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25 de janeiro de 2017

25 de janeiro: Para não esquecer, 182 anos da Revolta dos Malês


Em 25 de janeiro de 1835, explodiu uma das mais importantes rebeliões de negros e negras da história do país: a Revolta dos Malês. Praticamente omitida pela historiografia oficial, a Revolta é uma lição de garra e luta pela liberdade. Mas também da perversidade das elites dominantes”.
Uma explosão pela liberdade e contra a intolerância. A Revolta foi planejada por um grupo de africanos muçulmanos, negros de origem haussa e nagô, chamados de malês, devido ao fato de que, em ioruba, muçulmano é imale. Formado, dentre outros, por Ahuma, Pacífico Licutan, Luiza Mahin, Aprício, Pai Inácio, Luís Sandim, Manuel Calafate, Elesbão do Carmo, Nicoti e Dissalu. A data escolhida, o amanhecer de 25 de janeiro, coincidia com um dia importante do ponto de vista religioso: o fim do mês sagrado muçulmano, o Ramadã, e dos tradicionais festejos religiosos dedicados a Nossa Senhora da Guia, que manteriam ocupados os católicos.
O objetivo da conspiração era libertar seus companheiros islâmicos e negros em geral e matar brancos e mulatos considerados traidores. Uma meta que traduzia a complexa combinação entre escravidão negra e perseguição religiosa, imposta pelos colonizadores católicos.
Dois aspectos singulares influenciaram todo o processo. Em primeiro lugar, diferentemente da grande maioria dos negros (que compunham mais da metade dos cerca de 20 mil habitantes de Salvador) os malês sabiam ler e escrever em árabe. Além disso, boa parte dos líderes da Revolta era formada por? Negros de ganho? (escravos que faziam serviços urbanos, artesanato ou vendas, recebendo algo por isso) o que não só facilitava sua circulação pela cidade, mas também possibilitou que muitos deles comprassem sua alforria e, nos meses que anteriores à Revolta, adquirissem armas.
Nos dias que antecederam o levante, notícias davam conta de uma intensa movimentação, sobretudo de escravos vindos do Recôncavo Baiano para Salvador. Viriam unir-se ao líder Ahuma, que havia sido preso e estava sendo brutalmente castigado. Além disso, o respeitado Alufá Pacífico Licutan, vítima de constantes maltratos por parte de seu senhor, Também se encontrava preso na cadeia municipal. É certo que as agressões sofridas por esses dois mestres foi o estopim para por em prática a revolta há muito planejado.
O número de pessoas envolvidas na preparação da rebelião (entre libertos, escravos, islâmicos e gente que professa outras religiões) varia de acordo com a documentação entre 600 e 1.500, a grande esmagadora deles nascidos na própria África.

Traição e massacre
Antes mesmo de eclodir a Revolta foi denunciada por uma negra ao juiz de paz. A polícia invadiu, na noite de 24 de janeiro, a residência de Manuel Calafate, um dos locais de encontros e reuniões de africanos de fé islâmica. Resistindo à polícia, partiu dali um grupo de escravos que tentou assaltar a cadeia, ainda então instalada na parte baixa do prédio da Câmara Municipal. Outro grupo procurou avisar escravos e libertos malês que trabalhavam nas residências de cônsules e comerciantes estrangeiros. Reuniram-se cerca de 50 a 60 homens armados com pistolas, lanças, espadas e facas. Foram esses os que, primeiro, combateram com a polícia e atacaram o quartel que controlava a cidade.
De forma desorganizada, a Revolta tomou a cidade, mas, devido à inferioridade numérica e de armamentos, acabou sendo massacrada pelas tropas da Guarda Nacional, pela polícia e por civis armados que estavam apavorados ante a possibilidade do sucesso da rebelião negra.
Durante os confrontos, morreram cerca de 70 negros e aproximadamente 10 soldados das forças repressoras. Com a derrota, centenas foram presos, sendo condenados à deportação (muitos para a África, algo até então inédito no Brasil), a brutais castigos ou à pena de morte. Na seqüência do evento, instalou-se na Bahia, sobretudo em Salvador e Santo Amaro, a mais generalizada e cruel repressão contra os escravos que estendeu a perseguição a outros malês. O temor provocado pela rebelião foi tamanho que a corte imperial proibiu a transferência de qualquer escravo baiano para qualquer outra região do país.
Uma intifada negra
Muitas vezes apontada como uma rebelião de caráter puramente religiosa, a Revolta, na verdade, foi muito mais complexa. Como lembra João José Reis, autor Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835, em uma entrevista publicada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, “com o risco do anacronismo, a revolta estava mais para Intifada do que para Jihad, embora a guerra santa tenha sempre algum lugar no coração de um muçulmano que se rebela”.
Além disso, o processo só pode ser entendido dentro do quadro de rebeliões negras que sacudiam a Bahia, desde o início do século em sucessivos levantes (1807, 1809, 1813, 1826, 1828 e 1830), envolvendo as mais diversas etnias e grupos. Em relação à predominância dos malês, favorecida pelos aspectos mencionados acima, também é importante lembrar que vários documentos apontam para o fato de que eles viam os demais negros como aliados em potencial.
Acima de tudo, apesar de derrotada, a Revolta serviu como inspiração fundamental para as lutas contra a escravidão, não só pelo exemplo que forneceu, mas também pelo envolvimento de muitos de seus líderes e participantes, como Luiza Mahin em outros processos. Uma lição que para nós, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU, continua viva na necessidade de travar uma luta sem tréguas contra o racismo, toda forma de intolerância e, particularmente, contra o sistema que alimenta estas práticas. O colonial, no passado; o capitalista, na atualidade.

Luíza Mahin: mulher guerreira
Esta africana guerreira teve importante papel na Revolta dos Malês. Pertencente à etnia jeje, alguns afirmam que ela foi transportada para o Brasil, como escrava; outros se referem a ela como sendo natural da Bahia e tendo nascido livre por volta de 1812. Em 1830 deu a luz a um filho, Luis Gama, que mais tarde se tornaria poeta e abolicionista e escreveria as seguintes palavras sobre sua mãe "Sou filho natural de uma negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã…"
Luiza Mahin foi uma mulher inteligente e rebelde. Sua casa tornou-se quartel general das principais revoltas negras que ocorreram em Salvador em meados do século XIX, dentre elas a chamada Grande Insurreição, de 1835. “Luiza conseguiu escapar da violenta repressão desencadeada pelo Governo da Província e partiu para o Rio de Janeiro, onde também parece ter participado de outras rebeliões negras, sendo por isso presa e, possivelmente, deportada para a África”.

Por: Dicá (Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente). Texto publicado em: Portal Geledés
Fotos: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

22 de junho de 2016

"Dez anos no candomblé e sua vida financeira não melhorou?" - Um pensar sobre respostas



Depois daquele ebó, o trabalho desejado não deu certo?
Depois da iniciação, você não conseguiu trocar de carro?
Dez anos no candomblé e sua financeira não melhorou?
Quantas perguntas como essas? Quantas respostas...
E quem responde o que o outro não quer ouvir, é o quê?
Sincero!

É preciso que sejamos sinceros com nós mesmo, e principalmente com quem chega ao nosso universo religioso.
Ouço e leio histórias, a todo instante, de pessoas que chegam porque é "a salvação".
Antes de dizer que "Não. Não é", precisamos entender que a "salvação" cristã não existe em nossa religião, como a ideia de prosperidade, semelhante ao que propaga outros segmentos, também não.

Talvez, ajude muito entender que o Candomblé, por mais que seja uma religião afro-brasileira, nascida no Brasil, se baseia nas relações de interações com a natureza - e chamo de natureza, tudo que vive ao nosso redor (seja visível ou sensível), através de divindades ancestrais africanas, que são forças sagradas que nos ajudam a melhorar essas relações, nos religando a Deus (Sim! Nossa religião é Monoteísta!), ao mundo que habitamos, às relações que construímos, e a nós mesmo.

Candomblé nos religa à África em nós (para mim, isso é o mais importante). 
É o mais importante porque esse religar tem muito a ver, ou até responde as perguntas do início do texto.

Quando nos permitimos conexão com os valores africanos, ensinados pelos Orixás, entendemos e aprendemos a viver a partir de uma filosofia diferente da que existe no mundo cristianizado e catequizado. A gente passa a entender Orixá como parte de nós e não como espírito ao nosso favor - como erroneamente, ouvimos.
Quando conectados com valores africanos, a gente entende Orixá como energia fortalecedora, que equilibra nossas forças vitais, e nunca como mecanismo de triunfo, ou fórmula de sucesso.
Quando conectados com Orixá, o outro é templo de uma divindade, assim como sou, e nunca inimigo. O outro é sempre parte de mim, e a medida que, por exemplo, eu peço-lhe benção, peço licença para me conectar à sua divindade, e o movimento de retorno, me faz portal para que o outro, igual a mim, encontre força sagrada no que trago de valoroso. Sem preços.
Quando conectados com os valores africanos, a saúde é também resultado da nossa presença no mundo. É resultado do que se come, daquilo que bebe, de como dorme, de como vive, e principalmente, de como (e daquilo que se) fala. As palavras são trazidas pela sopro interno que nos deu vida. Palavra é a força mais poderosa que possuímos. Seria inocente achar que elas não determinam a boa e má saúde, né?

Reparemos que no Candomblé, até pode faltar um elemento de fundamento, só nunca pode faltar a palavra. Opte pelas boas palavras.

Ainda sobre confiança, a palavra, no pensar África, é Lei. E se o terreiro é a nossa possibilidade de reconstruir África em nós, porque não usar bem as palavras?
E, por que não significar nossas palavras?
Por que não significar nossa presença no terreiro?

Talvez, entendermos que o Candomblé não irá resolver nossos problemas financeiros é uma chave para mobilizarmo-nos a protagonizar nossas próprias vidas, assumindo os acertos e erros do cotidiano.
Talvez, aceitar que Orixá não é/nem será a fórmula para ascensão, fará com que culpemos menos as divindades pelos nossos desacertos sociais, porque uma força que tem o dom de nos ligar a deus, não pode ser responsabilizada pela infelicidade de nossas relações.

Isso não quer dizer que os rituais não sejam importantes. Eles são. Só não são a solução, tampouco responsáveis pelo desdobrar da vida.
Cada um traz África Ancestral em si. Cada África Ancestral vem por um caminho. Cada África Ancestral revive sob um destino.
O rito nos ajuda a entender por caminho melhor andar. Nunca irá definir onde chegar.
Talvez, a gente só precise respeitar e reconhecer Orixá como parte do que somos na natureza, e nunca como ferramenta distante usada somente em nossos interesses, para que a presença dessas forças sejam, cada vez, maiores em nós.

Talvez...
Não sei... Talvez eu só esteja escrevendo essas linhas para resumir que, de tantas trilhas e caminhos pelos quais nos perdemos, entender que para Orixá o Ter nunca será tão nobre quanto Ser, e que, talvez, quando a gente entender que Ser alguém melhor para a vida, é o que nos faz seres próspero, teremos todas as possibilidades de andar melhor.
[Foto e Texto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

2 de junho de 2016

Candomblé - Religiosidade que nos Liga à Força de África em Nós e N@ Outr@


Conta-se que o Deus cristão expulsou Adão e Eva do paraíso. Eles conhecem o pecado, e como penitência perderam a relação harmoniosa com o todo poderoso. Há que diga que é nesse momento de distanciamento que se nasce a religião, no sentido de religar reles mortais à divindade sagrada. Pode até ser, mas religião não é só isso, nem tampouco um branco-cistão-eurocêntrico.

Há quem pense o candomblé como religião e há que acredite que o conceito religioso é raso para uma tradição em que a divindade sagrada nunca se distancia de seus e suas fiéis. E eu concordo. Diferente de outras vertentes a relação sagrada com os deuses e deusas é uma constante. A vida co-existe com a vida de fé. Os Orixás habitam as águas doces, salgadas e águas dos corpos, habitam as folhas, as plantas, as árvores - que por sinal são tempos e ligam a terra e o céu, habitam as estradas, a terra, as montanhas, as cidades, os ventos, e tudo que é vivo. Porque os Orixás africanos e africanas são forças vitais que garantem o equilíbrio da vida na terra, em harmonia com o determinado por Olodumaré, nosso Deus.

A vida em cooperação com os Orixás, de fato, ultrapassa o conceito e religião comentado, isso porque nosso fundamento é outro, é relação direta, é entender que tudo ao redor é sagrado e que o corpo é o templo onde habita Orixá.
Candomblé é uma religião afro-brasileira de culto às divindades africanas, logo é importante que nos percebamos propagadores da filosofia e religiosidade dos deuses de África.

Nessa forma de viver, Orixá é a força para nos equilibra na estrada do viver. A medida em que permitimos que essa força se aproxime de quem somos, nos tornamos pessoas melhores. Não melhores como dizem os padrões do capitalismo, e sim melhores para as relações de vida ao redor. 

Desde que me encontrei no candomblé tenho me esforçado para viver a partir do que Orixá ensina e nos pede. Mais que nos ligar a Deus, o Candomblé nos conduz para uma busca de religar-nos a nós mesmo, perceber humanidade sagrada no outro, porque se em meu ser habita um deus, no outro também, logo o cuidado e o respeito devem ser bases importantes das relações sociais.


A minha verdade é que o candomblé fez com que eu me descobrisse negro. Uma descoberta que vai além da cor da pele, dos cabelos crespos e traços. Uma descoberta de identidade, da afirmação de uma negritude que me permite dignidade e força para gritar todos os nãos contra uma cultura racista que, quando não tenta nos limitar a padrões de belezas que não nos cabem, marginaliza nossa estética, criminaliza nossas vidas e demoniza nossa fé. Conhecer o candomblé ligou quem eu era a mim mesmo, a quem eu poderia ser, a quem eu sou. E isso é religião, isso é sagrado. Porque me faz perceber o quão sagrado o mundo pode ser, e é. 

Candomblé é a religião que permite  que encontremos o pedaço de África em nós, que fora sucumbido por uma cultura intolerante e racista que nunca se permitiu, e não se permite olhar, perceber, sentir e respeitar a humanidade da fé negra. Quem se inicia no candomblé, seja lá em qual for a nação, ou em cultos africanos, se permite nascer para a vida ancestral. Quem assim faz, faz para viver uma filosofia diferente das superficialidades de um mundo que tem banalizado por demais o sentido de fé, religiosidade e força sagrada. Faz (nasce) para aprender como a vida africana lida com as diferenças, cuida dos mais novos, dos mais velhos, respeita as mulheres, aceita opiniões divergentes, valoriza o que tem valor, não se baseia - e não deve se basear em preços.


Candomblé é o abraço dado a quem a sociedade nega afeto. É acolhimento a quem não se permite ser posto em pequenos vidros de ensaio para ter a vida esteriotipada e assistida por uma mentalidade normativa. Candomblé é o caminho para quem quer sentir que sagrado é o curso natural da vida e caminha para viver mais próximo da Mãe do Mundo, a Terra África nunca distante dos seus filhos e filhas.  

Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

24 de fevereiro de 2016

Desconstruir é Importante: 17 Inverdades sobre o Candomblé



1. “O Candomblé não é lugar da família e um casal não pode pertencer à mesma comunidade” – o Candomblé é familiar e nasce para a reconstituição da família e para a sua manutenção. A palavra Candomblé poderia ser sinônimo de “Família”;

2. “Candomblé não é o lugar de crianças” – no Candomblé, acredita-se no interminável, no contínuo, em uma linha sem fim que inclui todos, desde os mais jovens aos mais velhos; 

3. “Cada Casa é uma Casa”– somos parte de algo maior e, por isso, quem se crê único toca apenas levemente o todo. Pode acontecer, mas não é uma verdade absoluta; 

4. “Somos desorganizados, desunidos” – não! Não somos! Se fôssemos, nem Candomblé teríamos (...) Fomos, intencionalmente, excluídos dos movimentos sociais, culturais e da política e, agora, estamos fazendo o caminho inverso. Some-se a isso a questão de seremos “denegridos” e, durantes séculos, termos sido obrigados a viver na segregação, no silêncio e guardados em “nosso mundo”; 

5. “Somos fracos e não lutamos!” Lutamos, diuturnamente, desde que fomos arrancados da nossa Terra, da nossa Família, da nossa História, das nossas Crenças e da nossa Cultura. Criamos estratégias sutis de luta e manutenção desses valores e, por isso, podemos praticar “livremente” o Candomblé hoje. Se assim não fizéssemos, estaríamos todos mortos e com ele o Candomblé; 

6. “O Candomblé é o lugar da dor, culpa e sofrimento” – quem ou que povo, em sã consciência, criaria um sistema de crenças e valores para desunir, torturar, desumanizar mais ainda as pessoas? Considerando a escravidão, esta mentira não faz sentido algum; 

7. “As pessoas estão no Candomblé por amor ou pela dor”: a dor é das pessoas [sim, somos humanos] e as divindades clamam pela nossa aproximação para que possam nos proteger e cuidar de nós; as divindades foram designadas pelo “criador” – “pré-existente” para criar o mundo, cuidar de nós e nos manter vivos e felizes;

8. “Orixá, Nkisi ou Vodun matam ou podem matar aqueles que deveriam guardar” - não faz sentido, os três valores do Candomblé são: 1) Filhos (descendência e manutenção da memória); 2) Longevidade (se a “divindade” matasse e fosse feita para isso, iria contra este princípio ancestral); 3) Poder de trocas (que dizem respeito às relações, aos movimentos e à ética do empoderamento);

9. “Candomblé é coisa de gente sem cultura” – a pergunta é: como alguém sem cultura conseguiria praticar, a um só tempo, uma “Fé”, “Ciência”, “Filosofia”, “Cultura”, “Medicina” e, de quebra, manter a África Ancestral no Brasil, mesmo diante de sua negação e diante do Racismo? 

10. “Somos bruxos e feiticeiros” – sim, há bruxos e feiticeiros no mundo, mas não podemos falar por eles. O Candomblé é da natureza e dos fenômenos da natureza; acreditamos em milagres, no intangível, no invisível, mas quem não acredita? 

11. “Não acreditamos em ‘Deus’ (...)” – crença e cultura são fenômenos sociais intrínsecos; o fato de a nossa crença voltar-se a divindades “negras”, “africanas”, “míticas” e “da natureza” não quer dizer que não acreditamos em Deus;

12. “Somos antiéticos e imorais” – a moral é um princípio cristão e tem bases no culto ao medo e à culpa, ela não empodera o outro, apenas o aprisiona e controla. O Candomblé é o lugar de uma ética do empoderamento, ou seja, estamos em família e, ao empoderar o outro, todos se empoderam. A visão de mundo do Candomblé é afrocentrada e, por isso, fala-se em ética do empoderamento. Há valores, há disciplina, há um código de ética e muitas lições ancestrais. Mas deve ser sempre um convite, nunca uma convocação;

13. “Não temos liturgia – sistema organizado de crenças, valores e princípios”. Temos e ela é levada a sério, porque, ao desrespeitá-la, negamos o “criador”, os “nossos guardiões” e os fundadores do Candomblé;

14. “Eles judiam dos animais e os matam” – o Candomblé possui um “Modo Tradicional de Alimentação”, alimentamo-nos da mesma proteína animal comprada no açougue e comida fartamente nas churrascarias, mas somos contra a dor, a tensão da “imolação” e contra o modo como a sociedade em geral consome carne. Comemos bodes, galinhas, galos e aves, escolhidos ou criados por nós, tratados, lavados, honrados ritualmente e, depois, essa carne sagrada se junta à comunidade e une a comunidade. O princípio é do repasto e do comer em família e isso começa desde a escolha ou criação do animal que servirá de alimento. O rito não inclui barbárie e fazer o animal sofrer, como é comum em abatedouros, não faz parte do rito ancestral;

15. “Eles cultuam os mortos e pedem o mal a eles” – sim para cultuamos os “mortos” – tomos aqui o sentido ocidental e assustador da palavra. Cultuamos os mortos, mas não como a nossa coirmã Umbanda, que também não prega o “MAL”. Somos a religião da memória ancestral, da continuidade, o culto àqueles que estiveram conosco é um museu historiográfico. Honramos a “morte” que nos toca quando chega a hora e honramos igualmente os nossos entes queridos e isso se dá por meio de um complexo conjunto de ritos e saberes ancestrais; 

16. “Todos são homossexuais no Candomblé” – pouco importa afirmar ou negar isso. Eles também estão conosco e em família. No Candomblé, todos são humanos e a sexualidade ou identidade de gênero, que são coisas diferentes, são humanas e como o Candomblé é humano e essas pessoas são, igualmente, filhos e filhas do criador, estão conosco entre humanos. Somos todos humanos.

17. “Somos APENAS uma religião” – não, não somos apenas “isso”, no sentido ocidental da palavra – creio que nenhuma religião o seja “só isso” conceitualmente; somos um Quilombo Urbano, Quilombo Contemporâneo, somos guardiões dos saberes ancestrais africanos, somos negros, somos seres-humanos unidos para resistir à segregação que se apresenta por meio dessas mentiras, somos homens, mulheres, jovens e crianças, somos um espaço privilegiado que reproduz valores ancestrais da África Negra; somos o lugar do corpo e da palavra, somos o amor e a vida que se volta ao criador por meio da natureza e da humanidade.

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Texto de Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira
Babalorisa da CCRIAS – Comunidade da Compreensão e da Restauração Ile Axé Xangô São Paulo, 12 de março de 2015. 
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Coordenador do Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial “Conversa de Terreiro” – Jornada de Diálogos, Estudos, Sistematização de Conhecimentos Ancestrais da África Negra no Candomblé Nagô-Queto – criasango@gmail.com

Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

30 de dezembro de 2015

Para Quem e Para Que Fazemos ou Somos de Candomblé?




(...) quando eu empodero o outro, eu me empodero também. Porque, quando ele entende o que eu compreendi, passa a ser parte de mim.
Ontem em conversa com uma irmã do Rio de Janeiro, mulher, negra, ativista, escritora e de Candomblé; terminamos a nossa conversa até altas horas da madrugada com esta questão: PARA QUEM E PARA QUE FAZEMOS OU SOMOS DE CANDOMBLÉ?
Na mesma hora, uma filha de santo de Osun, manda-me a boa notícia de que o edital do Iphan referente à Edital PNPI 2015 - Prêmio Boas práticas de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial e tínhamos o início da resposta a nossa questão.
Parece-me que os motivos pelos quais deveríamos fazer Candomblé se perderam ao longo do seu caminho histórico.
A mim, o Candomblé nasce como um movimento de resistência negra. Diante de tanta dor, tanto sofrimento, opressão e subalternização dos seres humanos escravizados no Brasil e da tentativa de retirada de sua negritude e africanidade, a família negra se mobiliza para que, de alguma maneira, pudesse ter, aqui no Brasil, um pedaço de sua África Ancestral – nagô, fon ou banta e, por isso, passamos a ter o Candomblé.
Obviamente, estamos diante de a-FÉ-to. A fé nas divindades africanas, na força vital, no sopro de vida, na cabeça ancestral e na ancestralidade africana como um todo se mobiliza para que esta família sobreviva, cure-se, fortaleça-se, renove-se, ame, tenha filhos, vida longa e para que esta família e os seus sejam protegidos por seus ancestrais e pelas divindades africanas e para que tenham uma caça próspera de modo que possam (sobre-) viver como seres humanos que até então não eram.
Sempre me pergunto se, no momento, da gênese do Candomblé tínhamos tudo o que temos hoje; porque, salvo engano, ela nasce pronto; foi elaborado e ali já nasciam seus primeiros iniciados; não sei se ele nasceu como uma colcha de retalhos que foi se tecendo ao longo dos anos e se podemos atribuir a sua completude ao século XXI.
Muito pelo contrário, penso que podemos atribuir ao século XXI a sua incompletude, pois, certamente, buracos deixados pela falta de vivência foram sendo tapados com coisas não necessariamente do universo africano no Brasil.
Hoje, o que conta são os “bodes” – a quantidade deles determinará os ganhos, o número de dias – quantos mais dias forem utilizados para a iniciação mais forte se diz que ela será, a roupa mais bonita e o adê mais alto, o pano de cabeça, igualmente, mais alto e mais vistoso; pois, essas são as verdadeiras contribuições do século XXI – apenas para citar algumas. Na sociedade do visível e do ter para ser, o que importa é a concretude das coisas.

Sou muito jovem, eu sei que sou jovem, mas, tendo eu nascido em uma família de axé, vejo com tristeza os rumos do Candomblé. Obviamente, eu também, como todo mortal, fui contaminado e acreditei, por alguns anos, que o exagero agradaria Orixá, mas, chega o dia em que você precisa (re-)pensar como o fazem os filósofos, tudo o que lhe disseram que era verdadeiro e bom e tudo o que tomou como verdade absoluta.
Vejo agora que, quando pensava desta forma, ou seja, na grandeza, na materialidade, nos bodes gigantescos, no Ojá de edredom e apenas no resultado de um suposto pacto, nem negro era. Não pensava como negro e nem pensava o Candomblé como negro e de origem africana.
E ali estava o meu maior problema; eu não fazia Candomblé, fazia algo europeu e cultuava o etnocentrismo com o nome de Candomblé.
Creio que um dia temos que acordar nos perguntar: por que e para quem fazemos Candomblé?
Hoje, vejo que o Candomblé se faz para a manutenção da memória ancestral, integração humana, também pelos a-FÉ-tos, e, sobretudo, para que possa ser um espaço da Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.
Não sei se a minha voz lhes parece excludente, não gostaria que soasse assim, mas falo de coração aberto que precisamos pensar, falar, conversar e entender a grandiosidade do Candomblé e o seu papel social para além das estratégias de fragmentação que o opressor nos impôs e aceitamos – porque sempre são sutis e com a sutileza própria daqueles treinados para dominar os que subjugam; este mesmo opressor que, de alguma forma, transformou-nos em algo que não deveríamos ser.
Convido a todos do Candomblé para um diálogo franco e aberto com vistas ao “empoderamento” por meio da nossa essência e por meio do que nos for autentico e nosso.
Porque, quando eu empodero o outro, eu me empodero também. Porque, quando ele entende o que eu compreendi, ele passa a ser parte de mim.

Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira
Babalorixá da CCRIASàngó
Coordenador do Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial “Conversa de Terreiro” – Jornada de Diálogos, Estudos, Sistematização de Conhecimentos Ancestrais da África Negra no Candomblé Nagô-Queto – criasango@gmail.com
Para Jacqueline Oba Negraline e aos irmãos do Ile Ara
.

Fotos: 
Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

9 de novembro de 2015

São Paulo recebe a exposição Terciliano Jr. 50 anos - A Matriz Africana em Arte


Fonte: Agência Caixa de Notícias 

A CAIXA CULTURAL SÃO PAULO inaugurou no dia 26 de setembro, a mostra individual “Terciliano Jr. 50 anos – a matriz africana em arte”,  com a exibição de um conjunto de 45 telas, 20 objetos em madeira e 40 obras em papel, selecionadas pela curadora Matilde Matos.
As obras de Terciliano evocam e retratam Orixás, guias, adereços, instrumentos e objetos ritualísticos ligados às culturas da África Ocidental 2015.estabelecidas sobretudo na costa e interior da Bahia. A exposição, que é gratuita e patrocinada pela Caixa Econômica Federal, prossegue até o dia 26 de novembro de 2015.,
No Dia 20 de Novembro, o Artista vem a São Paulo para uma visita guiada e bate-papo sobre o trabalho. 



Nascido em Salvador, Terciliano Jr. é artista plástico. Sobrinho do Babalorixá Bernardino Bate Folha (fundador do Terreiro do Bate Folha – Salvador-BA), se mantém como observador da religiosidade, levando para seu trabalho artístico um olhar atento e minucioso sobre a beleza da cultura das doutrinas afrodescendentes. Fez teatro e televisão (trabalhou na novela “Irmãos Coragem”), mas foi nas artes plásticas que encontrou seu universo artístico pleno.  

 “Voltar a expor em São Paulo é uma grande emoção. Ao longo desses anos passei a produzir além dos quadros, papel e madeira, sempre tendo a matriz africana como referencial. Levo para meus trabalhos a maneira como sinto a simplicidade, o colorido, o vermelho e o branco dessa matriz... Criar me completa!”, declara o artista.





Ao longo de sua carreira já realizou mais de 300 exposições entre individuais e coletivas no Brasil, nos Estados Unidos e Europa, sendo laureado pela Academia de Artes, Ciências e Letras de Paris em 2008, pela relevância de seu trabalho. Morou por 10 nos Estados Unidos, possuindo obras em coleções particulares, museus e escolas de Belas Artes.




 
SERVIÇO:
EXPOSIÇÃO: “TERCILIANO JR. 50 ANOS – A MATRIZ AFRICANA EM ARTE”
Abertura: dia 26 de setembro, sábado, às 11 horas
Palestra: “A matriz africana” Prof. Dr. Ordep Serra, 11:30 horas – 50 vagas inscrições: tercilianojrsp@gmail.com
Visitas guiadas com o artista: na abertura 
e no dia 20 de novembro às 11h. 
Temporada: de 26 de setembro a 29 de novembro de 2015 
Dias e horários: terça a domingo, das 9h às 19h
Local: CAIXA Cultural São Paulo – Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo (SP)
Entrada: Franca
Classificação: Livre para todos os públicos
Acesso para pessoas com necessidades especiais
Informações: (11) 3321-4400
Produção: MCM Produções Artísticas Ltda. ME
Patrocínio: Caixa Econômica Federal


19 de outubro de 2015

Rumbê e a Experiência de Fazer a Pedra Falar



Dentro do candomblé, nada é mais valioso que saber fazer a pedra falar. O Orisa é a pedra dentro do Igbá, que se complementa com favas, raízes, elementos diversos. Não adianta termos conhecimento sem termos a malícia que só o dia-a-dia nos ensina para fazer a pedra falar. 

Um dia meu pai fez um teste comigo que vou contar: 

"Mais ou menos pelos meados do ano de 1995, eu tinha 5 anos de santo, e meu pai chegando ao terreiro colocou uma esteira no chão e disse que era para que eu tomasse um banho de folhas, vestisse uma roupa de ração limpa e sentasse na esteira. Me deixou esperando mais ou menos por 1 hora, e já impaciente indaguei se podia sair de lá. Ele disse que eu era muito apressada, e que esperasse que ele iria dizer o que queria. Pois ele foi tomar café, ficou conversando com o povo que estava lá e nada de me falar o que queria.

Depois de infinitas horas ele mandou a ajoie dele chamada de Mãe Cilinha buscar três pedras dentro de um coité e pediu que eu escolhesse uma. Logo pensei que iria virar de santo, pois tudo naquela época que acontecia Iyawo virava. Mas nada, nada aconteceu. Então disse que eu colocasse a pedra na minha frente e ficasse olhando para ela, vendo formato, cheiro, cor, textura, assim fiz, e ele mandou que eu não saísse de lá. Fiquei entediada de tanto analisar aquela pedra, ainda mais imaginando o porquê daquilo. 

Bom, ele voltou depois de um tempo e disse que era para levar aquela pedra para casa e que fosse observando ela e cantando todos os dias uma cantiga de um determinado orisá e não deixasse ninguém colocar as mão nela. 

Obedeci, fui para casa e depois de 15 dias fazendo o que ele me pediu enfiei aquela pedra na bolsa e voltei para o terreiro. Quando cheguei lá a primeira coisa que ele me perguntou foi da danada da pedra, e mostrei para ele que estava comigo e que tinha feito tudo como tinha ordenado. Me mandou sentar novamente na esteira e tirou a pedra de mim.

Pouco tempo depois chegou com umas 30 pedras e mandou eu dizer a ele qual delas tinha ficado comigo aqueles dias, foi um susto para mim, pois eram muitas, mas com muita atenção eu achei e mostrei com convicção. Meu pai sorriu e me elogiou, e perguntou se eu tinha ouvido a pedra cantar comigo a cantiga que ele falou para cantar todos os dias, dei risada e meio no respeito e no deboche disse que pedra não falava. Pai balançou a cabeça e disse: "Minha filha essa pedra ficará em seu futuro jogo de búzio, e ela será Esú, aquele que trará o recado dos orisa, e se você perguntar para ele algo e não ouvir a pedra falar não adiantará ter um jogo de búzios".
Fiquei de olhos arregalados e sem fala. Quando perguntei qual era a magia para conseguir escutar ele respondeu, que era a malícia da dia-a-dia do meu conhecimento que faria isso, que a magia estava dentro de mim, era só abrir os ouvidos e escutar, mas de uma coisa não poderia esquecer jamais, que era cantar para essa pedra sempre, assim ela reconheceria minha voz e me responderia quando precisasse de resposta.
 Até hoje essa pedra fala comigo."

Sua benção meu pai.

Experiência e texto de Iyá Branca de G'unté (Minha Mãe!) 

Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved


17 de agosto de 2015

Exú e a Cidade que não é do Homem



Coitado é aquele que pensa que faz o que quer e quando quer 
Esú é quem manda na cidade. 

É quem toma a sua Boca e faz você dizer o que ele quer. 
Também te faz pensar o que não pensa,
Te leva para onde você não vai 
E só dar aquilo que você merece, 
Quando ele acha que deve. 
Ahh, coitados aqueles que acham que mandam na cidade.

É Esú quem manda nas vontades do Mundo. 



[As Águas de São Paulo 2014 - Foto e Texto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

5 de agosto de 2015

Oyá e o Amor da Ancestralidade Feminina



A Mãe que se faz Búfalo para proteger seus filhos. 

Aquela que faz morada nas Matas e educa herdeiros guerreiros, 
Mãe Vento, Força que não se destrói, 

Amor que não se quebra.
Gestação das Heroínas de sangue Negro e
 Ancestralidade que Pulsa em cada Mulher que batalha pelos seus descendentes e ideais. 


Saúdo 9 Ventres Africanos, Saúdo Oyá de Batalhas por Amor aos seus.



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Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

31 de julho de 2015

Roupas Brancas: Para além do Preceito e da Paz de Oxalá


Eu já disse que se as condições financeiras me permitissem, usaria branco todos os dias da semana. Trocaria o guarda roupas para que a maioria das peças fossem alvas e, no máximo, com variações em tons claros - os mais próximos do branco possível.
Faria com orgulho e com a certeza de um passo a mais na aproximação com Oxalufan, eus que rege a minha existência no mundo e que vive por todos os elementos por onde a cor branca e suas sutis variáveis perpassam.

Vestir-se de branco vai muito além de cumprir um preceito para não “quiziliar” o Senhor que nos permite Ar para respirar; 
vestir-se de Branco vai muito além de se resguardar no período em que Oxalá passa na Terra para visitar os seus filhos... 
Vai muito além de pedir Paz. Até porque Oxalá não é só paz como pensamos. E ele se veste para Guerra. 



Oxalá é a divindade africana da criação de Homens e Mulheres. A força que sopra vida nos seres. 
É quem permite o último suspiro na vida terrena.
Oxalá é Vida e Morte; É Paz e Guerra! 
E eu sou seu filho, sou Paz e Guerra: Paz em Querer Paz, e Guerra para se manter vivo. Por isso, meu desejo é vestir-se de branco todos os dias.
Vestir-se de Branco é por fé, e sobretudo, um Importante Ato Político. Toda vez que ocupamos lugares com nossas vestes brancas, estamos também ocupando um lugar em ação política para afirmamos que: "Sim! Temos e fazemos uso do direito de estar onde quisermos, e representar quem representamos, a força de Oxalá e dos Deuses Africanos. 
Quem estranha meu Branco, Estranha a Paz que vivo. Estranha por Intolerância. 

Vestir-se de Branco é manter viva a Luta.
 É criar o costume, até que parem de estranhar-nos quando caminhamos limpos pelas ruas sujas de racismo.

É preciso tornar normal a prática de respeito à gente que carrega em seus vestes e adereços, toda a força de uma ancestralidade que é vivida, todos os dias da vida de quem tem Orixá.



Meu Branco é Luto!
Eu nasci no Branco!
Meu Orixá veste Branco
Come no Branco
e domina todas as Forças do Branco
Eu Vesti Branco quando Mãe Dede foi Assassinada
Não vesti um Branco de Paz, não
O Branco de meu Pai também é Luto!
Quando Kayllane foi apedrejada, eu já estava de Branco
No Branco do Luto.
Um Luto pela Liberdade de Crença que é violentada todos os dias
Meu Branco é de Luto pelo Direito de Expressão da Fé assassinado
O meu Branco, eu vesti quando nasci para Buscar a Paz, na Guerra, no Embate, na Luta porque eu visto Luto sim! E me visto do Verbo Lutar que é Branco em Essência.
Visto Branco, sem Flores
Visto Branco, com Pedras na Mão, de Luto!
 

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved