16 de julho de 2015

Educação e o Futuro do Terreiro

Devemos ser responsáveis ao conduzir a Vida Religiosa das Crianças.
Tudo que elas e eles farão, no futuro, será reproduzir aquilo que a educação ensinou, isso quer dizer que:
Se receberam Amor, Amor darão;
Se foram Bem acolhidos, Bem Acolherão;
Se foram ouvidos, saberão Ouvir; ...

E se lhes ensinaram que a base do culto ao Orisa é seguir a Verdade, com Humildade, serão sacerdotes Dignos e Honrados em levar o nome de seus Antepassados, por todos os lugares que passarem.

Nosso tempo é Agora. Até podemos errar, mas as oportunidades de acertar serão pouquíssimas. Por que não tentar acertar, sendo melhor para as crianças, seres de lindos, que nos dão o direitos de preenchemos seus corações daquilo que acreditamos, e que dependem de nossas decisões?

Estamos esperando o quê para mudarmos, pelo Futuro da nossa religião?

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

Há um Odé em Mim




 
Orixás Caçadores são as forças - ou estado da energia, responsáveis por impulsionar-nos a caçar o que nos é de necessidade.

Em algum momento da vida, essa força te fará um caçador. Seja o caçador arisco que entra na mata levando tudo nos peitos e apanha a caça na força; seja o caçador ardiloso que calculará milimetricamente a distancia de sua presa (objetivo) e usará da inteligência para não precisar deferir golpes bruscos; seja o caçador persistente que não volta para a aldeia sem que esteja levando sua caça - e isso pode demorar um dia, uma noite, semana, meses e até anos... O Caçador não te fará desistir de quem você é e nem do que quer ser.

Sim, todos nós temos uma força vital que, uma hora nos ensinará a Caçar o alimento, o Sentimento, e o Amor. Porque os Odés querem que nós cacemos - Caçar para não ser Caça... Como foi assim, O Caçador que há em mim, me ensinou:




Em largos passos, Ele alcançou sua caça, e me pediu...
Pediu que eu caçasse um meio termo para andar na linha
Mandou que eu caçasse um jeito de buscar, direito, o que caço
Ordenou que eu nunca fosse caça
Me ofereceu a arma de caçador, e lá vou eu
Caçar um jeito de ser Feliz...


Texto e Foto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

 

15 de julho de 2015

A Intolerância Religiosa que nos Tira a Paz

 

Hoje cedo, eu sorri quando vi a foto de perfil da querida amiga Nega Duda - resultado do ensaio que fotografei,  em 2014,  para divulgação de seus lindos trabalhos de promoção e difusão da cultura do samba de roda, no Brasil. 
Sorri porque a foto colorida seguia de poucas palavras de agradecimento - coisa linda vinda de uma mulher de história linda de superação constante. Nega Duda é a irmã que ganhei da vida e que não teve vida fácil e com muita dificuldade vem tentando facilitar as coisas, na terra da Garoa, há quilômetros de distância e saudades de sua família. A verdade é que toda vez que olho Nega Duda nos olhos, a esperança se estanca e o orgulho sorri por facilitar as nossas vidas com seu lindo exemplo.

Um dia, li que onde há muita luz, sempre há muita sombra e deve ser por isso que insistem em roubar nossa paz, desde sempre... Foram poucos minutos de contemplação  ao amor em gratidão estampado na foto da Nega Duda, e que me deparei com a notícia que me arrancou a Paz do peito:"Terreiro de Pai Antunes é queimado, em Campina Grande" - nota em caixa alta, seguida da foto do terreiro em chamas... Chamas essas que queimaram-me por inteiro, ao ponto de explodir em mim um vulcão de repulsa pela crueldade nascida da ignorância humana.  Sim, a minha vontade era sair botando fogo em tudo mesmo... Esquecer, por um minuto de tudo que é certo ou errado, porque para eles o certo não existe do nosso lado e por isso, precisam queimar o que há de melhor em nossos coração. Dói!

Dói porque a Intolerância Religiosa protagoniza violentos ataques terroristas e todo mundo finge não ver.
A impunidade destila veneno pelas ruas, atravessa a madrugada com suas garrafas de coquetéis molotovs para fazerem imperar a inquisição descarada e fundamentalista desse País. Onde vamos parar? Eu não sei mais...

Como não conseguem respeitar uma religião formada por pessoas como Nega Duda que deixou sua família na Bahia para difundir as coisas mais lindas de sua cultura e assim mudar a cara da cidade cinzenta? Como não se respeita a religião que dá base para os sambas mais lindos cantados pela voz rouca herdada de ancestralidade real que gente como Nega Duda luta tanto para defender, acolhendo todo aquele e toda aquela que se encantar pelas belezas desse universo?

Pergunto mesmo como o racismo pode cegar essa gente ao ponto de não enxergarem que o Amor vive no olhar de quem tem Orixá como filosofia de vida e posição no mundo?
Eu me pergunto o dia inteiro, e se hoje eu falo de Nega Duda, é porque a sua imagem ficou na minha cabeça e a todo instante conflitava com a foto do terreiro em chamas, além de todas as outras imagens do filme que criei na mente para sentir o quão doloroso é ter a sua vida destruída por motivos tão torpes como o "achar que o deus diferente é a maldição do mundo"... Que Mundo vivemos?

Quero dizer: Que mundo vocês vivem?
Porque pessoas como Nega Duda e Eu, que vivemos a filosofia do Amor e Cuidado do Orixá em nossas dias, vivemos em um mundo onde o que importa mesmo é acolher o bem querer, é incentivas o Amor ao Mundo, é difundir que o essencial mesmo é tornar a nossa presença mais leve no mundo. Mundo esse que a Intolerância insistem em tornar pesado, difícil e cruel.
Eu quero mesmo que a gente se permita viver em respeito - Não é Utopia! 

É o que deve ser! É o mínimo que podemos fazer, por nós, pelo outro... Pelo Mundo que não se permite mais sentir o cheiro das flores e só as buscam para arrancar seus espinhos na intenção de torná-los armas de ferir a Paz do Diferente.
 
[Foto do Ensaio: Nega Duda por Olhar de um Cipó - Fotos: Roger Cipó - Make up por Ariane Molina - Produção: Nega Duda - © Todos os Direitos Reservados para Olhar de um Cipó]

14 de julho de 2015

Sobre caçar Borboletas e medir Axé e Selfies


Não. Eu não tenho problema algum em falar dos problemas que o Candomblé enfrenta. Não tenho e acho que não deveríamos ter. Acho até que se falássemos mais, instigaríamos mudanças que já passaram da hora de acontecer. 
Eu até tentei não comentar sobre as fantasias de um artista muito bem seguido (e agora "perseguido") pelo povo de Santo. Tentei não comentar, mas sempre pensei sobre os temas abordados com muita veemência. 

O meu não gostar do trabalho onde Odé Caça Borboletas tem a ver com dois pontos: 1- Meu Não gosto pela estética onde os Orixás ostentam megas torços coloridos psicodélicamente. E 2- por ser da opinião que por mais que nós jovens estudemos, busquemos e nos aventuremos na literatura produzida com os contos, parábolas, rezas e receitas do culto a orixá, não teremos tanta propriedade para falar do tema, como nossos mais velhos tem e sempre terão. 
Sim, eu sou do tipo que tenta ler muito, mas que prefere ouvir muito o mais velho. 
Não me aventura a recontar - muito menos, criar - Itans porque sei que a minha pouca idade não me dá a propriedade adquirida ao longo da vida sacerdotal de um Agbá. 
Logo, lugar de gente nova, é sentado de ouvidos abertos, e a boca mais fechada possível. 

Concordo que a informação e conhecimento estão aí para todo mundo, que a internet nos ajuda a aprender e ensinar (todo mundo quer ser professor, né?), mas tratando-se de uma tradição de ensinamento oral, como me permito acreditar cegamente em tudo que me brilha os olhos na internet e descredito o que me foi ensinado em casa a partir dos anos de vivência da minha comunidade? 

Tudo bem, até entendo que há sim uma carência tremenda do povo de santo que não tem suas expectativas sanadas a curto prazo. Acontece que candomblé é um filosofia de vida e o conhecimento deve caminhar junto com a sabedoria. A sabedoria só chega com o tempo e ela que te segurará, por exemplo, quando você acordar com vontade de criar um Caçador que se embrenha nas matas atrás de Borboletas. 

Embora eu seja um grande defensor do registro fotográfico e filmado das experiências, cerimônias e cotidiano do candomblé, ainda não consigo entender o poder que as selfies tem dentro dos momentos religiosos. 

Não preciso ir longe para lembrar o episódio da Selfie no Velório - com caixão, defunto e tudo -de um sacerdote de candomblé. 
Quando vi a imagem, minha vontade era mesmo quebrar meu celular, por mais que eu sentisse falta das minhas tantas selfies que tem lá. Sim, eu uso o celular para selfies, é normal, né? 
Só não é tão normal quando se interrompe a dança sagrada do Orixá para garantir uma foto; Não é normal e é um tanto estranho optar por selfies em momentos e espaços que deveríamos trocar as câmeras de smarthphones por posturas educadamente sérias para lutar contra as inúmeras agressões sofridas pelo povo de santo, dia após dia. 

A Representatividade deu espaço à Representação (de representar personagens, Sim!) tornou-se cultura de que é preciso da selfie em todo lugar, ou melhor, é preciso estar nos lugares para garantir a tal selfie e assim vender o peixe, o Axé. 
Não basta mais só promover as luxuosas festas, consultas e tabelas de preços para momentos esotéricos, é preciso brilhar os olhos, seja com cores pscodélicas ou com selfies - palavra chata que até eu cansei de repetir, rs rs.

O maior perigo disso é que tem muita gente de bem comprando sorrisos bonitos de picaretagem travestidas de Sagrado. Isso sim é um problema grande. Da mesma maneira que, pode sim, aparecer alguém dançando com um pote e vidro na mão, justificando ser ferramenta do Senhor da tal Borboleta, já vendida como fundamento. 

Preciso dizer que, infelizmente, estamos em um caminho perigoso. Pensamos que não, mas há muitos que nos olham e conseguem perceber o que, de fato tem verdade, ou não - Isso me alivia. Alivia, mas não tira a nossa responsabilidade de arrumar a casa que tá bagunçada. Cabe a nós falarmos das nossas alegrias e tristezas, cabe a nós falarmos o que anda certo e o que não anda tão certo, para a religião não se perder mais. 

Por outro lado, e para terminar, preciso dizer também que acabamos por fazer bem a aula de idiomas, adotamos o sentido real da palavra, que pode ser definido como: "si mesmo", e colocamos em prática um contra-axé tão antigo quanto a história da religião - Olha ai, o velho Egocentrismo do Candomblé, agora vem em imagem e palavra (Self)... É verdade, estamos cada vez mais chiques e distantes, né? 

Foto e Texto: 
 Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]