9 de novembro de 2015

São Paulo recebe a exposição Terciliano Jr. 50 anos - A Matriz Africana em Arte


Fonte: Agência Caixa de Notícias 

A CAIXA CULTURAL SÃO PAULO inaugurou no dia 26 de setembro, a mostra individual “Terciliano Jr. 50 anos – a matriz africana em arte”,  com a exibição de um conjunto de 45 telas, 20 objetos em madeira e 40 obras em papel, selecionadas pela curadora Matilde Matos.
As obras de Terciliano evocam e retratam Orixás, guias, adereços, instrumentos e objetos ritualísticos ligados às culturas da África Ocidental 2015.estabelecidas sobretudo na costa e interior da Bahia. A exposição, que é gratuita e patrocinada pela Caixa Econômica Federal, prossegue até o dia 26 de novembro de 2015.,
No Dia 20 de Novembro, o Artista vem a São Paulo para uma visita guiada e bate-papo sobre o trabalho. 



Nascido em Salvador, Terciliano Jr. é artista plástico. Sobrinho do Babalorixá Bernardino Bate Folha (fundador do Terreiro do Bate Folha – Salvador-BA), se mantém como observador da religiosidade, levando para seu trabalho artístico um olhar atento e minucioso sobre a beleza da cultura das doutrinas afrodescendentes. Fez teatro e televisão (trabalhou na novela “Irmãos Coragem”), mas foi nas artes plásticas que encontrou seu universo artístico pleno.  

 “Voltar a expor em São Paulo é uma grande emoção. Ao longo desses anos passei a produzir além dos quadros, papel e madeira, sempre tendo a matriz africana como referencial. Levo para meus trabalhos a maneira como sinto a simplicidade, o colorido, o vermelho e o branco dessa matriz... Criar me completa!”, declara o artista.





Ao longo de sua carreira já realizou mais de 300 exposições entre individuais e coletivas no Brasil, nos Estados Unidos e Europa, sendo laureado pela Academia de Artes, Ciências e Letras de Paris em 2008, pela relevância de seu trabalho. Morou por 10 nos Estados Unidos, possuindo obras em coleções particulares, museus e escolas de Belas Artes.




 
SERVIÇO:
EXPOSIÇÃO: “TERCILIANO JR. 50 ANOS – A MATRIZ AFRICANA EM ARTE”
Abertura: dia 26 de setembro, sábado, às 11 horas
Palestra: “A matriz africana” Prof. Dr. Ordep Serra, 11:30 horas – 50 vagas inscrições: tercilianojrsp@gmail.com
Visitas guiadas com o artista: na abertura 
e no dia 20 de novembro às 11h. 
Temporada: de 26 de setembro a 29 de novembro de 2015 
Dias e horários: terça a domingo, das 9h às 19h
Local: CAIXA Cultural São Paulo – Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo (SP)
Entrada: Franca
Classificação: Livre para todos os públicos
Acesso para pessoas com necessidades especiais
Informações: (11) 3321-4400
Produção: MCM Produções Artísticas Ltda. ME
Patrocínio: Caixa Econômica Federal


5 de novembro de 2015

Um dos Segredos da Iniciação no Candomblé


Para alguns, a iniciação termina no “Dia do Orukó” – dia do novo nome do iniciado/divindade - ou no dia em que há “A queda do kelê” – dia em que a jóia da divindade é retirada do pescoço do seu iniciado.
Todavia, não é tão simples assim; na verdade, naquele momento, a iniciação está, parcialmente, começando e levará sete anos para que se conclua. O final do ciclo, denominado iniciação, terminará quando o iniciado for considerado adulto e a sua divindade crescer com, no e por meio dele. Lembremo-nos que a divindade nasceu em seu corpo, em sua cabeça e em sua vida e esta mesma divindade crescerá e tornar-se-á adulta com o seu crescimento, ou seja, em uma relação de simbiose iniciado/divindade.
A iniciação requer participação, aprendizagem e o crescimento/desenvolvimento da “centelha natureza- divindade africana” que acaba de ser sacralizada e fixada em sua vida dependerá da relação e do compromisso que o iniciado estabelecer com a sua iniciação.
Lembremo-nos que se trata de um casamento. Originalmente, “ìyàwó” é esposa, ou seja, ao me iniciar eu me torno esposa ou esposo da divindade para a qual fui iniciado.
Por este motivo, é prematuro dizer que, antes dos sete anos ou “Oro Odun Eje” – ritos sagrados referentes aos sete anos, o “ìyàwó” está plenamente iniciado. Orisa/ Vondun ou Nkisi é a natureza que habita em nós e a natureza sacralizada em nossa vida; é a ancestralidade africana que nos harmoniza, nos fortalece e nos transforma em reis, rainhas, príncipes e princesas africanas, mas, a existência dessas forças sagradas e sua atuação em nossas vidas depende de informação, participação e aquisição de conhecimento.
Algumas pessoas estranham o fato de processos recíprocos de ensino e aprendizagem fazerem parte do processo iniciático. Alguns acreditam que isso invalida a existência da divindade, mas poderá existir um processo sagrado, social, cultural e histórico sem ensino e aprendizagem, sobretudo quando envolve uma nova língua, novos códigos, novos símbolos, novas alegorias, novos ritmos e danças em terras que não sejam aquelas originárias e que visam inserir o homem neste novo universo?
Orixá, Vodun ou Nkisi não são espíritos. No Candomblé, não se trata de um processo mediúnico. O iniciado NÃO É um médium da divindade, mas receptáculo da divindade, receptáculo capaz de receber, metaforicamente, a água do rio, o vento, o raio, a terra, o fogo (...) que, no momento do transe, irá preenchê-lo.
Esta natureza é “antropomorfizada” – transformada em humana e, neste momento, recorre-se a um conhecimento ligado à gênese do Candomblé, porque não existe um texto sem contexto e sem a valorização do conhecimento ligado à gênese do Candomblé.
Desse modo, aprender a cantar, dançar, ritmos, coreografias, cores, sons, gritos, códigos, modos de fazer e “ser” do Candomblé são fundamentais para que uma pessoa se diga do Candomblé e para que a sua divindade se “antropomorfize” plenamente, pois, se eu não vivo o Candomblé em sua plenitude e não recorro a este conhecimento anterior, posso começar a fazer algo que não necessariamente será reconhecido e concebido como “CANDOMBLÉ”.
Ainda nesse sentido, a água do rio só será água do rio se puder fluir livremente e ultrapassar as pedras – egos e desejos humanos e, para isso, aprender qual o papel do rio e como o rio deve estar limpo para cumprir o seu papel na natureza é fundamental para que o rio seja, efetivamente, rio.

Texto: Professor e Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira
Foto da série Saída de Yawo  por Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

4 de novembro de 2015

Rio de Janeiro sedia encontros Nacional e Estadual de Juventude de Terreiros em Novembro


II Encontro Nacional de Juventude de Terreiros e IV Encontro Estadual Juventude de Terreiros do Rio de Janeiro
O encontro realizado pela Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde(RENAFRO) vai acontecer no Hotel São Francisco, nos dias 07 e 08 de novembro de 2015, na cidade do Rio de Janeiro. Conta com o apoio da Gerência de DST-AIDS da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro e do Departamento de DST-AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

O encontro tem como objetivos:
1) investir nos processos de formação e de acesso a informações para a garantia dos direitos humanos da juventude de terreiros com ênfase no combate ao racismo e de todas as formas de intolerâncias,
2) dar continuidade aos treinamentos em políticas públicas para as lideranças de juventude dos terreiros dos núcleos da RENAFRO,
3) organizar uma pauta de necessidades e prioridades da juventude de terreiros para atuação política a nível nacional e internacional
4) fortalecer e dar suporte a participação qualificada dos jovens de terreiros da RENAFRO que serão delegados na Conferência Nacional de Juventude e Conferência Nacional de Saúde.


Local: Hotel São Francisco - Rua Visconde de Inhaúma, 95 - Centro – Rio de Janeiro
O Evento é inteiramente Gratuito e Inscrições são feiras no Local! 


Programação: Dia 07 de novembro de 2015 (sábado)
08:00h- Café com Axé
08:30h - Cânticos de louvor a vida e a natureza
9:00h – Mesa de Abertura:
10h – Sala de Conversa 1: Juventude de Terreiros e Patrimônio Cultural
11:00h – Conversa Afiada: Juventude de Terreiros, Racismo, Políticas Públicas e Qualidade de Vida
12:30h - Almoço
14:00h - Samba de Roda
14:10h - Vídeo-debate: O Cuidar nos Terreiros: práticas de cuidados na tradição religiosa afro-brasileira, direitos humanos e percepções sobre o Sistema Único de Saúde
15:30h – Sala de Conversa: Sexualidades e Novas formas de Prevenção em HIV-AIDS
17:00h às 18:00- Contando histórias: Relatos de casos e experiências de promoção da saúde realizado por jovens de terreiros

Programação: Dia 08 de novembro de 2015 (domingo)

09:00h - Bate- papo: Juventude, Comunicação e Promoção da Saúde
10:30h – Sala de Conversa: III Conferência Nacional de Juventude e a XV Conferência Nacional de Saúde: a importância da participação da juventude de terreiros nos espaços de controle social de políticas públicas.
12:30h- Almoço
14:00h – Contando histórias: Relatos de casos e experiências de promoção da saúde realizado por jovens de terreiros
14:40h - Varal de Idéias: Construindo uma agenda nacional de atuação política da Juventude de Terreiros nos espaços de decisão
16:40h - Avaliação final
17:15h – Encerramento do evento
17:30h – Confraternização e Apresentação Cultural 

Divulgação*

3 de novembro de 2015

É Hora de Denegrir o Candomblé!



Já faz um tempo que venho olhando com bastante atenção para as manifestações segregacionistas do candomblé, especialmente o tão aclamado, Candomblé Tradicional de São Paulo. 

Algumas pessoas que me acompanham podem, num primeiro momento, achar que há uma certa contradição nessas linhas, pois grito aos quatro cantos que o candomblé é a religião do acolhimento, da reconstrução dos laços familiares ancestrais, mas não se trata disso. Falo, porque em essência, candomblé é e deve sempre ser o espaço sagrado de acolhimento, onde se comunga em comunidade da importância de ser como se é, respeitando as individualidades e peculiaridades de cada ser.

Mas, como comungar quando o ritmo alucinado, soberbo e individualista da cidade que não dorme influencia tanto a estrutura social das comunidades religiosas? 
Como confraternizar se o candomblé de São Paulo estabelece suas relações e co-existência a partir daquilo que se veste, da quantidade de Omo Orisa - pessoas no axé, do que é servido no Ajeum - ou buffet pós/durante cerimônia, da quantidade de pedrarias, dos metros de panos e do pertencimento ao clã X ou Y? 
Os questionamentos são muitos e, talvez, o mais urgente seja mesmo a reflexão de, como pensar uma religião afro-brasileira a partir de conceitos negros? 
Como denegrir o Candomblé de vez?

Das últimas experiências de diálogos, formações, debates e até discussões, nada tem me chamado tanto a atenção quanto o pavor e negação de muitos quando citada a expressão Religião Negra. E se a verdade causa espanto, eis a importância de se Denegrir de vez o Candomblé!

Denegrir quer dizer "tornar negro", mas socialmente usada, a palavra é usada para explicar que alguém hostilizou, inferiorizou, tornou ruim, ou tornou algo negro/negativo. Mas pera aí! Tornar Negro ou ser Negro é tão ruim assim? Para a sociedade racista em que vivemos, é. Mas para o Candomblé não! É essencial que nossa estrutura seja negra, que nossa educação seja negra e que nossos conceitos sejam negros.

Quando falo de pensar um candomblé negro, não me refiro à tez da pele dos fiéis, até porque racismo não se resume às questões de pele. É uma estrutura de poder, de opressão e que precisaria de um texto inteiro para explica. Principalmente para que não se acredite mais em racismo inverso, e nem em consciência humana.

Acredito mesmo que candomblé é sim a religião do acolhimento, amparo e amor às diferenças e todxs são bem vindos, mas em reforço, repito, nossa concepção é negra.
Criada por descendentes de reinados africanos que foram ultrajados, sequestrados e condicionados à condição de escravos, o candomblé é uma religião de culto a seres africanos divinizados. Yemonjá antes de assumir o domínio e morada dos mares, era uma rainha negra. Osun, antes de se transformar no rio que carrega seu nome, era uma rainha negra. Ogun, antes de se fundir aos caminhos do mundo, era um Rei Guerreiro Negro. Logo, mesmo que as águas da cachoeira sejam cristalinas e as folhas sejam verdes, todas essas energias são negras.



É negro, é negra e negro é Lindo, negra é Linda!
Posso também lembrar o poeta Sergio Vaz que em seu texto "Magia Negra" traz heróis, heroínas, músicos, atores, e personalidades negras e finaliza dizendo que: "Isso e mais um monte de coisas que é magia negra. O resto é feitiço racista", numa inteligente desconstrução de conceitos enraizados em nossa língua que, somente por racismo e opressão, usa o termo para nos associar àquilo que não presta, não é bom, ou envolvo de maldade. 
Quer um dos culpados para isso? Vá até os escritos sagrados e entenda como o cristianismo atuou e segue atuante no ideal da supremacia branca e demonização do negro e sua cultura.

A cultura de ostentação imperialista no candomblé atual retrata exatamente o distanciamento da essência de culto ideal às divindades africanas - digo até que se distancia do ideal africano. Pois se a essência nos motiva a ser, a contradição explicita a importância de ter, e obviamente quem não tem, não faz parte. Assim entendemos as manifestações de segregação na sociedade religiosa: são barreiras visualmente perceptíveis. Aquele que chegar com a melhor roupa, o melhor rechillieu, panos brocados, torços enormes e pedrarias reluzentes é sempre melhor recebido que aquele que opta pelo jeans branco, camisa simples e chinelo de dedo. 
Naturalmente, é importante que cada um se vista com o que te faz bem, concordo e nem discuto. Julgo problema quando aquele que tem condições de usar os melhores panos se sente superior ao sem condições financeiras, e em um grupo de já oprimidos, oprimir também.
Esse tipo de cultura é responsável pelo contraditório distanciamento em uma religião onde, em verdade, deveria acolhe, igualmente, o rechilieu e o morim, mas em colocá-los em uma posição antagônica de melhor/pior ou rico/pobre.

Impossível falar de questões econômicas e não lembrar que negros e negras no Brasil ainda recebem os menores salários e em sua maioria, ocupam os cargos de faxina, serviço gerais, manutenção, operários, vendedores de pequenos portes, e outros serviços e sub-serviços marginalizados. 
E se a sociedade é desigual ao ponto de estabelecer pseudo lugares para negrxs, porque no âmbito religioso reforçaríamos esses espaços?


Como podemos reafirmar idéias segregadoras em uma tradição pautada no amor ao o que se é? Eu que não consigo conceber essa ideia, penso pela desconstrução imediata de todas as barreiras criadas até hoje. Por se tratar de uma religião, um dos caminhos é conhecer a história do povo negro, suas lutas, seus reinados. A história negra começa bem antes da escravidão, bem antes da invasão do Brasil (...) A história do negro antecede Jesus Cristo - esse mesmo Jesus que só foi pintado de branco com cabelos lisos e olhos azuis para satisfazer um mercado onde a branquitude representa o belo, o sútil, o limpo - e a negritude é tida como o feio, o assustador, e a representação do mal na terra.  Isso também explica o porquê de a estátua de Iemanjá, na Praia Grande ser Branca, mesmo que uma representação da Umbanda, em verdade a força da divindade é africana e negra.  Esses e muitos outros mecanismo, de caso pensado, têm a mesma finalidade. Já citei e torno a dizer, enfraquecer socialmente a força e representatividade negra. 

Mas que sigamos pelo enegrecimento do candomblé, em seus conceitos. Enegrecer quer dizer, retornar para os princípios e valores nos ensinados pelas divindades africanas. Restaurar a identidade da religião onde a força maior pisa  solos, descalços e que não precisa de metros e mais metros de panos, para ter vida, porque o importante para o Orixá é Ser e quando o assunto e ter, o único pedido é que se tenha fé e respeito em abundância. Para que os bens materiais e a estrutura social escravagista de nossa sociedade não nos permita reproduzir e estabelecer espaços de Casa Grande e Senzalas nos Terreiros, e muito menos, sejamos Capitães do Mato, contra os nossos próprios irmãos, filhos e famílias de Axé.

Texto e Fotos*:  Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved - *: Exceto a foto da Estátua de Iemanjá: retirada da internet.
Revisão de texto: Professor e Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira.