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6 de janeiro de 2016

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa


Por Fábio Mariano e Roger Cipó
Em 2015 foram protagonizados contra as crenças de matriz africana uma série de atentados de todas as ordens: contra o patrimônio material e contra o patrimônio físico, moral e espiritual de vários adeptos. Invasões desmedidas se perpetuaram contra terreiros onde se cultuam orixás, culminando, inclusive, na morte de uma Ialorixá; agressões físicas, dentre elas, a de uma criança que, em razão das vestimentas, foi apedrejada, quando saía do terreiro; seguindo-se uma longa e imensa lista de denúncias de injúrias, cerceamento de direitos no âmbito das práticas religiosas, que englobam a realização de rituais sagrados dentro dos terreiros e de natureza fúnebre.
Sob o manto do estado democrático e de direito, a intolerância demonstrada das mais diversas formas não poupou ninguém. Aquele que pratica a injúria não tem um objetivo maior, senão o de dizer onde aquele que foi injuriado deve estar: no campo da invisibilidade. Não a toa, o psiquiatra e filósofo Franzt Fanon escreveu em Peles Negras, Máscaras Brancas que “(...)Enquanto o negro estiver em casa não precisará, salvo por ocasião de pequenas lutas intestinas, confirmar seu ser diante do outro.”. Assim como ocorreu com as mulheres que tiveram determinadas a sua presença no âmbito da vida privada, restando aos homens as disputas no campo público, com negros e não cristãos não ocorreu diferente as diversas formas de colonização e exclusão. Combater a intolerância religiosa significa rejeitar o racismo como sistema de opressão e dar corpo e voz a uma parcela da população que vem sendo sistematicamente agredida em sua dignidade pelo cerceamento de direito de liberdade de culto.
A questão da liberdade de religião e de culto amplamente requerida pela população negra e pelos religiosos de matriz africana deve ser vista sob a ótima da afirmação e reiteração da identidade negra e de toda a sua ancestralidade. Negar esse direito, compactuar com esta lógica é o mesmo que permitir que os tambores continuem abafados e os adeptos das religiões de matriz africana permaneçam naquilo que o “outro” considera a sua senzala – não há democracia racial, como não há respeito à diversidade religiosa.
Em 2007, o dia 21 de janeiro foi instituído como a data de Combate à Intolerância Religiosa, em reflexão e memória da Ialorixá Gildásia dos Santos - vítima de um dos casos mais drásticos de intolerância que a história brasileira conheceu. O crime começou em outubro de 1999, quando O jornal Folha Universal estampou em sua capa uma a Mãe Gilda – trajada com roupas de sacerdotisa para ilustrar uma matéria cujo título era: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. Sua casa foi invadida, seu marido foi agredido verbal e fisicamente, e seu Terreiro, depredado por evangélicos. A Ialorixá não suportou os ataques e, após enfartar, faleceu em 21 de janeiro de 2000. 
15 anos após a trágica morte de mãe Gilda, a história se repete, e em Camaçari/BA, Mãe Dede de Iansã, também enfarta após uma noite se insultos protagonizada por um grupo evangélico, na porta de seu terreiro.

Em resposta à tanta violência que, assustadoramente, aumenta a cada dia e tem se mostrado uma das faces mais cruéis do Racismo, comunidades de São Paulo se reunirão para um Ato de Repúdio, Afirmação e Combate aos Crimes de Intolerância Religiosa, no próximo dia 21 de Janeiro, às 19H. Com concentração no Vão do MASP, religiosxs e simpatizantes tomarão o "Coração financeiro da Cidade" em grito pela Liberdade de Expressão da Fé, Direito à Crença e por uma sociedade de Respeito ao Próximo, à Natureza e à Diversidade. Tomaremos as Ruas pelo promoção da Cultura de Paz em nossas relações. Vista-se de Branco e Junte-se a Nós! Essa Luta é de Tod@ Aquel@ que acredita que a Paz é o Caminho para uma Vida Melhor!
Acesse o link oficial do evento, no facebook, confirme presença e compartilhe: https://www.facebook.com/events/947733955311269/

Fábio Mariano. Professor. Bacharel e Mestre em Direito. Doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, estuda a Dignidade e o Direito à Morte na Sociedade Brasileira.
Roger Cipó. Fotógrafo-pesquisador. Educador Social. Militante contra os crimes de racismo e intolerância religiosa.

Serviço: Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa 
Data: 21 de Janeiro, às 19H 
Local: Vão Livre do MASP  - Avenida Paulista 

1 de outubro de 2015

Sociedade Afro-Religiosa celebra o dia da Matriz Africana, em São Paulo.


Pouca gente sabe que o dia 30 de setembro é instituído como o  Dia Municipal das Religiões de Matriz Africana: Umbanda, Candomblé e seus segmentos- Lei Municipal 14.619/07, de autoria do Vereador Wadih Mutran, sob orientação da Sacerdotisa Iyalorixá Edelzuíta de Oxaguian.

" Sobre a lei, já me perguntaram por que 30 de setembro? Porque é o mês em que está se colhendo inhame na África, o período quando se faz as águas de Oxalá no Ilê Axé Opô Afonjá, no Engenho Velho e no Gantois, e também porque é quando se inicia a primavera. Então, achei que 30 de setembro seria uma boa data por isso e também por ser dia de São Gerônimo, que não é Xangô mas é sincretizado com ele. E Xangô é a força da nossa tradição." - explica Mãe Edezuíta.



Ontem, 30 de setembro, a Câmara Municipal de São Paulo foi ocupada pela sociedade afroreligiosa para a abertura oficial do Movimento As Águas de São Paulo 2015. O evento é também uma importante reflexão sobre a intolerância religiosa que dia após dia explícita sua guerra contra a liberdade de expressão e direito à fé. Em sua nona edição, o Ato Solene As Águas de São Paulo contou com  a participação da diretoria do movimento, autoridades religiosas de todo o estado, representantes do poder público e difusores da cultura afrobrasileira, como o  Diretor Cultural do Revelando São Paulo, Toninho Macedo. Intervenções musicais afro-religiosa permearam o evento. "a nossa tradição é baseada em musicalidade" - comentou Felipe Brito (um dos diretor do movimento) que se dividiu em mestre de cerimônia e cantor do Novo Coral de Suzano, grupo que encerrou a noite com uma emocionante apresentação.   


Tradicionalmente, a sessão solene homenageia e condecora uma sacerdotisa e um sacerdote com a posição de embaixatriz e embaixador. Esse ano, o casal escolhido para conduzir o cortejo é formado pela Iyalorixá Neinha de Nanã (Candomblé) e Pai Reinaldo Tupinambá (Umbanda). Em respeito à ancestralidade que ampara as lutas do Povo de Axé, o legado da Iyalorixá Sandra Epega (1947 - 2013) foi lembrado em uma importante homenagem póstuma, representada pelos seus descendentes que se fizeram presente na ocasião.  



Essa Luta também é Minha!

Sim. A Luta contra a desigualdade é de todo aquele que não se silencia. 
No próximo sábado, 03 de Outubro, vista-se de branco, pegue seu instrumento, sua quartinha branca e junte-se ao movimento o Movimento que tomará as ruas de São Paulo para o ato púbico em repúdio aos crimes de Intolerância Religiosa, Racismo e atentados contra as diferenças. A concentração acontece no Vale do Anhangabaú, a partir das 12H, com diversas apresentações culturais, e segue com o tradicional cortejo até a Monumento Mãe Preta para a lavagem da estátua que representa a ancestralidade feminina negra, na cidade.

Mais Informações: https://www.facebook.com/aguasdesaopaulo?fref=ts

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]


29 de setembro de 2015

Mãe Edelzuíta de Oxaguian explica As Águas de São Paulo




No próximo dia 03 de Outubro, acontecerá a 9ª edição de As Águas de São Paulo, um importante movimento sócio religioso pela Liberdade de Expressão da Fé e Cultura de Paz, no combate à Intolerância Religiosa, Racismo e todas as manifestações discriminatórias. 

No auge dos seus 71 anos de iniciação no Candomblé, e uma jovial força para lutar pelos direitos do Povo de Axé, Mãe Edelzuíta de Oxaguian - quarta filha mais velha de Mãe Menininha do Gantois, precursora da Raiz Gantois no Rio de Janeiro (onde fundou o ILÈ OBÁ N'LÁ, em 1944), e idealizadora do Movimento As Águas de São Paulo cedeu uma importante entrevista ao Babalorixá Ofanire - atual Presidente do movimento, em seu programa de rádio web Candomblé Total. 

Leia a entrevista:


Como surgiu a ideia de criar As Águas de São Paulo?

As Águas de São Paulo faz parte da lei municipal do Dia Municipal das Religiões de Matriz Africana: Umbanda, Candomblé e seus segmentos, festejada todo dia 30 de setembro. Sobre a lei, já me perguntaram por que 30 de setembro? Porque é o mês em que está se colhendo inhame na África, o período quando se faz as águas de Oxalá no Ilê Axé Opô Afonjá, no Engenho Velho e no Gantois, e também porque é quando se inicia a primavera. Então, achei que 30 de setembro seria uma boa data por isso e também por ser dia de São Gerônimo, que não é Xangô mas é sincretizado com ele. E Xangô é a força da nossa tradição.
No Rio de Janeiro, onde resido e tenho a minha casa de Candomblé, foi onde idealizei esse projeto. Resolvi aproveitar a oportunidade para espalhar a ideia pelo Brasil, quando decidi trazê-la para São Paulo, para que fosse como uma lavagem do Nosso Senhor do Bonfim, que acontece na Bahia. As Águas de São Paulo não é a lavagem do Bonfim, mas o enredo é o mesmo: o povo vestido de branco, com sua jarra e flores e água de cheiro para banhar a estátua da Mãe Preta, que é o símbolo da consciência negra na cidade.

Há planos de levar esse movimento para outros locais do país?

No Rio de Janeiro também comemoramos a data, na Assembleia Legislativa do Rio Janeiro, quando vou com a minha quartinha e água perfumada e jogo na escadaria do local. Em Brasília também temos um projeto em andamento. Mas a minha intenção é que o 30 de setembro atinja todo território nacional e passe a se chamar As Águas Sagradas do Brasil, pois onde não há água, não há vida.


A senhora acompanha a coordenação do movimento?

A ideia foi minha, mas passei o comando para as mãos do meu filho de santo Beto (Babalorixá Ofanire), pois não posso estar presente o tanto quanto gostaria. E acho que ele é a pessoa mais indicada para cuidar do movimento. Então, olhem As Águas de São Paulo com carinho, pois não é Beto, não é a Dona Edelzuita, mas a nossa religiosidade que está em defesa.

Qual o principal objetivo d’As Águas de São Paulo?

Nós não trabalhamos contra a intolerância religiosa, mas pela defesa da religiosidade e da cultura de paz, da compreensão e do amor. E o que eu mais quero é que o povo que habita a cidade de São Paulo, principalmente aqueles que são da tradição do orixá - seja da Umbanda, da Quimbanda, do Omoloco, entre outras, e até mesmo das escolas de samba e dos afoxés, que têm seus enredos baseados no Candomblé, sinta a responsabilidade que pesa no ombro de cada um e se faça presente no movimento.



O que falta para que as pessoas realmente se envolvam e participem cada vez mais do movimento?

Foram muitos anos de luta para conseguir sancionar a Lei Municipal 14.619/07, de autoria do Vereador Wadih Mutran, e isso deve ser levado em consideração. Mas a palavra é conscientização: pelo tamanho da nossa luta e por todas as dificuldades. Temos que seguir acreditando na cultura de paz, na união dos povos e batalhando pelo respeito. E por isso convoco a todos para estarem presentes na Câmara Municipal de São Paulo, no dia 30 de setembro, e no nosso ato público, no dia 3 de outubro, no Vale do Anhangabaú. Eu estarei lá também e quero um mar de branco no Vale, porque só juntos somos fortes.
Não façam política, não façam guerra, façam a paz e participem. Lutem pelo engrandecimento da nossa religião. 
As Águas de São Paulo é sua, então a abrace com carinho, dedicação e amor. 


Transcrição da entrevista veiculada no site http://www.sensorialfm.com.br/ em setembro de 2015 
Fotos: As Águas de São Paulo (2014, 2013, 2014) - Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved