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15 de setembro de 2016

Ile Oba N'lá - um olhar para o Terreiro de Mãe Edelzuíta de Oxaguian

Era madrugada de 26 de junho de 2014, e eu seguia rumo ao Rio de Janeiro para uma das experiências mais incríveis: registrar a festa de Xangô e aniversário do terreiro. Eu que já estava me acostumando a frequentar diferentes terreiro de candomblé, quase que não me aguentava de ansiedade para a celebração de 45 anos de fundação do Ile Oba N'lá, e os resistentes 168 anos do Okutá de Xangô, a pedra sagrada do orixá da justiça, trazida da Nigeria pelos ancestrais da matriarca do terreiro, a Iyalorixá Edelzuíta de Oxaguian, que naquele mesmo ano comemorou 70 primaveras de iniciada no candomblé, pelas mãos de Mãe Menininha do Gantois. Não era só um trabalho. Era um fim de semana cheio de significados, sentidos, imagens para registrar, depoimentos para colher, história para se emocionar e aprender... 

Após seis horas de estrada, amanheci no endereço da Vila Valqueire. O cinza do céu ficava bonito com as ruas e muros, todos pintados nos tons da bandeira do Brasil. Era copa do mundo, dia de jogo. Cheguei, de carona com a egbon Katia de Ogun - filha do Axé -, na companhia de um designer amigo que filmaria o fim de semana comigo. Como toda casa tradicional, vários filhos de santo já estavam nos afazeres do terreiro, alguns chegavam com a gente, e os que dormiram no Axé, levantaram antes mesmo do sol nascer. Aproveitamos a correria e já começamos as filmagens, fotos e colher os primeiros depoimentos. 

O dia foi passando, o céu se abrindo, como o livro de vidas que se abria diane de minhas lentes. A a cada história a alegria aumentava. É um privilégio ouvir histórias de quem se iniciou há mais de 20, 30, 40 anos e ainda se mantem no mesmo lugar, com a mesma dedicação, humildade e respeito. É inspirador conhecer trajetórias que seguem os passos de seus pais e mães e garantem novas gerações de uma família que resiste em uma periferia carioca, contra ínumeras manifestações intolerantes e racistas. 

Há certa hora do dia, um silêncio pairou sobre o terreiro. E só foi interrompido pelas vozes que humildemente pediam para ser abençoadas. Era Mãe Edelzuíta que descia as escadas de sua casa e adentrava o salão. Lembro que suei frio, e logo fui pedir sua benção também. Eu que esperava uma Iyalorixá brava, toda montada em seus lindos e alvos rechillieu, encontrei com uma senhora gentil e de uma sabedoria que se via no olhar. Me apresentei, contei parte da história sobre o que fui fazer lá. Contei parte porque  a história verdadeira era surpresa à ela, pois tratava de colher depoimentos que seriam apresentados em homenagem aos seus 70 anos de candomblé, na festa de Oxaguian, em dezembro daquele ano. Em sua voz firme e baixa, Mãe Edelzuíta me abençoe e me permitiu para ficar a vontade em sua casa, e fiquei... E tive mais um privilégio: acompanhá-la para assistir a transmissão da partida Brasil e Chile, no quintal do terreiro. Pouquíssimas pessoas a viram comentar futebol com tanta propriedade, e garanto que se ele tivesse oportunidade, tinha puxado a orelha do garoto Neymar, que mesmo ajudando no 3x2 em cima dos chilenos, deixou a desejar, segundo ela. 

Fim de jogo, segundo tempo para o terreiro. Hora dos últimso ajustes para começar a festa do Rei Xangô. Poucas vezes vi um candomblé tão harmonioso como aquele. Luxuosa era a educação das filhas e dos filhos de santo, grandiosos em suas roupas limpas, simples e cheias de energia. Cada detalhe cuidado com bastante atenção, e Mãe vinha puxando seu candomblé, fielmente à forma que aprendeu com Mãe Menininha do Gantois. Dona de uma voz linda, cantou e dançar o candomblé para Xangô, além de cuidar de orixá na sala. No auge dos seus 70 anos de iniciação, Mãe Edelzuíta conduziu uma festa linda, com maestria. E eu era só felicidades ao viver tudo aquilo. Cada orixá que chegava, chegava feliz, com a satisfação de quem atravessa o Atlântico para reencontrar seus filhos e filhas, numa noite mágica... Foi Lindo! 

Eu usaria páginas e páginas para contar detalhe por detalhe dessa experiência, que após o xirê, deu espaço para um entrevista com a Matriarca do Oba N'lá, que foi assistida ao vivo por todos os seus filhos, sentados no chão, como eu, ouviam cada palavra de sabedoria, mas vou aproveitar esse espaço para compartilhar essa história em algumas imagens colhidas durante as 24 horas que me mantive ligado na vida e legado de Mãe Edelzuíta de Oxaguian. É uma longa história que ensina sobre cuidado com o outro, fé, resistência, consciência política, transformações sociais, e preservação da história africana, no Rio de Janeiro e Brasil inteiro. Ela que é uma das principais referências de sacerdócio e militância contra a Intolerância Religiosa, mantem até hoje viva a tradição do candomblé, em sua casa e vida. Como não se encantar com alguém que, aos nove anos de idade assumiu a responsabilidade de rezar e cuidar de uma pedra que trazida da África, porque sabia que era mais que uma pedra, é Xangô em essência, é justiça por excelência, é a vida africana que atravessa gerações e fortalece o axé do candomblé. 

Acho que precisarei de um outro momento para escrever mais sobre essa e outras maravilhas que é viver candomblé, por hora, divido o axé em série de imagens e em gratidão à Iyalorixá Edelzuíta e seus filhos e filhas por me permitirem olhar um pouco para esse mundo lindo: 







































Roger Cipó - Olhar de um Cipó © Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

29 de setembro de 2015

Mãe Edelzuíta de Oxaguian explica As Águas de São Paulo




No próximo dia 03 de Outubro, acontecerá a 9ª edição de As Águas de São Paulo, um importante movimento sócio religioso pela Liberdade de Expressão da Fé e Cultura de Paz, no combate à Intolerância Religiosa, Racismo e todas as manifestações discriminatórias. 

No auge dos seus 71 anos de iniciação no Candomblé, e uma jovial força para lutar pelos direitos do Povo de Axé, Mãe Edelzuíta de Oxaguian - quarta filha mais velha de Mãe Menininha do Gantois, precursora da Raiz Gantois no Rio de Janeiro (onde fundou o ILÈ OBÁ N'LÁ, em 1944), e idealizadora do Movimento As Águas de São Paulo cedeu uma importante entrevista ao Babalorixá Ofanire - atual Presidente do movimento, em seu programa de rádio web Candomblé Total. 

Leia a entrevista:


Como surgiu a ideia de criar As Águas de São Paulo?

As Águas de São Paulo faz parte da lei municipal do Dia Municipal das Religiões de Matriz Africana: Umbanda, Candomblé e seus segmentos, festejada todo dia 30 de setembro. Sobre a lei, já me perguntaram por que 30 de setembro? Porque é o mês em que está se colhendo inhame na África, o período quando se faz as águas de Oxalá no Ilê Axé Opô Afonjá, no Engenho Velho e no Gantois, e também porque é quando se inicia a primavera. Então, achei que 30 de setembro seria uma boa data por isso e também por ser dia de São Gerônimo, que não é Xangô mas é sincretizado com ele. E Xangô é a força da nossa tradição.
No Rio de Janeiro, onde resido e tenho a minha casa de Candomblé, foi onde idealizei esse projeto. Resolvi aproveitar a oportunidade para espalhar a ideia pelo Brasil, quando decidi trazê-la para São Paulo, para que fosse como uma lavagem do Nosso Senhor do Bonfim, que acontece na Bahia. As Águas de São Paulo não é a lavagem do Bonfim, mas o enredo é o mesmo: o povo vestido de branco, com sua jarra e flores e água de cheiro para banhar a estátua da Mãe Preta, que é o símbolo da consciência negra na cidade.

Há planos de levar esse movimento para outros locais do país?

No Rio de Janeiro também comemoramos a data, na Assembleia Legislativa do Rio Janeiro, quando vou com a minha quartinha e água perfumada e jogo na escadaria do local. Em Brasília também temos um projeto em andamento. Mas a minha intenção é que o 30 de setembro atinja todo território nacional e passe a se chamar As Águas Sagradas do Brasil, pois onde não há água, não há vida.


A senhora acompanha a coordenação do movimento?

A ideia foi minha, mas passei o comando para as mãos do meu filho de santo Beto (Babalorixá Ofanire), pois não posso estar presente o tanto quanto gostaria. E acho que ele é a pessoa mais indicada para cuidar do movimento. Então, olhem As Águas de São Paulo com carinho, pois não é Beto, não é a Dona Edelzuita, mas a nossa religiosidade que está em defesa.

Qual o principal objetivo d’As Águas de São Paulo?

Nós não trabalhamos contra a intolerância religiosa, mas pela defesa da religiosidade e da cultura de paz, da compreensão e do amor. E o que eu mais quero é que o povo que habita a cidade de São Paulo, principalmente aqueles que são da tradição do orixá - seja da Umbanda, da Quimbanda, do Omoloco, entre outras, e até mesmo das escolas de samba e dos afoxés, que têm seus enredos baseados no Candomblé, sinta a responsabilidade que pesa no ombro de cada um e se faça presente no movimento.



O que falta para que as pessoas realmente se envolvam e participem cada vez mais do movimento?

Foram muitos anos de luta para conseguir sancionar a Lei Municipal 14.619/07, de autoria do Vereador Wadih Mutran, e isso deve ser levado em consideração. Mas a palavra é conscientização: pelo tamanho da nossa luta e por todas as dificuldades. Temos que seguir acreditando na cultura de paz, na união dos povos e batalhando pelo respeito. E por isso convoco a todos para estarem presentes na Câmara Municipal de São Paulo, no dia 30 de setembro, e no nosso ato público, no dia 3 de outubro, no Vale do Anhangabaú. Eu estarei lá também e quero um mar de branco no Vale, porque só juntos somos fortes.
Não façam política, não façam guerra, façam a paz e participem. Lutem pelo engrandecimento da nossa religião. 
As Águas de São Paulo é sua, então a abrace com carinho, dedicação e amor. 


Transcrição da entrevista veiculada no site http://www.sensorialfm.com.br/ em setembro de 2015 
Fotos: As Águas de São Paulo (2014, 2013, 2014) - Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

7 de julho de 2015

A Dofona do Barco de Doze do Ile Oba N'lá


"Eu cheguei aqui em 1968. Eu conheci minha Mãe numa festa que eu vim assistir na casa dela (...) Tinha uma menina de uns 7 ou dez anos - não sei - ela era filha do Ogun e o Ogun dela pegou ela e quando ela começou a dançar na minha frente, foi quando eu bolei... Ai de manhã, uma das irmãs da minha mãe me acordou, me deu um banho e falou que minha mãe precisava de conversar comigo. Me apresentou minha Mãe Edelzuíta, ela foi muito educada comigo, me tratou muito bem, aí ela disse que eu precisava de fazer o santo. Naquela época não houve como fazer, só depois, quando eu já tinha um filho de 6 meses, e ele teve um problema, aí minha Mãe Lilita - filha de Mãe Senhora - me trouxe aqui para jogar ai minha Mãe disse: 'Você tem que fazer seu santo, se não você vai , ou você, ou seu filho'.
Aí minha mãe jogou disse que eu tinha que dar caruru em casa e fazer um ebó. Fizemos esse ebó, demos caruru para Ibeji e meu filho ficou curado. Depois, eu tive que vir fazer o santo (...)


Eu sou a Dofona do barco das doze. Eu entre aqui nessa casa com 21 anos, hoje eu estou com 68 anos...
 Ahhh, meu barco foi lindo! Foi: Eu, do Ogun. Eu sou a Dofona de 12. Foram 2 Xangô - um era meu filho, 4 Osaala, 4 Omolu, e 1 fila da Osun... Foi a coisa mais Linda... Sabe? Tirei resguardo de 6 meses, porque eu sendo Dofona de 12, né? Aí, aquelas pessoas que não podiam ficar na casa, aí eu tirava porque eu era a Dofona. Eu sou a Dofona... Muita Responsabilidade, mas foi muito bom, muito bom mesmo. Eu só tenho que agradecer a Deus e Osaala e Ogun, por ela. Que Deus dê vida e saúde à minha mãe, por muitos e muitos anos e que ela nunca mude... a maneira de tratar a gente e a maneira de trabalhar (cuidar de orixá), que isso é muito importante, né? É só o que eu peço aos Orixás."

[Transcrição editada de depoimento cedido a Olhar de um Cipó, em julho de 2014 na Festa de Homenagem aos 70 anos de Orisá de Mãe Edelzuíta de Osogyian, Iyalorisa do Ilè Obá N'lá - Tradição do Gantois no Rio de Janeiro. Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]