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2 de junho de 2016

Candomblé - Religiosidade que nos Liga à Força de África em Nós e N@ Outr@


Conta-se que o Deus cristão expulsou Adão e Eva do paraíso. Eles conhecem o pecado, e como penitência perderam a relação harmoniosa com o todo poderoso. Há que diga que é nesse momento de distanciamento que se nasce a religião, no sentido de religar reles mortais à divindade sagrada. Pode até ser, mas religião não é só isso, nem tampouco um branco-cistão-eurocêntrico.

Há quem pense o candomblé como religião e há que acredite que o conceito religioso é raso para uma tradição em que a divindade sagrada nunca se distancia de seus e suas fiéis. E eu concordo. Diferente de outras vertentes a relação sagrada com os deuses e deusas é uma constante. A vida co-existe com a vida de fé. Os Orixás habitam as águas doces, salgadas e águas dos corpos, habitam as folhas, as plantas, as árvores - que por sinal são tempos e ligam a terra e o céu, habitam as estradas, a terra, as montanhas, as cidades, os ventos, e tudo que é vivo. Porque os Orixás africanos e africanas são forças vitais que garantem o equilíbrio da vida na terra, em harmonia com o determinado por Olodumaré, nosso Deus.

A vida em cooperação com os Orixás, de fato, ultrapassa o conceito e religião comentado, isso porque nosso fundamento é outro, é relação direta, é entender que tudo ao redor é sagrado e que o corpo é o templo onde habita Orixá.
Candomblé é uma religião afro-brasileira de culto às divindades africanas, logo é importante que nos percebamos propagadores da filosofia e religiosidade dos deuses de África.

Nessa forma de viver, Orixá é a força para nos equilibra na estrada do viver. A medida em que permitimos que essa força se aproxime de quem somos, nos tornamos pessoas melhores. Não melhores como dizem os padrões do capitalismo, e sim melhores para as relações de vida ao redor. 

Desde que me encontrei no candomblé tenho me esforçado para viver a partir do que Orixá ensina e nos pede. Mais que nos ligar a Deus, o Candomblé nos conduz para uma busca de religar-nos a nós mesmo, perceber humanidade sagrada no outro, porque se em meu ser habita um deus, no outro também, logo o cuidado e o respeito devem ser bases importantes das relações sociais.


A minha verdade é que o candomblé fez com que eu me descobrisse negro. Uma descoberta que vai além da cor da pele, dos cabelos crespos e traços. Uma descoberta de identidade, da afirmação de uma negritude que me permite dignidade e força para gritar todos os nãos contra uma cultura racista que, quando não tenta nos limitar a padrões de belezas que não nos cabem, marginaliza nossa estética, criminaliza nossas vidas e demoniza nossa fé. Conhecer o candomblé ligou quem eu era a mim mesmo, a quem eu poderia ser, a quem eu sou. E isso é religião, isso é sagrado. Porque me faz perceber o quão sagrado o mundo pode ser, e é. 

Candomblé é a religião que permite  que encontremos o pedaço de África em nós, que fora sucumbido por uma cultura intolerante e racista que nunca se permitiu, e não se permite olhar, perceber, sentir e respeitar a humanidade da fé negra. Quem se inicia no candomblé, seja lá em qual for a nação, ou em cultos africanos, se permite nascer para a vida ancestral. Quem assim faz, faz para viver uma filosofia diferente das superficialidades de um mundo que tem banalizado por demais o sentido de fé, religiosidade e força sagrada. Faz (nasce) para aprender como a vida africana lida com as diferenças, cuida dos mais novos, dos mais velhos, respeita as mulheres, aceita opiniões divergentes, valoriza o que tem valor, não se baseia - e não deve se basear em preços.


Candomblé é o abraço dado a quem a sociedade nega afeto. É acolhimento a quem não se permite ser posto em pequenos vidros de ensaio para ter a vida esteriotipada e assistida por uma mentalidade normativa. Candomblé é o caminho para quem quer sentir que sagrado é o curso natural da vida e caminha para viver mais próximo da Mãe do Mundo, a Terra África nunca distante dos seus filhos e filhas.  

Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

24 de fevereiro de 2016

Desconstruir é Importante: 17 Inverdades sobre o Candomblé



1. “O Candomblé não é lugar da família e um casal não pode pertencer à mesma comunidade” – o Candomblé é familiar e nasce para a reconstituição da família e para a sua manutenção. A palavra Candomblé poderia ser sinônimo de “Família”;

2. “Candomblé não é o lugar de crianças” – no Candomblé, acredita-se no interminável, no contínuo, em uma linha sem fim que inclui todos, desde os mais jovens aos mais velhos; 

3. “Cada Casa é uma Casa”– somos parte de algo maior e, por isso, quem se crê único toca apenas levemente o todo. Pode acontecer, mas não é uma verdade absoluta; 

4. “Somos desorganizados, desunidos” – não! Não somos! Se fôssemos, nem Candomblé teríamos (...) Fomos, intencionalmente, excluídos dos movimentos sociais, culturais e da política e, agora, estamos fazendo o caminho inverso. Some-se a isso a questão de seremos “denegridos” e, durantes séculos, termos sido obrigados a viver na segregação, no silêncio e guardados em “nosso mundo”; 

5. “Somos fracos e não lutamos!” Lutamos, diuturnamente, desde que fomos arrancados da nossa Terra, da nossa Família, da nossa História, das nossas Crenças e da nossa Cultura. Criamos estratégias sutis de luta e manutenção desses valores e, por isso, podemos praticar “livremente” o Candomblé hoje. Se assim não fizéssemos, estaríamos todos mortos e com ele o Candomblé; 

6. “O Candomblé é o lugar da dor, culpa e sofrimento” – quem ou que povo, em sã consciência, criaria um sistema de crenças e valores para desunir, torturar, desumanizar mais ainda as pessoas? Considerando a escravidão, esta mentira não faz sentido algum; 

7. “As pessoas estão no Candomblé por amor ou pela dor”: a dor é das pessoas [sim, somos humanos] e as divindades clamam pela nossa aproximação para que possam nos proteger e cuidar de nós; as divindades foram designadas pelo “criador” – “pré-existente” para criar o mundo, cuidar de nós e nos manter vivos e felizes;

8. “Orixá, Nkisi ou Vodun matam ou podem matar aqueles que deveriam guardar” - não faz sentido, os três valores do Candomblé são: 1) Filhos (descendência e manutenção da memória); 2) Longevidade (se a “divindade” matasse e fosse feita para isso, iria contra este princípio ancestral); 3) Poder de trocas (que dizem respeito às relações, aos movimentos e à ética do empoderamento);

9. “Candomblé é coisa de gente sem cultura” – a pergunta é: como alguém sem cultura conseguiria praticar, a um só tempo, uma “Fé”, “Ciência”, “Filosofia”, “Cultura”, “Medicina” e, de quebra, manter a África Ancestral no Brasil, mesmo diante de sua negação e diante do Racismo? 

10. “Somos bruxos e feiticeiros” – sim, há bruxos e feiticeiros no mundo, mas não podemos falar por eles. O Candomblé é da natureza e dos fenômenos da natureza; acreditamos em milagres, no intangível, no invisível, mas quem não acredita? 

11. “Não acreditamos em ‘Deus’ (...)” – crença e cultura são fenômenos sociais intrínsecos; o fato de a nossa crença voltar-se a divindades “negras”, “africanas”, “míticas” e “da natureza” não quer dizer que não acreditamos em Deus;

12. “Somos antiéticos e imorais” – a moral é um princípio cristão e tem bases no culto ao medo e à culpa, ela não empodera o outro, apenas o aprisiona e controla. O Candomblé é o lugar de uma ética do empoderamento, ou seja, estamos em família e, ao empoderar o outro, todos se empoderam. A visão de mundo do Candomblé é afrocentrada e, por isso, fala-se em ética do empoderamento. Há valores, há disciplina, há um código de ética e muitas lições ancestrais. Mas deve ser sempre um convite, nunca uma convocação;

13. “Não temos liturgia – sistema organizado de crenças, valores e princípios”. Temos e ela é levada a sério, porque, ao desrespeitá-la, negamos o “criador”, os “nossos guardiões” e os fundadores do Candomblé;

14. “Eles judiam dos animais e os matam” – o Candomblé possui um “Modo Tradicional de Alimentação”, alimentamo-nos da mesma proteína animal comprada no açougue e comida fartamente nas churrascarias, mas somos contra a dor, a tensão da “imolação” e contra o modo como a sociedade em geral consome carne. Comemos bodes, galinhas, galos e aves, escolhidos ou criados por nós, tratados, lavados, honrados ritualmente e, depois, essa carne sagrada se junta à comunidade e une a comunidade. O princípio é do repasto e do comer em família e isso começa desde a escolha ou criação do animal que servirá de alimento. O rito não inclui barbárie e fazer o animal sofrer, como é comum em abatedouros, não faz parte do rito ancestral;

15. “Eles cultuam os mortos e pedem o mal a eles” – sim para cultuamos os “mortos” – tomos aqui o sentido ocidental e assustador da palavra. Cultuamos os mortos, mas não como a nossa coirmã Umbanda, que também não prega o “MAL”. Somos a religião da memória ancestral, da continuidade, o culto àqueles que estiveram conosco é um museu historiográfico. Honramos a “morte” que nos toca quando chega a hora e honramos igualmente os nossos entes queridos e isso se dá por meio de um complexo conjunto de ritos e saberes ancestrais; 

16. “Todos são homossexuais no Candomblé” – pouco importa afirmar ou negar isso. Eles também estão conosco e em família. No Candomblé, todos são humanos e a sexualidade ou identidade de gênero, que são coisas diferentes, são humanas e como o Candomblé é humano e essas pessoas são, igualmente, filhos e filhas do criador, estão conosco entre humanos. Somos todos humanos.

17. “Somos APENAS uma religião” – não, não somos apenas “isso”, no sentido ocidental da palavra – creio que nenhuma religião o seja “só isso” conceitualmente; somos um Quilombo Urbano, Quilombo Contemporâneo, somos guardiões dos saberes ancestrais africanos, somos negros, somos seres-humanos unidos para resistir à segregação que se apresenta por meio dessas mentiras, somos homens, mulheres, jovens e crianças, somos um espaço privilegiado que reproduz valores ancestrais da África Negra; somos o lugar do corpo e da palavra, somos o amor e a vida que se volta ao criador por meio da natureza e da humanidade.

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Texto de Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira
Babalorisa da CCRIAS – Comunidade da Compreensão e da Restauração Ile Axé Xangô São Paulo, 12 de março de 2015. 
criasango@gmail.com
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https://www.facebook.com/Coisas-do-Povo-do-Santo-106230929…/
Coordenador do Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial “Conversa de Terreiro” – Jornada de Diálogos, Estudos, Sistematização de Conhecimentos Ancestrais da África Negra no Candomblé Nagô-Queto – criasango@gmail.com

Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

6 de janeiro de 2016

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa


Por Fábio Mariano e Roger Cipó
Em 2015 foram protagonizados contra as crenças de matriz africana uma série de atentados de todas as ordens: contra o patrimônio material e contra o patrimônio físico, moral e espiritual de vários adeptos. Invasões desmedidas se perpetuaram contra terreiros onde se cultuam orixás, culminando, inclusive, na morte de uma Ialorixá; agressões físicas, dentre elas, a de uma criança que, em razão das vestimentas, foi apedrejada, quando saía do terreiro; seguindo-se uma longa e imensa lista de denúncias de injúrias, cerceamento de direitos no âmbito das práticas religiosas, que englobam a realização de rituais sagrados dentro dos terreiros e de natureza fúnebre.
Sob o manto do estado democrático e de direito, a intolerância demonstrada das mais diversas formas não poupou ninguém. Aquele que pratica a injúria não tem um objetivo maior, senão o de dizer onde aquele que foi injuriado deve estar: no campo da invisibilidade. Não a toa, o psiquiatra e filósofo Franzt Fanon escreveu em Peles Negras, Máscaras Brancas que “(...)Enquanto o negro estiver em casa não precisará, salvo por ocasião de pequenas lutas intestinas, confirmar seu ser diante do outro.”. Assim como ocorreu com as mulheres que tiveram determinadas a sua presença no âmbito da vida privada, restando aos homens as disputas no campo público, com negros e não cristãos não ocorreu diferente as diversas formas de colonização e exclusão. Combater a intolerância religiosa significa rejeitar o racismo como sistema de opressão e dar corpo e voz a uma parcela da população que vem sendo sistematicamente agredida em sua dignidade pelo cerceamento de direito de liberdade de culto.
A questão da liberdade de religião e de culto amplamente requerida pela população negra e pelos religiosos de matriz africana deve ser vista sob a ótima da afirmação e reiteração da identidade negra e de toda a sua ancestralidade. Negar esse direito, compactuar com esta lógica é o mesmo que permitir que os tambores continuem abafados e os adeptos das religiões de matriz africana permaneçam naquilo que o “outro” considera a sua senzala – não há democracia racial, como não há respeito à diversidade religiosa.
Em 2007, o dia 21 de janeiro foi instituído como a data de Combate à Intolerância Religiosa, em reflexão e memória da Ialorixá Gildásia dos Santos - vítima de um dos casos mais drásticos de intolerância que a história brasileira conheceu. O crime começou em outubro de 1999, quando O jornal Folha Universal estampou em sua capa uma a Mãe Gilda – trajada com roupas de sacerdotisa para ilustrar uma matéria cujo título era: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. Sua casa foi invadida, seu marido foi agredido verbal e fisicamente, e seu Terreiro, depredado por evangélicos. A Ialorixá não suportou os ataques e, após enfartar, faleceu em 21 de janeiro de 2000. 
15 anos após a trágica morte de mãe Gilda, a história se repete, e em Camaçari/BA, Mãe Dede de Iansã, também enfarta após uma noite se insultos protagonizada por um grupo evangélico, na porta de seu terreiro.

Em resposta à tanta violência que, assustadoramente, aumenta a cada dia e tem se mostrado uma das faces mais cruéis do Racismo, comunidades de São Paulo se reunirão para um Ato de Repúdio, Afirmação e Combate aos Crimes de Intolerância Religiosa, no próximo dia 21 de Janeiro, às 19H. Com concentração no Vão do MASP, religiosxs e simpatizantes tomarão o "Coração financeiro da Cidade" em grito pela Liberdade de Expressão da Fé, Direito à Crença e por uma sociedade de Respeito ao Próximo, à Natureza e à Diversidade. Tomaremos as Ruas pelo promoção da Cultura de Paz em nossas relações. Vista-se de Branco e Junte-se a Nós! Essa Luta é de Tod@ Aquel@ que acredita que a Paz é o Caminho para uma Vida Melhor!
Acesse o link oficial do evento, no facebook, confirme presença e compartilhe: https://www.facebook.com/events/947733955311269/

Fábio Mariano. Professor. Bacharel e Mestre em Direito. Doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, estuda a Dignidade e o Direito à Morte na Sociedade Brasileira.
Roger Cipó. Fotógrafo-pesquisador. Educador Social. Militante contra os crimes de racismo e intolerância religiosa.

Serviço: Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa 
Data: 21 de Janeiro, às 19H 
Local: Vão Livre do MASP  - Avenida Paulista 

30 de dezembro de 2015

Para Quem e Para Que Fazemos ou Somos de Candomblé?




(...) quando eu empodero o outro, eu me empodero também. Porque, quando ele entende o que eu compreendi, passa a ser parte de mim.
Ontem em conversa com uma irmã do Rio de Janeiro, mulher, negra, ativista, escritora e de Candomblé; terminamos a nossa conversa até altas horas da madrugada com esta questão: PARA QUEM E PARA QUE FAZEMOS OU SOMOS DE CANDOMBLÉ?
Na mesma hora, uma filha de santo de Osun, manda-me a boa notícia de que o edital do Iphan referente à Edital PNPI 2015 - Prêmio Boas práticas de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial e tínhamos o início da resposta a nossa questão.
Parece-me que os motivos pelos quais deveríamos fazer Candomblé se perderam ao longo do seu caminho histórico.
A mim, o Candomblé nasce como um movimento de resistência negra. Diante de tanta dor, tanto sofrimento, opressão e subalternização dos seres humanos escravizados no Brasil e da tentativa de retirada de sua negritude e africanidade, a família negra se mobiliza para que, de alguma maneira, pudesse ter, aqui no Brasil, um pedaço de sua África Ancestral – nagô, fon ou banta e, por isso, passamos a ter o Candomblé.
Obviamente, estamos diante de a-FÉ-to. A fé nas divindades africanas, na força vital, no sopro de vida, na cabeça ancestral e na ancestralidade africana como um todo se mobiliza para que esta família sobreviva, cure-se, fortaleça-se, renove-se, ame, tenha filhos, vida longa e para que esta família e os seus sejam protegidos por seus ancestrais e pelas divindades africanas e para que tenham uma caça próspera de modo que possam (sobre-) viver como seres humanos que até então não eram.
Sempre me pergunto se, no momento, da gênese do Candomblé tínhamos tudo o que temos hoje; porque, salvo engano, ela nasce pronto; foi elaborado e ali já nasciam seus primeiros iniciados; não sei se ele nasceu como uma colcha de retalhos que foi se tecendo ao longo dos anos e se podemos atribuir a sua completude ao século XXI.
Muito pelo contrário, penso que podemos atribuir ao século XXI a sua incompletude, pois, certamente, buracos deixados pela falta de vivência foram sendo tapados com coisas não necessariamente do universo africano no Brasil.
Hoje, o que conta são os “bodes” – a quantidade deles determinará os ganhos, o número de dias – quantos mais dias forem utilizados para a iniciação mais forte se diz que ela será, a roupa mais bonita e o adê mais alto, o pano de cabeça, igualmente, mais alto e mais vistoso; pois, essas são as verdadeiras contribuições do século XXI – apenas para citar algumas. Na sociedade do visível e do ter para ser, o que importa é a concretude das coisas.

Sou muito jovem, eu sei que sou jovem, mas, tendo eu nascido em uma família de axé, vejo com tristeza os rumos do Candomblé. Obviamente, eu também, como todo mortal, fui contaminado e acreditei, por alguns anos, que o exagero agradaria Orixá, mas, chega o dia em que você precisa (re-)pensar como o fazem os filósofos, tudo o que lhe disseram que era verdadeiro e bom e tudo o que tomou como verdade absoluta.
Vejo agora que, quando pensava desta forma, ou seja, na grandeza, na materialidade, nos bodes gigantescos, no Ojá de edredom e apenas no resultado de um suposto pacto, nem negro era. Não pensava como negro e nem pensava o Candomblé como negro e de origem africana.
E ali estava o meu maior problema; eu não fazia Candomblé, fazia algo europeu e cultuava o etnocentrismo com o nome de Candomblé.
Creio que um dia temos que acordar nos perguntar: por que e para quem fazemos Candomblé?
Hoje, vejo que o Candomblé se faz para a manutenção da memória ancestral, integração humana, também pelos a-FÉ-tos, e, sobretudo, para que possa ser um espaço da Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.
Não sei se a minha voz lhes parece excludente, não gostaria que soasse assim, mas falo de coração aberto que precisamos pensar, falar, conversar e entender a grandiosidade do Candomblé e o seu papel social para além das estratégias de fragmentação que o opressor nos impôs e aceitamos – porque sempre são sutis e com a sutileza própria daqueles treinados para dominar os que subjugam; este mesmo opressor que, de alguma forma, transformou-nos em algo que não deveríamos ser.
Convido a todos do Candomblé para um diálogo franco e aberto com vistas ao “empoderamento” por meio da nossa essência e por meio do que nos for autentico e nosso.
Porque, quando eu empodero o outro, eu me empodero também. Porque, quando ele entende o que eu compreendi, ele passa a ser parte de mim.

Professor Dr. Sidnei Barreto Nogueira
Babalorixá da CCRIASàngó
Coordenador do Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial “Conversa de Terreiro” – Jornada de Diálogos, Estudos, Sistematização de Conhecimentos Ancestrais da África Negra no Candomblé Nagô-Queto – criasango@gmail.com
Para Jacqueline Oba Negraline e aos irmãos do Ile Ara
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Fotos: 
Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

17 de outubro de 2015

Terreiros e Especialistas promovem encontro sobre Políticas Públicas para Povos Tradicionais de Matriz Africana, em São Paulo



 Entre os dias 23 e 24 de outubro, o CEU Caminho do MAR receberá terreiros de todo o estado para o I Seminário Ìpàdé (encontro) dos Saberes. Um encontro de diálogo entre especialistas, representantxs do poder público, alunxs da rede pública, educadorxs, sacerdotes, sacerdotisas e sociedade religiosa de matriz africana, a cerca das políticas públicas afirmativas voltadas para as religiões afros e comunidade negra.

O Direito de ter direito dos Povos e Comunidades de Terreiro de São Paulo é um dos temas que serão abordados, com a importante participação da Professora Pesquisadora Alessandra Gama – capoeirista, atuante nas áreas de educação, patrimônio imaterial e gestão cultural, além de ser articuladora da Rede SP de Memória e Museologia Social e do Coletivo Salvaguarda da Capoeira de Campinas, que na companhia do Professor e Jornalista Juarez Tadeu de Paula Xavier, fundador da UNEGRO, com importantes palestras de empoderamento para a participação política das lideranças religiosas no o processo de elaboração, desenvolvimento e monitoramento destas políticas para a promoção da igualdade racial, enfrentamento do racismo e de todas as formas de intolerância.


Entre os convidados e convidadas confirmadas, estão a Deputada Leci  Brandão   do Deputado Federal Orlando Silva, Doné Oyacy, Doné Lurdes, Pai Carlos d´Ogum e o Fotógrafo Roger Cipó, com sua exposição Exposição Fotográfica "aFÉto", uma série sobre a Relação de Amor entre Orixás e Fiéis. 
Gratuito, o evento ainda reserva uma animada programação artística, embalada com muito samba de roda, intervenções culturais, entre outras. As inscrições podem ser feitas no dia. Para mais informações e programação completa, clique no link https://www.facebook.com/events/463662060425472/

Serviço:
I Seminário Ìpàdé dos Saberes: Políticas Públicas e Afirmativas para os Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro
Data: 23 e 24 de Outubro de 2015
Entrada GRATUITA 
Local: CEU Caminho do Mar
Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, 5241 - Vila do Encontro, São Paulo - SP


15 de setembro de 2015

Baba Mí - O Candomblé de Pais que não Abandonam suas Crianças




Escrevi esse texto, em agosto de 2015, sobre o dia dos pais, minha relação com a data e meu encontro com a paternidade amada, no Candomblé.  Nesse texto, me proponho a falar de mim. Somente das minhas experiências com o segundo domingo de agosto e de como o candomblé re-significou essa data, em minha vida.

Bem Sou filho de Mãe que cruelmente viveu solitária, trabalhando dia e noite para educar a mim, meus irmãos e outros quatro sobrinhos que ela acolheu quando uma tia faleceu. Isso não é uma história de vitimismo. Tampouco uma tentativa de romantizar as dores que minha mãe atravessou sozinha, durante os últimos 30 anos.É uma história que me ensina sobre a capacidade de amar em meio ao caos.E foi com essa Mulher de força Incrível que entendi que preciso ser um homem melhor para ela, para as pessoas que amo, e para que meus descendentes (não sou pai, ainda!), não precisem passar por todas as ausências que eu, meus irmãos, meus primos e muitos dos nossos próximos passaram. 

Mas como ser um Homem melhor sem o exemplo de um homem bom para seguir?

Tenho bons tios, e nos caminhos da vida, encontrei homens que inspiraram, ajudaram e fortaleceram, mas que só podiam ficar um pouco. Eram professores, padrinhos, mestres da capoeira, pais de amigos, educadores e não eram alguém que eu poderia encher o peito pra chamar de Pai. 

É... Hoje, posso dizer que já consigo entender o que um Pai significa para a formação de um menino. É mais difícil jogar bola com sua mãe quando ela precisa trabalhar, ou estar em casa fazendo comida, lavando, passando, limpando, pensando como pagar a próxima conta de luz. Por mais orgulho que se tenha,  parece que "destoa" quando você tem que fazer desenhos comemorativos na escola, pintar gravatinha, maletas e desenhos de pai e filho, quando sabe que vai entregar para sua mãe e sabe também que ela não usa, nem gosta de gravatas. Dá um nó na cabeça ao lembrar, pensar e escrever sobre isso, mas preciso dizer porque o certo seria que esses nós fossem laços de união,mas ainda não são. Não foram.

Nesse mundo, cresci conhecendo tudo a minha forma, com meus próprios olhos e decidi o meu retorno ao candomblé - nunca digo que "entrei para a religião". Retornei para a religião dos meus ancentrais. Assumindo, se apropriando e significando aquele universo em mim. 

A primeira vista, tudo é um monte de santo com nomes estranhos que você não sabe nem o que significa. Depois vai entendendo que esses santos tem nome de Orixás, e mais um pouco de vivência, aprende que são forças lindas, que vivem dentro de você, e o mais especial e incrível de tudo: As Forças Masculinas são seus Pais e as Forças Femininas, são suas Mães. E eu que nem gostava dessas coisas, descobri que eu tinha Pai. Um não, vários Pais que me trouxeram e me amparam nesse universo, cada um com sua responsabilidade.

Agora, a vida tinha um outro significado. Se por um lado, a figura paterna humana fazia falta, por outro, a paternidade sagrada, chamada de Orixá me atendia no ar que respirava, no fogo que me aquecia, no chão que caminhava, nas escolhas que fazia, no remédio que tomava, nos desejos que só eu sentia, nas transformação que o mundo me pedia. Nada mau para alguém como eu, não mesmo. A presença transcendia qualquer coisa.  Nesse universo, entendi que a presença paterna era a essência dos Deuses Homens que sempre me amaram e nunca deixaram de jogar bola, me olhar enquanto empinava pipa, corrigia-me das travessuras e até me alertavam das más companhias. Sem que eu ao menos eu entendesse, mas seguia. 

Foi assim que, dia após dia, a ancestralidade me  acolheu e me ensinou a compreender que as coisas da vida. Me ensinou ainda mais, ensinou que quando se é filho de Deuses Africanos, não existe solidão que assole. Me ensinou que era papel meu zelar pela existência digna desses Pais que permitiram reencontrá-los. 

Nesse caminho de eterno reencontro, aceitei a missão que o destino me preparou e nasci para a Eterna Ancestralidade Viva. Eu me tornei um filho do bastão sagrado que cuida dos ancestrais homens que por aqui já passaram. Sim. Além de ser filho de um Orixá, eu nasci filho de um pai que não pude conhecer, mas que desde minha gestação, já me conhecia e me escolheu para seu encontro ancestra. Eu nasci Omoixan – Filho do Ixan, que no Candomblé Egungun, nasce para uma vida de relação direta com  Pais que viveram por aqui, protagonizaram grandes feitos da vida espiritual, e ascenderam para cuidar de seus filhos, de um outro lado. E eu me orgulho muito disso.
Me orgulho em ser tão pequeno, mas de estar viver com o coração aberto para todas essas forças que me amparam. Me Orgulho de servir aos homens que lutaram e até morreram para que eu pudesse ter vida – e que eu nunca pare de lutar. Me orgulho em poder gritar meus Pais no vento e saber que eles me acolherão. Me orgulho e me sinto, sempre menino, por hoje ter o coração povoado por mais de um Pai, quem sempre me amaram e que preparam todos os caminhos para que eu aprenda, dia após dia, a ser o ser humano melhor que minha mãe ainda batalha para criar.

Eu escrevo essas linhas, somente para tentar mostrar a importância do candomblé em minha vida. Compartilho minha história, que certamente é semelhante a de outros homens (sempre meninos) que encontraram abrigo, colo e referência paterna na religiosidade africana. 

Homens que, por motivos da vida, nunca abraçaram seus pais no segundo domingo do mês de Obaluaie, mas que por sorte do destino, hoje podem se dobrar, e agradecer, todos os dias aos Orixás Exu, Ogum, Oxóssi, Ossain, Omolu, Oxumare, Xango, Logun, Oxaguian e Oxalufan – Benção, Pai, pelo Amor que é ser Filho dessas energias. Escrevo para agradecer aos Ancestrais Homens Divinizados no Candomblé Egungun por re-significarem minha vida, fazendo-me entender que ser  bom Omo (filho) é a certeza de um dia ser um Pai Bem cuidado pelos seus descendentes. 
Escrevo para agradecer o Candomblé por me permitir reencontro com todos os Pais Exemplares, que o Universo me permitiu antes mesmo de ser gerado por um homem que um dia se ausentou. 



Gbogbo Babá Mí, Mo jubá – A todos os meus Pais, Meus respeitos!

Texto: Roger Cipó 

A foto é sobre "O dia que Omolu me fez filho mais amado". Registro do meu irmão: Barulemi. 

4 de setembro de 2015

Sexta-Fria - Quando chega Oxalá




Percebe o frio da primeira sexta-feira do mês? Agora, vá me dizer que Oxalá não sabe o que acontece no mundo..? 
Não ouse me dizer que meu Deus é força distante e que só nos encontraremos em um certo juízo final, antes de um Paraíso.
Não é assim não. 

Minha sorte é essa. É a força de um Deus presente em todos os dias, horas, minutos, segundos. Minha sorte é poder perceber quando a força mais sagrada passa na terra. E o meu pai faz assim, baixa as temperaturas, assenta a fúria, e no vento gelado, vai confortando quem por ti tem fé. 

E manda chuva porque aqui anda tudo muito sujo mesmo. Mas ele, em mais pura piedade, nos lava das impurezas que nossas próprias vontades criam. Nos permite água nova para lembrarmos que é tempo de reviver sua saga de resiliência constante no mundo apressado. 
 
Astuto? talvez. Mas quem sou eu para questionar o Rei quando ele diz que vai? Eu posso não ir, mas ele vai quando quiser, para onde quiser. Reveza os passos mais lentos e certeiro e chega onde quer chegar. 

Percebe que é a primeira sexta-feira do mês e corre água vinda do céu. É tempo de água rolar para lavar o mundo. É tempo da peregrinação branca que acorda os dias, em quartinhas alvas. Caminha em fila única, canta sem muito alarde - canta rezando. Pisa o chão descalços, sente o frio que toma a terra umedecida pela neblina. Canta com o coração a chorar. Curva-se com calma e sem pressa, mergulha  e enche sua pequena porcelana de água mais limpa que as lágrimas que nos escorrem o rosto... Volta a cantar, volta rezando que o próprio caminho te lava. Chega para lavar  a vida mais uma vez. Em pura paciência, repita os caminhos por todos os dias, e dia após o outro, o peso do mundo diminui... É quando as vestes do Rei tornam-se alvas, mais uma vez e ele perdoa o mundo. 

Mundo esse que Ele traz nas costas sozinho, amparado, no bastão pra sustentar a vida. Vai menino novo, limpa  coração para poder te estender a mão!  Sim, o Rei me dá a oportunidade de lhe tocar. Emoção! É quando as minhas pernas tremem, eu fraquejo por dentro, e por fora sou firma rocha de sustento, porque meu Pai quer dançar. Ele vem, quase em um... dois... três, passos só, quando o coro se bota a quebrar.  

É que essa é a nossa vida. E entender nem se faz em meu pensar. Viver para a força Branca é sentir o frio, acalentar na chuva fina, e tudo, na neblina, enxergar. É que o Rei já tirou a pressa do mundo, para que nada a gente não pudesse mais a vida sujar.
Mas tenha calma. Olhe a janela, veja o Rei no breu. Seja também a neblina, de vento gelado que arrepia a espinha, dobre os joelhos, alcance o chão gelado, dobre-se mais até que o topo do seu mundo, encontre a base da existência - sim. bata cabeça - cante, reze cantando, converse no silêncio... e sinta quando passa Oxalá...


Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved
 


15 de agosto de 2015

"Cê é da Macumba? Eu sou do Babado" Sobre Desconstruir a Fala Preconceituosa




Quem nunca ouviu (por brincadeira), alguém de axé dizer que "é do babado"?

Quem nunca foi questionado se faz, ou não, macumba? 

Tudo bem se você, já nas primeiras linhas, pensar "Ahhh... Lá vem o Cipó causando", ou até dizer "nada a ver isso", mas tudo bem. O objetivo não é convencer sobre minhas convicções, mas convido a refletirmos sobre a importância de desconstruir algumas de nossas falas preconceituosas. 


"Mas Cipó, eu também sou da Macumba... Eu também sou do Babado." Esse tipo de fala, me lembra o: "Eu não sou racista, até tenho amigos negros." Mas vamos adiante...


Uma vez, disse que a luta contra intolerância religiosa deve ser estrategicamente construída, dia após dia. E para construir, é preciso sim desconstruir algumas de nossas ideias que alimentam a ignorância sobre nossas questões.

Candomblé é o nome da Religião. Umbanda é o nome da religião. Eu tentei pesquisar, e o pouco que encontrei sobre a palavra macumba, é o que nós já sabemos: de origem no quimbundo, "macumba" é um antigo instrumento de percussão, espécie de reco-reco de origem africana. Isso, macumba é o Instrumento. 


Não teria problema nenhuma se esse batismo fosse algo que respeitasse as tradições e costumes negros, até porque ninguém se importa com apelido carinho, né?

 Tornou-se problema porque a palavra Macumba chegou em nossas vidas como o terror em forma de atabaques, corpos de danças alucinantes, rituais macabros, maldades e tudo que há de ruim no mundo. Quem construiu essa visão? A Hipocrisia de nossa sociedade escravocrata que só se esforça para manter as comunidades negras na invisibilidade, inferioridade e subalternidade. 


Parece  inofensivo dizer que "meu amigo também é a macumba" "eu sou do babado" "vou fazer uma macumbinha para te ajudar", entre outras expressões similares. Ao contrário do que parece, essas expressões não ajudam a desconstruir as falsas ideias sobre a nossa religiosidade e cultura negra. Não nos colocam em lugares de respeito. Mantém-nos no campo de engraçados, porque rapidamente alguém ao ouvir isso, vai soltar uma piadinha, tipo: "Chuta que é Macumba", "Não encosta que é encosto", e todas as outras banalidades de estereótipos que maldosamente nos são empregados, desde sempre. 


Nosso papel em tudo isso, é afirmar quem somos. Mas cabe a nós a consciência de construir uma visão mais respeitosa da sociedade para com as religiões de matriz africana.  Não existe babado nenhum! Não existe essa "macumbaria" toda que nos associam às coisas mais cruéis e/ou bizarras que acontecem no dia-a-dia.
Quando a TV anuncia um crime ligado a bruxaria e (conscientemente) nos associa à tais práticas, precisamos mesmo dizer que nosso mundo não é esse. Nada dessas maldades  tem a ver com candomblé.



Existe sim uma religião complexa, pautada no saber ancestral africanos e nas relações humanas com a natureza e energias que se movimentam ao nosso redor. Uma religião que para conhecer é preciso abrir o coração e se desprender de todos os preconceitos que nos foram ensinados nas escolas, nas ruas, nos programas de humor - que de humor não tem nada, e até em nossas casas.

Ser do Candomblé nos dá a responsabilidade de atentarmos sempre às nossas posturas e palavras para não colaborarmos (mesmo que por "inocência") com a perpetuação das falas preconceituosas que só agridem a nós mesmo. 


Não somos da Macumba!

Mesmo que você seja do candomblé e queira usar a palavra  para "facilitar" o entendimento de seu círculo social. Troque sempre a macumba pelo nome real e assim, a gente ajuda e desprender todas as maldades a nós atribuídas.

Grite mesmo ser do Candomblé, e se alguém não entender o que é, abra-se para explicar - porque ninguém tem culpa de ser desinformado. Pois se nós sabemos as verdades, que possamos compartilhá-las de formas conscientes. 
No mais, eu preciso dizer que existe um Babado, sim. Mas o único babado que conhecemos, é o das Lindas Saias Rodadas de Nossas Grandes Mães.  

[Foto 1 do Ensaio: Nega Duda por Olhar de um Cipó - Foto 2 - Abaça de Babá Okê: Roger Cipó - © Todos os Direitos Reservados para Olhar de um Cipó]