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22 de junho de 2016

"Dez anos no candomblé e sua vida financeira não melhorou?" - Um pensar sobre respostas



Depois daquele ebó, o trabalho desejado não deu certo?
Depois da iniciação, você não conseguiu trocar de carro?
Dez anos no candomblé e sua financeira não melhorou?
Quantas perguntas como essas? Quantas respostas...
E quem responde o que o outro não quer ouvir, é o quê?
Sincero!

É preciso que sejamos sinceros com nós mesmo, e principalmente com quem chega ao nosso universo religioso.
Ouço e leio histórias, a todo instante, de pessoas que chegam porque é "a salvação".
Antes de dizer que "Não. Não é", precisamos entender que a "salvação" cristã não existe em nossa religião, como a ideia de prosperidade, semelhante ao que propaga outros segmentos, também não.

Talvez, ajude muito entender que o Candomblé, por mais que seja uma religião afro-brasileira, nascida no Brasil, se baseia nas relações de interações com a natureza - e chamo de natureza, tudo que vive ao nosso redor (seja visível ou sensível), através de divindades ancestrais africanas, que são forças sagradas que nos ajudam a melhorar essas relações, nos religando a Deus (Sim! Nossa religião é Monoteísta!), ao mundo que habitamos, às relações que construímos, e a nós mesmo.

Candomblé nos religa à África em nós (para mim, isso é o mais importante). 
É o mais importante porque esse religar tem muito a ver, ou até responde as perguntas do início do texto.

Quando nos permitimos conexão com os valores africanos, ensinados pelos Orixás, entendemos e aprendemos a viver a partir de uma filosofia diferente da que existe no mundo cristianizado e catequizado. A gente passa a entender Orixá como parte de nós e não como espírito ao nosso favor - como erroneamente, ouvimos.
Quando conectados com valores africanos, a gente entende Orixá como energia fortalecedora, que equilibra nossas forças vitais, e nunca como mecanismo de triunfo, ou fórmula de sucesso.
Quando conectados com Orixá, o outro é templo de uma divindade, assim como sou, e nunca inimigo. O outro é sempre parte de mim, e a medida que, por exemplo, eu peço-lhe benção, peço licença para me conectar à sua divindade, e o movimento de retorno, me faz portal para que o outro, igual a mim, encontre força sagrada no que trago de valoroso. Sem preços.
Quando conectados com os valores africanos, a saúde é também resultado da nossa presença no mundo. É resultado do que se come, daquilo que bebe, de como dorme, de como vive, e principalmente, de como (e daquilo que se) fala. As palavras são trazidas pela sopro interno que nos deu vida. Palavra é a força mais poderosa que possuímos. Seria inocente achar que elas não determinam a boa e má saúde, né?

Reparemos que no Candomblé, até pode faltar um elemento de fundamento, só nunca pode faltar a palavra. Opte pelas boas palavras.

Ainda sobre confiança, a palavra, no pensar África, é Lei. E se o terreiro é a nossa possibilidade de reconstruir África em nós, porque não usar bem as palavras?
E, por que não significar nossas palavras?
Por que não significar nossa presença no terreiro?

Talvez, entendermos que o Candomblé não irá resolver nossos problemas financeiros é uma chave para mobilizarmo-nos a protagonizar nossas próprias vidas, assumindo os acertos e erros do cotidiano.
Talvez, aceitar que Orixá não é/nem será a fórmula para ascensão, fará com que culpemos menos as divindades pelos nossos desacertos sociais, porque uma força que tem o dom de nos ligar a deus, não pode ser responsabilizada pela infelicidade de nossas relações.

Isso não quer dizer que os rituais não sejam importantes. Eles são. Só não são a solução, tampouco responsáveis pelo desdobrar da vida.
Cada um traz África Ancestral em si. Cada África Ancestral vem por um caminho. Cada África Ancestral revive sob um destino.
O rito nos ajuda a entender por caminho melhor andar. Nunca irá definir onde chegar.
Talvez, a gente só precise respeitar e reconhecer Orixá como parte do que somos na natureza, e nunca como ferramenta distante usada somente em nossos interesses, para que a presença dessas forças sejam, cada vez, maiores em nós.

Talvez...
Não sei... Talvez eu só esteja escrevendo essas linhas para resumir que, de tantas trilhas e caminhos pelos quais nos perdemos, entender que para Orixá o Ter nunca será tão nobre quanto Ser, e que, talvez, quando a gente entender que Ser alguém melhor para a vida, é o que nos faz seres próspero, teremos todas as possibilidades de andar melhor.
[Foto e Texto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

24 de fevereiro de 2016

Desconstruir é Importante: 17 Inverdades sobre o Candomblé



1. “O Candomblé não é lugar da família e um casal não pode pertencer à mesma comunidade” – o Candomblé é familiar e nasce para a reconstituição da família e para a sua manutenção. A palavra Candomblé poderia ser sinônimo de “Família”;

2. “Candomblé não é o lugar de crianças” – no Candomblé, acredita-se no interminável, no contínuo, em uma linha sem fim que inclui todos, desde os mais jovens aos mais velhos; 

3. “Cada Casa é uma Casa”– somos parte de algo maior e, por isso, quem se crê único toca apenas levemente o todo. Pode acontecer, mas não é uma verdade absoluta; 

4. “Somos desorganizados, desunidos” – não! Não somos! Se fôssemos, nem Candomblé teríamos (...) Fomos, intencionalmente, excluídos dos movimentos sociais, culturais e da política e, agora, estamos fazendo o caminho inverso. Some-se a isso a questão de seremos “denegridos” e, durantes séculos, termos sido obrigados a viver na segregação, no silêncio e guardados em “nosso mundo”; 

5. “Somos fracos e não lutamos!” Lutamos, diuturnamente, desde que fomos arrancados da nossa Terra, da nossa Família, da nossa História, das nossas Crenças e da nossa Cultura. Criamos estratégias sutis de luta e manutenção desses valores e, por isso, podemos praticar “livremente” o Candomblé hoje. Se assim não fizéssemos, estaríamos todos mortos e com ele o Candomblé; 

6. “O Candomblé é o lugar da dor, culpa e sofrimento” – quem ou que povo, em sã consciência, criaria um sistema de crenças e valores para desunir, torturar, desumanizar mais ainda as pessoas? Considerando a escravidão, esta mentira não faz sentido algum; 

7. “As pessoas estão no Candomblé por amor ou pela dor”: a dor é das pessoas [sim, somos humanos] e as divindades clamam pela nossa aproximação para que possam nos proteger e cuidar de nós; as divindades foram designadas pelo “criador” – “pré-existente” para criar o mundo, cuidar de nós e nos manter vivos e felizes;

8. “Orixá, Nkisi ou Vodun matam ou podem matar aqueles que deveriam guardar” - não faz sentido, os três valores do Candomblé são: 1) Filhos (descendência e manutenção da memória); 2) Longevidade (se a “divindade” matasse e fosse feita para isso, iria contra este princípio ancestral); 3) Poder de trocas (que dizem respeito às relações, aos movimentos e à ética do empoderamento);

9. “Candomblé é coisa de gente sem cultura” – a pergunta é: como alguém sem cultura conseguiria praticar, a um só tempo, uma “Fé”, “Ciência”, “Filosofia”, “Cultura”, “Medicina” e, de quebra, manter a África Ancestral no Brasil, mesmo diante de sua negação e diante do Racismo? 

10. “Somos bruxos e feiticeiros” – sim, há bruxos e feiticeiros no mundo, mas não podemos falar por eles. O Candomblé é da natureza e dos fenômenos da natureza; acreditamos em milagres, no intangível, no invisível, mas quem não acredita? 

11. “Não acreditamos em ‘Deus’ (...)” – crença e cultura são fenômenos sociais intrínsecos; o fato de a nossa crença voltar-se a divindades “negras”, “africanas”, “míticas” e “da natureza” não quer dizer que não acreditamos em Deus;

12. “Somos antiéticos e imorais” – a moral é um princípio cristão e tem bases no culto ao medo e à culpa, ela não empodera o outro, apenas o aprisiona e controla. O Candomblé é o lugar de uma ética do empoderamento, ou seja, estamos em família e, ao empoderar o outro, todos se empoderam. A visão de mundo do Candomblé é afrocentrada e, por isso, fala-se em ética do empoderamento. Há valores, há disciplina, há um código de ética e muitas lições ancestrais. Mas deve ser sempre um convite, nunca uma convocação;

13. “Não temos liturgia – sistema organizado de crenças, valores e princípios”. Temos e ela é levada a sério, porque, ao desrespeitá-la, negamos o “criador”, os “nossos guardiões” e os fundadores do Candomblé;

14. “Eles judiam dos animais e os matam” – o Candomblé possui um “Modo Tradicional de Alimentação”, alimentamo-nos da mesma proteína animal comprada no açougue e comida fartamente nas churrascarias, mas somos contra a dor, a tensão da “imolação” e contra o modo como a sociedade em geral consome carne. Comemos bodes, galinhas, galos e aves, escolhidos ou criados por nós, tratados, lavados, honrados ritualmente e, depois, essa carne sagrada se junta à comunidade e une a comunidade. O princípio é do repasto e do comer em família e isso começa desde a escolha ou criação do animal que servirá de alimento. O rito não inclui barbárie e fazer o animal sofrer, como é comum em abatedouros, não faz parte do rito ancestral;

15. “Eles cultuam os mortos e pedem o mal a eles” – sim para cultuamos os “mortos” – tomos aqui o sentido ocidental e assustador da palavra. Cultuamos os mortos, mas não como a nossa coirmã Umbanda, que também não prega o “MAL”. Somos a religião da memória ancestral, da continuidade, o culto àqueles que estiveram conosco é um museu historiográfico. Honramos a “morte” que nos toca quando chega a hora e honramos igualmente os nossos entes queridos e isso se dá por meio de um complexo conjunto de ritos e saberes ancestrais; 

16. “Todos são homossexuais no Candomblé” – pouco importa afirmar ou negar isso. Eles também estão conosco e em família. No Candomblé, todos são humanos e a sexualidade ou identidade de gênero, que são coisas diferentes, são humanas e como o Candomblé é humano e essas pessoas são, igualmente, filhos e filhas do criador, estão conosco entre humanos. Somos todos humanos.

17. “Somos APENAS uma religião” – não, não somos apenas “isso”, no sentido ocidental da palavra – creio que nenhuma religião o seja “só isso” conceitualmente; somos um Quilombo Urbano, Quilombo Contemporâneo, somos guardiões dos saberes ancestrais africanos, somos negros, somos seres-humanos unidos para resistir à segregação que se apresenta por meio dessas mentiras, somos homens, mulheres, jovens e crianças, somos um espaço privilegiado que reproduz valores ancestrais da África Negra; somos o lugar do corpo e da palavra, somos o amor e a vida que se volta ao criador por meio da natureza e da humanidade.

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Texto de Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira
Babalorisa da CCRIAS – Comunidade da Compreensão e da Restauração Ile Axé Xangô São Paulo, 12 de março de 2015. 
criasango@gmail.com
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https://www.facebook.com/ccrias/
https://www.facebook.com/Coisas-do-Povo-do-Santo-106230929…/
Coordenador do Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial “Conversa de Terreiro” – Jornada de Diálogos, Estudos, Sistematização de Conhecimentos Ancestrais da África Negra no Candomblé Nagô-Queto – criasango@gmail.com

Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

27 de janeiro de 2016

12 dicas para quem quer se vincular a uma Casa de Candomblé



O professor, estudioso e sacerdote, Pai Sidnei Nogueira (uma das minhas importantes referências intelectuais do assunto) listou 12 dicas para quem quer se vincular a uma Casa de Candomblé. Como a própria lista diz, são dicas, não regras - até porque a religião não detém uma cartilha ou carta magna (eu mesmo acho que não precisa ter, mas é assunto para uma outra publicação). Assim, sintam-se a vontade para refletirem sobre tais, vindas de um sacerdote experiente que tem se dedicado ao compartilhamento de saberes para o fortalecimento identitário do nosso povo e crença: 

1. Veja se há crianças e se iniciam as crianças - se há crianças e elas são iniciadas, acreditam no que fazem e é bom para todos;
2. Observe como as crianças são tratadas - elas devem ser prioritárias e prioridade em uma Casa de Candomblé;
3. Observe se o discurso é mais africano preto ou branco-cristão - ele deve ser preto-afrocentrado;
4. Observe se os líderes trabalham com discursos coercitivos de medos, culpas e dores cristãs - se o fazem e vc o quer, vá para a igreja mais próxima que é mais fácil;
5. Observe se há a prática de "boas palavras" sempre - uma Casa de axé valoriza e pratica boas palavras e o silêncio;

6. Observe se a Casa e suas lideranças praticam a exclusão, discriminação de qualquer tipo, homofobia, transfobia, violência e subalternização de negros e mulheres - isso não pode ser um bom sinal.
7. Observe atentamente como se estabelecem as relações - deve se assemelhar as relações em família;
8. Observe se o líder é o principal fomentador das "fofocas", "más palavras" e "conflitos" - se o for, já sabemos o que faz a liderança pelo exemplo;
9. Observe o nível de inteligência emocional do líder da Casa;
10. Pergunte de quem é a Casa. Se for do dono, pessoa física, não é Casa africana da divindade- se é do dono, já sabe que é do jeito dele e isso não é bom;
11. A Casa não é das pessoas, deve ser da família. É da divindade patrona e da família; ela é de todos;
12. Observe se tudo, nas mãos e na boca do líder, torna-se um inferno, um BO, um caso de polícia - isso não costuma ser bom.


Lista de Sidnei Barreto Nogueira 
Foto: Roger Cipó - Olhar de um Cipó © Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

2 de dezembro de 2015

Terreiros promovem a 5ª Caminhada das Águas de Oxum pelo respeito às Matrizes Africanas, em Guarulhos




A marcha acontece no próximo domingo, 06/12, com concentração, na Praça Getúlio Vargas a partir das 09H, cortejo tradicional, feira de afro-empreendedorismo e atrações artísticas, ao longo do dia.

Dezembro chega e com ele, os flashes retrospectivos vão anunciado o findar do ano. A retrospectiva que me permito fazer consiste em olhar, não só para 2015, mas para os quase 400 anos de escravidão de povos africanos no Brasil. Olho com dor e preocupação para a presente situação dos brasileiros descendentes de reinados de África e entendo que, quase nada mudou: A escravidão se perpetua, acomodada ao racismo já institucionalizado, que de inúmeras faces e em todas as esferas sociais, insiste no extermínio da história negra no Brasil. A princípio, o projeto social era usar da mão de obra negra escravizada para construir a nação e depois dar sumiço com qualquer vestígio de presença africana na "pseudo nação européia das Américas", mas a verdade é que tentaram (e ainda tentam) nos enterrar, sem saber que somos sementes. Sementes germinadas com a força dos Orixás que na diáspora, que floresce e sempre florescerá força de luta contra a opressão. O projeto racista e segregacionista segue marginalizando, inferiorizando, assassinando e demonizando a vida negra brasileira. 

Contudo, lutamos incessantemente contra a cultura de opressão que, em 2015 escancarou o racismo fundamentalista brasileiro, institucionalizando o genocídio da juventude negra periférica, e servindo de combustível para grupos intolerantes atearem fogo à terreiros de candomblé, ou agredirem crianças por professarem a fé nos Orixás, em público. A intolerância religiosa é a face do racismo que mata, apedreja, invade e incendeia espaços sagrados, em nome de "Deus" - em aspas, porque citando a Banda Alafia, na música Preto Cismado (Corpura, 2015), "Não posso acreditar que existe um Deus que feche com a Segregação".

Igreja do Rosário dos Pretos, Guarulhos - Século XIX

Em resposta à intolerância religiosa, pela visibilidade e respeitos às matrizes sagradas africanas, as comunidades de Candomblé e Umbanda de Guarulhos e região, realizarão, no próximo dia 06 de dezembro, a 5ª Caminhada das Águas de Mãe Oxum. A Caminhada é, a princípio, a manifestação dos Terreiros de Matrizes Africanas, realizada pela UARAB (União dos Adeptos de Religiões Afro Brasileiras) apoiado pela MOVIASE e pela Prefeitura de Guarulhos. O Ato Público terá concentração na Praça Getúlio Vargas e passa por três marcos históricos, que remetem a história dos povos africanos escravizados no período colonial: Busto da Mãe Preta, o Marco Zero (Frente a igreja Matriz), e a marcação da Igreja do Rosário dos Pretos erguida pelos escravos e destruída no princípio do século. A programação segue com a procissão e manifestação dos povos de terreiros e volta para a praça Getúlio Vargas onde acontecerá feira de afro-empreendedorismo e apresentações artísticas e culturais.

 O Babalorixá Luciano de Oxum, sacerdote do Ile Oba Ira Ase Odé Erinlé - popularmente conhecido como Asé Cabuçu, acompanha o movimento desde as primeiras caminhadas. Em 2013 recebeu a Comenda Mãe Oxum e desde então tem se dedicado na aproximação, conscientização política e mapeamento dos milhares de terreiros, em toda a mesorregião da Grande São Paulo. Segundo ele, "O aspecto da Caminhada é fazer com que a sociedade afro-religiosa ganhe visibilidade para que definitivamente acabe com a violência contra nosso modo de vida para que nossos costumes sejam respeitados bem como nossa cultura milenar". E explicou: "O movimento tem como objetivo principal agregar os simpatizantes de nossa crença, e a luta pelo fim da intolerância e por respeito. Marchamos para o cessar dos crimes motivados pelo ódio à nossa religião, para exigir o cumprimento das leis de laicidade, e lutar contra os projetos de leis que tentam fechar as portas de nossos terreiros".

Confira a entrevista do Babalorixá Luciano de Oxum, ao blog Olhar de um Cipó:

A maioria dos movimentos, caminham pelas águas de Oxalá ou Yemonjá. Por que Guarulhos Caminha pelas Águas de Mãe Oxum?
O movimento este ano será dia 06/12, por motivos de mobilização, data que vai de encontro com o aniversário da 455 anos de Guarulhos  (08/12), feriado municipal. Um dia escolhido por nossa ancestralidade para homenagear nossa Mãe Oxum e também dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade.


 Em meio à tantos casos de violência contra as religiões de matriz africana, por que caminhar?
A política é o meio para garantir o direito de todo cidadão. No nosso caso, como religiosos, nossa forma pacífica é discreta e diferente ao que pensam sobre nós. Hoje, somos muitos e com o crescimento, aumenta também o ódio e a intolerância.
Enquanto o povo do santo não se manifesta publicamente, menos as leis que garantem nossa religiosidade serão cumprida. O povo do santo precisa muito mais! Chegamos a uma dimensão de precisarmos de uma delegacia especial que nos defenda contra crimes para suprimir e controlar o ódio.
O número de pessoas nas manifestações públicas é que chama a atenção da sociedade e nossa necessidade hoje é de sermos vistos, pois somos cidadãos, temos o nosso direito. Enquanto o povo do axé se fechar atrás de seus portões nunca seremos respeitados. Até que  nos seja tirado nosso direito por violência ou aprovação de leis fundamentalistas. Na esfera política, temos pouquíssimos políticos que representem diretamente nossa causa. Numa manifestação pública temos a chance de trazer políticos para se compadecer por nossa causa.


Na sua opinião, o que motiva a intolerância religiosa contra as comunidades de terreiro?
O que motiva a intolerância é que somos em muitos em nosso território, e outros segmentos religiosos bestializam nosso modo de vida, demonizam nosso culto e isto é um método de doutrina usado desde os primórdios dos tempos para justificar erros e agregar membros: Atribuir o mal que acontece não a si próprio mas ao próximo e atribuíram isto a nossos atabaques, à língua de nossos ancestrais... Nossa religião, desde os primórdios,  é marginalizada por ser de origem africana que outrora eram tratados como animais. Tudo que foi atribuído ao negro, até bem pouco tempo atrás, era sempre aquilo que não era bom, e não seria diferente com nossa cultura e nossa manifestação religiosa.
Em 2015, assistimos, com muita dor, casos de intolerâncias: a menina Kayllane levou uma pedrada por estar de branco; terreiros foram queimados; crianças intimidadas por professarem a fé nos Orixás, entre outros casos. Como o senhor vê esses atentados quando, quase sempre, os agressores se mantém impunes?
As pessoas que agridem, da forma citada, esperam momentos que as pessoas de axé estejam indefesas. Os grupos de perseguição e violência não atacam um grupo de homens de axé! Sempre compelem crianças, mulheres e minorias. Para este caso devemos exigir o cumprimento, em manifestações, cartas de repúdio, e em diálogos onde possamos orientar todo o povo do santo. Mas sem a participação da maioria é possível que esta sombra ainda rodeie nossa religião por maior tempo. O povo do axé não tem mais tempo a perder, devemos agir de forma organizada e pacífica já!

Babalorixá Luciano no transe de Oxum  - Foto: Iago Santana 

Qual seu pedido à Oxum para esse momento de enfrentamento? Peço a Mãe Oxum que dê a sua benção a todos que estão trabalhando para que este momento aconteça.Peço que ilumine os líderes que ainda não acham necessário e que ainda, não sei o porquê, anulam-se. E nestes dias que faltam, possamos estar juntos, nesta manifestação histórica, para cair chuva de ouro em nossas cabeças. E meus mais sinceros respeitos a todos.

Serviço:
5ª Caminhada das Águas de Mãe Oxum, em Guarulhos
Data e horário:  06/12, domingo, a partir das 09:00
Concentração na Praça Getúlio Vargas, Guarulhos - SP
Realização: União dos Adeptos de Religiões Afro Brasileiras - UARAB
Apoio: MOVIASE e Prefeitura de Guarulhos








9 de novembro de 2015

Elba Ramalho e Alexandre Frota: As Desculpas da Opressão




Onde eu nasci, diziam que "depois que inventaram a desculpas, pilantra nenhum tomou tapa na cara", e essa foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando assisti o depoimento de Alexandre Frota, após lembrar que Elba Ramalho também se redimiu, pelo mesmo motivo: Desrespeito às Religiões de Matriz Africana.

A expressão acima, usada por mim, pode ser ignorante, mas é a grosso modo mesmo que a relembro, para dizer que pedir desculpas é muito fácil, muito fácil quando se comete um crime de Intolerância Religiosa.

É muito fácil para Elba Ramalho ligar a câmera de um smartphone e gravar um vídeo pedindo perdão para o Candomblé e Umbanda por "não bem entender" as nossas particularidades e reforçar a idéia de demonização às Divindades Africanas. É fácil porque fica "elas por elas" e a cantora famosa não responde legalmente por um crime de Intolerância Religiosa ao fazer mal uso de canais de comunicação para espalhar inverdades, violentando e desrespeitando a fé alheia. É muito fácil, e a gente acredita.

É muito fácil para um cara como Alexandre Frota fazer piadas nojentas e machistas, usando a figura de uma sacerdotisa como brinquedo sexual, e depois ir até um terreiro, em um evento público, pedir desculpas, chorar e ainda receber palmas de consolo. É fácil porque o Frota, com a sua prepotência preconceituosa, não será indiciado por crime de intolerância religiosa e possível estupro.  É fácil! 

Coincidência ou não, duas figuras públicas decidiram pedir perdão às religiões de matriz africana por conta de seus "desconhecimento" - como Elba Ramalho tentou se desculpar, e pelas "brincadeiras de mal gosto" - como chorou o Frota.

Respeito o direito de resposta, mas preciso lembrar que cometeram um crime e que deveriam ser responsabilizados legalmente, principalmente porque a intolerância religiosa mata e o propagar do tipo de conduta como a de vocês é o que dá margem para outros brincalhões fanáticos sintam-se no direito de queimar terreiros, apedrejar crianças, ou até abusar sexualmente de meninas  e mulheres.


Na semana passada, um vídeo testemunho de Elba Ramalho durante um culto em igreja ganhou as redes sociais, chamando atenção para a "salvação" encontrada pela cantora, na igreja, após seu contato com terreiros, e Exú - o que segundo ela, seria o Demônio. Poucos dias após a viralização do vídeo, milhares de respostas em repúdio foram postadas nas redes sociais, a produção da artista retirou o vídeo testemunho do ar e imediatamente, a cantora enviou um vídeo com pedido de desculpas ao Candomblé e Umbanda. Fácil pedir desculpas assim, né? 

Há um ano atrás, Alexandre Frota contou uma "piada" no Programa Agora é Tarde de Rafinha Bastos, de forma extremamente pejorativa, que narrava como obteve relação sexual com uma Mãe de Santo. A verdade é que, qualquer pessoa que assisti ao depoimento com calma, vai entender que a história contata por Frota remete, não à uma brincadeirinha, mas à uma "piada" de tentativa de estupro.



 "Ai eu fiquei olhando aquele bundão, e falei: 'po! vou comer, vou pegar. Ai, pô, cheguei pra ela e falei: Ai, deixa eu te falar uma parada. Eu não acredito nessas paradas que você faz - não sei o que, e coisa e tal... Mas eu queria te dar uns pegas (...) E aí, tem jogo?' Ela ficou assim mesmo (comentando sobre o silêncio da Mãe de Santo), não falou nada e eu falei, vou pegar... Aí virei e pô, botei a Mãe de Santo de quatro assim... aí eu tava preocupado com as minhas amigas lá fora, então garrei assim pela nuca (...)" - contou o ator que disse que ao fazer muita pressão na nuca, a mulher dormiu (leia-se desmaiou sufocada - porque isso que é).


A forma dos artistas brasileiros de fazerem piadas é uma das mais violentas do mundo, porque em sua maioria, usam da "comédia" para oprimirem ainda mais classes e indivíduos socialmente oprimidos e excluídos. Nossos comediantes, em quase maioria tem como alvo de piadas, negros, gays, lésbicas, transexuais, mulher, pobreza, nordestinos, e outros grupos colocados à margem social do fundamentalismo e conservadorismo.

Sou chato. Sou sim, porque é inaceitável fazer piada com a mulher quando uma das principais causas da morte de mulheres brasileiras é a violência sexual. E quem vê graça nisso? O Alexandre Frota vê!

 É inaceitável fazer piadas com sacerdotes e sacerdotisas de matriz africana em um país onde as comunidades de terreiros sofrem historicamente um processo de caça às bruxas e demonização, e na maioria dos casos de intolerância religiosa que culminam em agressão física, as mulheres são violentadas.

É covarde, irracional, repugnante. É criminoso.
E crimes devem sim ser encarados como tal.

Desculpas são bem vindas, mas respostas legais são também e devem acontecer para sirva de exemplo e outros criminosos não se sintam no mesmo direito de atentar contra as religiões de matriz africana.

Clique para assistir o pedido de desculpas de Frota, durante o evento "Toque da União", realizado ontem, 08/11, no Terreiro Batistini, em São Bernardo do Campo. 

É importante que o povo de santo também acorde para essas questões, pois se nossa luta é pela criminalização eficiente da Intolerância Religiosa, porque criminosos nos ganham nas desculpas? É fácil, né? Sim, o fato de um ator ir até um terreiro de candomblé para pedir desculpas e chorar, é fácil sim. Alguém treinado para chorar, sorrir, sentir prazer e tantas outras expressões em públicos, sabe bem comover com pedidos de perdão.

Verdadeiros ou não, os perdões de Elba Ramalho e Alexandre Frota nos foram pedidos e estão ai pra quem quiser, comprar, mas suas ações intolerantes seguem marcadas em nossa história. São só mais algumas chibatas de uma sociedade racista em nossas costas. Esquece quem quer, pois eu não. Mas se as desculpas estão aí, a gente que se organize para cobrar que ele e ela não tenham novas recaídas e não tornem a desrespeitar-nos. Ou quem sabe, poderíamos sugerir que usassem de suas famas e acessos à grande mídia para publicizarem seus arrependimentos. Seria um pouco mais justo, né? Oras, continua fácil usar um programa de TV de canal aberto para hostilizar a fé alheia e pedir desculpas em um pequeno vídeo de internet, ou em evento fechado com menos de mil pessoas. Embora as mensagens foram direcionadas a quem é de direito (povo de santo), sabemos que a sociedade em geral precisa entender o quão desrespeitoso foram tais condutas para que os "exemplos angelicais" (ambos vestidos de branco, viram?) de Elba Ramalho e Alexandre Frota, incentivem outros opressores.


Aguardemos os próximos arrependidos. E talvez, eu mude de idéia e acredite no arrependimento quando ambos somarem às lutas do povo de axé contra os crimes de intolerância e violência contra a mulher brasileira e fazerem com que seus seguidores e seguidoras pensem diferente e com respeito às nossas lutas e histórias. Antes disso, repito que não compro lágrima barata.

13 de outubro de 2015

Candomblé Ostentação - Dos Excessos que Gosto



Esse pensamento nada tem a ver com a cultura de ostentar excessos em pedrarias, ornamentos, balangadans, quilos de panos, paramentas absurdamente descaracterizadas - e esteticamente cheias de não sentidos, "ajeuns" glamorosos por encomendas, cerimônias rituais em locações luxuosas, seguidas de alvoradas orquestradas, cafés da manhã requintados, entre outras novidades que nos assustam a cada dia que passam a brilhar os olhos dos nossos.

Particularmente, penso que o erro já começa na associação da palavra ostentação  ao candomblé, quando essa define a cultura dos excessos de que tanto estamos cansados de  ver, ouvir e falar. No entanto, gosto do termo ostentação quando representa os luxos que poucos olhos podem ver, mas os corações sentem.  A ostentação (do latin "ostentare" que significa "mostrar") é o ato ou efeito de exibir com vaidade e pompa, bens, direitos ou outra propriedade, normalmente fazendo referência à necessidade de mostrar luxo ou riqueza.[1] O termo também pode contrair conotação positiva como por exemplo, "apesar de humilde, o sacerdote ostentava a fama de ser muito responsável no cuidado com seus filhos de santo, sempre tão bem educados".

Sim, eu gosto do candomblé ostentação, quando de forma natural e sem nenhum alarde, se ostenta amor pelo Orixá em sua essência. Gosto mesmo quando o excesso é apenas de respeito pela comunidade e por qualquer pessoa que chegar. Gosto quando o excesso é de obediência ao o que pede o Orixá e quando, excessivamente, sente-se Orixá nos quatro cantos do terreiro. Sou apaixonado por lugar com excesso de filhos prontos para a função. Sou apaixonado por candomblé que Orixá tem espaço para excesso de abraços e demonstrações de carinho por aqueles que o louvam de coração aberto, e não simplesmente saúda aquele sacerdote famoso, ou no contrário, faz cara feia e "peita" os possíveis desafetos de seus "Omo".


Pode ser desconexo pensar ostentação de sentimentos, de seriedade,  de carinho, atenção, e verdades. A ostentação trata de práticas de soberba e vaidade, logo, naturalmente quando se transborda bons sentimentos, não há tempo, tampouco necessidade de se vangloriar por amar e respeitar tanto o outro. Quem assim faz, só faz por entender a importância da afetividade, e quem cultua a ostentação do candomblé, faz por uma necessidade de atenção. Acho mesmo que a gente dando espaço para o culto de excessos errados. Cultuamos o ego e nunca o amor. Talvez, tudo seria mais fácil se nossos excessos fossem de afeto e não medidos nas quantidades, nos valores gastos, e nos luxos que preocupam tantos dos nossos, certos de que serão melhor aceitos se os olhos do visitante brilhar ao entrar na sua sala e encontrar seu orixá - mesmo que descaracterizado - impecavelmente brilhoso. 
Nossos valores são pautados nos preços e gradativamente, vamos nos perdendo numa cultura descartável sem verdadeiro valor e quase nada de Axé. 

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved



21 de julho de 2015

Sobre se Afastar da gênese, criar um Candomblé de Superfície, Ter um Candomblé Neopentecostal e Criar um Novo Culto - "Ego"-mblé


 (Por Sidnei Barreto Nogueira)

E NOS AFASTAMOS DA GÊNESE E CRIAMOS UM CANDOMBLÉ DE SUPERFÍCIE (PORQUE PRECISAMOS VENDER O PRODUTO) E TEMOS UM CANDOMBLÉ NEOPENTECOSTAL E CRIAMOS UM NOVO CULTO - “EGO”-MBLÉ

Assusta-me ver os rumos de uma religião ancestral de origem africana forjada para nos conduzir a uma África, talvez, muito talvez, que nem exista mais ou a qual teremos que nos esforçar muito para manter viva.
Sempre considerei, desde meus tempos de abiyan – aquele que nasceu pela “conta”, o Candomblé como um grande presente dos Orixás – naquele tempo não havia OriSa com “s”, nem se falava em Eledunmare e em Orunmila, nem tínhamos os caminhos de Orixá usados como grife, nem tinham inventado a inexistente unidade lexical “TY – ao Brasil e aos brasileiros. 


Um presente caro, é verdade, pago com a escravidão de seres humanos espoliados de sua Terra e escravizados no Brasil, longe de tudo que mais amavam. Mesmo assim um presente, uma dádiva paga com sangue, suor e lágrimas.
E hoje o que vemos? Vemos um excesso de “TY” – TY FULANO; TY BELTRANO; TY ISSO, TY AQUILO – aviso aos navegantes e àqueles que fazem tudo por “osmose” – JOGA NO GOOGLE QUE ELE EXPLICA O QUE É, MAS PRECISARÃO DE UM TANTINHO DE COMPREENSÃO DE TEXTO. Vemos que esta suposta preposição do contínuo linguístico iorubá nem existe; Mas, na tentativa de preenchermos os buracos deixados pelo ocidente e cultivados pelo imediatismo e consumismo, vale tudo; inclusive o pagamento exorbitante para a compra de algo que precisa apenas ser liberado internamente, algo ao qual precisamos nos (re-)conectar – um eu-natureza-África-ancestral e o apagamento dos Èsá da África Ancestral no Brasil. 


Tenho a impressão e/ou a certeza que o Candomblé, de algum modo, também fora contaminado, paradoxalmente, pela Teologia da Prosperidade.
“Meus filhos todos trabalham” aclama um suposto “pai de santinho”; “Meus filhos todos têm carros (de preferência importados)” aclama uma determinada Iyalorixá; “Tenho uma filha médica” divulga como prêmio a carreira da filha uma Mãe TY Joana D’Arc; “As indumentárias dos Orixá desta casa são feitas com a grife “tal”, grita mais um incauto e “aqui colocamos – na superfície - tudo o que Orixá merece” – um outro Pai Pedro “TY” COISA grita orgulhoso da sua capacidade de compra.
Mas quem disse que são os nossos olhos doentes que devem determinar o que o Orixá merece ou precisa? 



Engraçado, pensara eu que os Zeladores de Orixá deveriam ser guardiões de algo imaterial – saberes ancestrais, ritos, palavras, cantos, rezas, poder das folhas, gestos sagrados e organização ritual, cores, signos, significados e, sobretudo, metáforas ao nosso duplo no Orun e a toda a nossa ancestralidade; nunca pensei que os tesouros deveriam ser matérias e matérias.
Não seria o objetivo maior do Candomblé, (des-)fazer o que parece ser verdade, (des-)construir o que parece ter sido apropriadamente e estrategicamente construído pelos opressores, (des-)contaminar das doenças às quais nos acostumamos e para as quais tomamos gotas diárias de entorpecentes (precisamos comprá-las), libertar o indivíduo das amarras do seu próprio ego e de desejos que, em verdade, não são seus e trazer os “seus”; aproximá-lo da “sua” verdade e deixar a bagagem mais leve, e livrá-lo das culpas e medos cristãos; livrá-lo da necessidade da blindagem-produto que nos assola e, sobretudo, fortalecê-lo para que seja um indivíduo capaz de assumir as suas crenças, valores e capaz de assumir um “querer-ser” para ser inteiro e feliz e não um “parecer-ser” para ser aceito? 


E instaura-se o paradoxo do Candomblé Ostentação ou do “EGO”-mblé; porque como conseguir a suposta morte e renascimento utilizando-se das ferramentas do opressor; dos medos do opressor; das vestes do algoz e das fantasias e ilusões criadas pela materialidade daquilo que o senso-comum e as leis mercadológicas valorizam?
Não sei quando, mas teremos que acordar para a opressão que, sorrateiramente, infiltrou-se em nossas casas e, sorrateiramente também, torna o Candomblé lugar de controle, opressão e exclusão por meio da necessidade da farsa em detrimento da verdade, por meio da superfície em detrimento da essência, por meio do barulho em detrimento do silêncio e tudo em nome das leis de mercado.


Acordemos!


[Fotos: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]



14 de julho de 2015

Sobre caçar Borboletas e medir Axé e Selfies


Não. Eu não tenho problema algum em falar dos problemas que o Candomblé enfrenta. Não tenho e acho que não deveríamos ter. Acho até que se falássemos mais, instigaríamos mudanças que já passaram da hora de acontecer. 
Eu até tentei não comentar sobre as fantasias de um artista muito bem seguido (e agora "perseguido") pelo povo de Santo. Tentei não comentar, mas sempre pensei sobre os temas abordados com muita veemência. 

O meu não gostar do trabalho onde Odé Caça Borboletas tem a ver com dois pontos: 1- Meu Não gosto pela estética onde os Orixás ostentam megas torços coloridos psicodélicamente. E 2- por ser da opinião que por mais que nós jovens estudemos, busquemos e nos aventuremos na literatura produzida com os contos, parábolas, rezas e receitas do culto a orixá, não teremos tanta propriedade para falar do tema, como nossos mais velhos tem e sempre terão. 
Sim, eu sou do tipo que tenta ler muito, mas que prefere ouvir muito o mais velho. 
Não me aventura a recontar - muito menos, criar - Itans porque sei que a minha pouca idade não me dá a propriedade adquirida ao longo da vida sacerdotal de um Agbá. 
Logo, lugar de gente nova, é sentado de ouvidos abertos, e a boca mais fechada possível. 

Concordo que a informação e conhecimento estão aí para todo mundo, que a internet nos ajuda a aprender e ensinar (todo mundo quer ser professor, né?), mas tratando-se de uma tradição de ensinamento oral, como me permito acreditar cegamente em tudo que me brilha os olhos na internet e descredito o que me foi ensinado em casa a partir dos anos de vivência da minha comunidade? 

Tudo bem, até entendo que há sim uma carência tremenda do povo de santo que não tem suas expectativas sanadas a curto prazo. Acontece que candomblé é um filosofia de vida e o conhecimento deve caminhar junto com a sabedoria. A sabedoria só chega com o tempo e ela que te segurará, por exemplo, quando você acordar com vontade de criar um Caçador que se embrenha nas matas atrás de Borboletas. 

Embora eu seja um grande defensor do registro fotográfico e filmado das experiências, cerimônias e cotidiano do candomblé, ainda não consigo entender o poder que as selfies tem dentro dos momentos religiosos. 

Não preciso ir longe para lembrar o episódio da Selfie no Velório - com caixão, defunto e tudo -de um sacerdote de candomblé. 
Quando vi a imagem, minha vontade era mesmo quebrar meu celular, por mais que eu sentisse falta das minhas tantas selfies que tem lá. Sim, eu uso o celular para selfies, é normal, né? 
Só não é tão normal quando se interrompe a dança sagrada do Orixá para garantir uma foto; Não é normal e é um tanto estranho optar por selfies em momentos e espaços que deveríamos trocar as câmeras de smarthphones por posturas educadamente sérias para lutar contra as inúmeras agressões sofridas pelo povo de santo, dia após dia. 

A Representatividade deu espaço à Representação (de representar personagens, Sim!) tornou-se cultura de que é preciso da selfie em todo lugar, ou melhor, é preciso estar nos lugares para garantir a tal selfie e assim vender o peixe, o Axé. 
Não basta mais só promover as luxuosas festas, consultas e tabelas de preços para momentos esotéricos, é preciso brilhar os olhos, seja com cores pscodélicas ou com selfies - palavra chata que até eu cansei de repetir, rs rs.

O maior perigo disso é que tem muita gente de bem comprando sorrisos bonitos de picaretagem travestidas de Sagrado. Isso sim é um problema grande. Da mesma maneira que, pode sim, aparecer alguém dançando com um pote e vidro na mão, justificando ser ferramenta do Senhor da tal Borboleta, já vendida como fundamento. 

Preciso dizer que, infelizmente, estamos em um caminho perigoso. Pensamos que não, mas há muitos que nos olham e conseguem perceber o que, de fato tem verdade, ou não - Isso me alivia. Alivia, mas não tira a nossa responsabilidade de arrumar a casa que tá bagunçada. Cabe a nós falarmos das nossas alegrias e tristezas, cabe a nós falarmos o que anda certo e o que não anda tão certo, para a religião não se perder mais. 

Por outro lado, e para terminar, preciso dizer também que acabamos por fazer bem a aula de idiomas, adotamos o sentido real da palavra, que pode ser definido como: "si mesmo", e colocamos em prática um contra-axé tão antigo quanto a história da religião - Olha ai, o velho Egocentrismo do Candomblé, agora vem em imagem e palavra (Self)... É verdade, estamos cada vez mais chiques e distantes, né? 

Foto e Texto: 
 Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]