conhecer, mas que desde minha gestação, já me conhecia e me escolheu para seu encontro ancestra. Eu nasci Omoixan – Filho do Ixan, que no Candomblé Egungun, nasce para uma vida de relação direta com  Pais que viveram por aqui, protagonizaram grandes feitos da vida espiritual, e ascenderam para cuidar de seus filhos, de um outro lado. E eu me orgulho muito disso.
Me orgulho em ser tão pequeno, mas de estar viver com o coração aberto para todas essas forças que me amparam. Me Orgulho de servir aos homens que lutaram e até morreram para que eu pudesse ter vida – e que eu nunca pare de lutar. Me orgulho em poder gritar meus Pais no vento e saber que eles me acolherão. Me orgulho e me sinto, sempre menino, por hoje ter o coração povoado por mais de um Pai, quem sempre me amaram e que preparam todos os caminhos para que eu aprenda, dia após dia, a ser o ser humano melhor que minha mãe ainda batalha para criar.

Eu escrevo essas linhas, somente para tentar mostrar a importância do candomblé em minha vida. Compartilho minha história, que certamente é semelhante a de outros homens (sempre meninos) que encontraram abrigo, colo e referência paterna na religiosidade africana. 

Homens que, por motivos da vida, nunca abraçaram seus pais no segundo domingo do mês de Obaluaie, mas que por sorte do destino, hoje podem se dobrar, e agradecer, todos os dias aos Orixás Exu, Ogum, Oxóssi, Ossain, Omolu, Oxumare, Xango, Logun, Oxaguian e Oxalufan – Benção, Pai, pelo Amor que é ser Filho dessas energias. Escrevo para agradecer aos Ancestrais Homens Divinizados no Candomblé Egungun por re-significarem minha vida, fazendo-me entender que ser  bom Omo (filho) é a certeza de um dia ser um Pai Bem cuidado pelos seus descendentes. 
Escrevo para agradecer o Candomblé por me permitir reencontro com todos os Pais Exemplares, que o Universo me permitiu antes mesmo de ser gerado por um homem que um dia se ausentou. 



Gbogbo Babá Mí, Mo jubá – A todos os meus Pais, Meus respeitos!

Texto: Roger Cipó 

A foto é sobre "O dia que Omolu me fez filho mais amado". Registro do meu irmão: Barulemi.