9 de setembro de 2015

Sobre Ser L'esse Orixá Quando Há Dois Lobos em Nós


Longe de mim ter respostas para todos os problemas que enfrentamos em nossa sociedade religiosa.
Por mais que eu diga e exalte o Candomblé como a religião mais perfeita e completa do mundo, preciso dizer que religião é formada por seres humanos - seres humanos são falhos, têm problemas, ânsias pessoais, ganância, inveja, e uma infinidade de defeitos. Por outro lado, seres humanos podem aprender amar, são amáveis, sonham, se comovem e possuem uma infinita possibilidade de bons sentimentos.

Falar das euforias e tempestades sentimentais humanas, me leva a lembrar uma das aulas mais lindas que já tive, onde o professor contara sobre os Dois Lobos, que uma vez foi contada para um jovem índio pelo  Ancião da Tribo dos Cherokee (tribo ameríndia). O Agbá que diz que:

 "Todo ser humano carrega consigo dois lobos - um é mau, de dentes fortes como a inveja, raiva, ciúmes, arrogância, ego e outras coisas do tipo; o outro lobo é bom, de olhar forte como a alegria, esperança, serenidade, fé, humildade, generosidade, harmonia. E todos os dias, esses dois lobos se peguem em atrito, quase que mortal." 
- Esperto, o jovem índio indaga: Mas Mestre, nessa luta, quem sai ganhando? 
- Serenamente, o Velho Sábio responde que: Nessa Guerra entre o Lobo do Bem, e o Lobo do Mal, vence aquele que você alimentar". - E penso que seja assim mesmo!

Em meio a tantos lobos, seres desumanos, e outros seres humanos fantástico, me arrisco a dizer que para nós, o caminho da paz interior, da prosperidade, sucesso, amor e boa convivência, é mais fácil.
Temos uma legião de divindades que movem o mundo para que possamos alcançar nossos objetivos e sermos pessoas melhores para nós mesmo, para o sagrado e para as pessoas a nossa volta. - Até porque "tudo que move é sagrado". Basta com que, em todas as nossas ações, lembremos que somos filhos de divindades que nos pedem muito pouco - e que nos dão o direito de alimentarmos o lobo que a gente quiser.

O que não se pode esquecer é que a receita é simples e fiz questão de colocar no começo desse pensamento. Candomblé não é lugar par o lobo do mau e seus predicados. Sabemos bem que candomblé é a celebração da vida, da cooperação e interação da natureza sagrada e a natureza humana. Podemos ser melhores sim, pois essa é a verdadeira missão. Nossos desejos são muito poucos, e por mais que se queira mudar, modernizar, comercializar, nada é possível se não nos voltamos para praticar o exercício de ser, de fato, L'essé Orisá.

[Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

8 de setembro de 2015

A Síndrome do "No meu Tempo..."






"No meu tempo, era assim..." 

"No meu tempo, Yawo era assim..." 

"No meu tempo, Orixá não fazia assim..."

"No meu tempo, Ogan era assim..."

"No meu tempo, isso... No meu tempo aquilo... No meu tempo, no meu tempo, no meu tempo..." 


Chega de "No meu tempo", né? 


To pra conhecer alguém que nunca tenha ouvido a expressão "no meu tempo", antecedendo uma certeza absoluta para dizer que, "em algum tempo", o candomblé era de verdade. 
A expressão é tão presente que, desde cedo, a gente vai aprender a lógica saudosista de só esperar a brecha de do mais novo, para sentir o gosto de dizer: "no meu tempo...", e dar lição de moral. 


Eu até entendo quando os Agbás, indignados, contam os bons feitos de outrora, e expressam suas decepções. Entendo sim, e faço quórum para dizer que temos assistido uma banalização da religiosidade e da fé, nos orixás. Muito por influência dos males de uma sociedade imediatista, capitalista e pautada em superficialidades, que muito me assusta. No entanto, é de responsabilidade nossa lutar por conscientização - e por que não dizer reeducação? - sobre a importância do bem cuidar, do respeito, e atenção, para que os cultos se perpetuem. É nesse lugar de refletir,  me encontro amparado no alerta de Mãe Stella de Oxóssi que chama atenção de todxs - do mais velho ao mais novo - e nos responsabiliza: "Meu Tempo é Agora". 


Sim! É agora e não podemos mais perder tempo com saudosas ilusões e críticas sem elas não nos tiram do lugar de inercia, para ação. 
Sabemos sim que há muito o que se acertar - e não falo das questões ritualísticas individuais de cada casa. Falo, principalmente da consciência e responsabilidade com a cultura religiosa. Falta mesmo de seriedade na condução e educação de nossas comunidades, e talvez, é desses lugares de irresponsabilidades que surgem espaços para excessos e tanta displicência que, infelizmente, assistimos todos os dias. 


Mahatma Gandhi, líder pacifista Hindu, nos ensina que "devemos ser a mudança que queremos no mundo", por isso, penso eu que só falar que "no meu tempo" o mundo era melhor, não ajuda a transformar aquilo que não nos agrada. - Talvez, esse tipo de fala nos distancia da realidade.

Precisamos participar da mudança, de forma que aconteça, primeiro em nós mesmo, e depois nos abrirmos para colaborar nas transformações do outro. 
Talvez, perdemos muito tempo choramingando ( ou mesmo, quem sabe para inferiorizar as verdades presentes), cuspindo aos quatro ventos o quão melhor era o passado.
Nessa de "no meu tempo", acabamos mesmo por perder a noção do tempo em que  estamos e qual o tempo queremos, para o amanhã. 


O que vai ser do amanhã? Não sei - já disse que muito me preocupo, mas penso que, pelo menos agora, já é hora de acabarmos com a síndrome do "no meu tempo", se nos tornarmos parte da solução. 
Creio que um bom remédio para tal doença, seja boas doses de "Meu tempo é Agora". Precisamos acordar para a coletividade e entendermos de vez que "sou parte desse tempo", porque vivo, respiro e moro aqui.

Os erros e acertos desse tempo, nos pertencem, da mesma forma que glórias passadas, que em um outro tempo, também teve lá seus desacertos. 

No mais, eu ainda fico me perguntando: O que esperamos para fazer desse tempo, um tempo melhor para nós e para as divindades?  Pois, em Passado, Presente e Futuro, o Tempo sempre será um Orixá importante para o tempo de vida de cada um.

Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved


4 de setembro de 2015

Sexta-Fria - Quando chega Oxalá




Percebe o frio da primeira sexta-feira do mês? Agora, vá me dizer que Oxalá não sabe o que acontece no mundo..? 
Não ouse me dizer que meu Deus é força distante e que só nos encontraremos em um certo juízo final, antes de um Paraíso.
Não é assim não. 

Minha sorte é essa. É a força de um Deus presente em todos os dias, horas, minutos, segundos. Minha sorte é poder perceber quando a força mais sagrada passa na terra. E o meu pai faz assim, baixa as temperaturas, assenta a fúria, e no vento gelado, vai confortando quem por ti tem fé. 

E manda chuva porque aqui anda tudo muito sujo mesmo. Mas ele, em mais pura piedade, nos lava das impurezas que nossas próprias vontades criam. Nos permite água nova para lembrarmos que é tempo de reviver sua saga de resiliência constante no mundo apressado. 
 
Astuto? talvez. Mas quem sou eu para questionar o Rei quando ele diz que vai? Eu posso não ir, mas ele vai quando quiser, para onde quiser. Reveza os passos mais lentos e certeiro e chega onde quer chegar. 

Percebe que é a primeira sexta-feira do mês e corre água vinda do céu. É tempo de água rolar para lavar o mundo. É tempo da peregrinação branca que acorda os dias, em quartinhas alvas. Caminha em fila única, canta sem muito alarde - canta rezando. Pisa o chão descalços, sente o frio que toma a terra umedecida pela neblina. Canta com o coração a chorar. Curva-se com calma e sem pressa, mergulha  e enche sua pequena porcelana de água mais limpa que as lágrimas que nos escorrem o rosto... Volta a cantar, volta rezando que o próprio caminho te lava. Chega para lavar  a vida mais uma vez. Em pura paciência, repita os caminhos por todos os dias, e dia após o outro, o peso do mundo diminui... É quando as vestes do Rei tornam-se alvas, mais uma vez e ele perdoa o mundo. 

Mundo esse que Ele traz nas costas sozinho, amparado, no bastão pra sustentar a vida. Vai menino novo, limpa  coração para poder te estender a mão!  Sim, o Rei me dá a oportunidade de lhe tocar. Emoção! É quando as minhas pernas tremem, eu fraquejo por dentro, e por fora sou firma rocha de sustento, porque meu Pai quer dançar. Ele vem, quase em um... dois... três, passos só, quando o coro se bota a quebrar.  

É que essa é a nossa vida. E entender nem se faz em meu pensar. Viver para a força Branca é sentir o frio, acalentar na chuva fina, e tudo, na neblina, enxergar. É que o Rei já tirou a pressa do mundo, para que nada a gente não pudesse mais a vida sujar.
Mas tenha calma. Olhe a janela, veja o Rei no breu. Seja também a neblina, de vento gelado que arrepia a espinha, dobre os joelhos, alcance o chão gelado, dobre-se mais até que o topo do seu mundo, encontre a base da existência - sim. bata cabeça - cante, reze cantando, converse no silêncio... e sinta quando passa Oxalá...


Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved
 


1 de setembro de 2015

Janaína Grasso não é Descolada, Marie Claire! - Resposta de uma das Entrevistas à Revista



"Candomblé é TRADIÇÃO, ANCESTRALIDADE, RESISTÊNCIA.



Pra começar, não há nada de descolado em ser de religião de matriz africana.
Não é alternativo nem religião da moda. O que me espanta é ver como a nossa
mídia ainda se sustenta na superficialidade e continua representando aspectos
da cultura negra de maneira esvaziada, estereotipada, deturpada. “Com festas e
sem regras rígidas?” Não entendi este título. Mas de que candomblé e umbanda
vocês estão falando? Eles tem milhares de fundamentos,
regras, tradições que sustentam sua existência.

Quando você recebe um convite para ser entrevistada numa revista, não há
garantias de como o conteúdo vai ser veiculado. Mas, associar a sua entrevista
à uma reportagem que traz o Candomblé e a Umbanda como religiões da moda, e
como se isso fizesse de você “alternativo” é lastimável. Até quando o
jornalismo vai se prestar a este papel? Nós precisamos nos retratar de outra
forma, com criticidade e mais respeito. Querem falar sobre os jovens no
Candomblé e da Umbanda? Identifique que essas são religiões de matriz africana,
elas tem origem, elas tem tradição, memória, história, estrutura.


As religiões de matriz africana, o Candomblé e a Umbanda se mantem vivas
graças a muita RESISTÊNCIA, elas enfrentam um racismo e discriminação secular!
Quantas casas de candomblé são destruídas pelo ódio, racismo e violência?
Quanto racismo se enfrenta todo dia por seguir uma religião negra? Quanto da
história do negro não é APROPRIADA por uma cultura embranquecedora? 

Eu me dedico ao candomblé desde criança. Sou nativa da Ilha de Itaparica, na
Bahia. Minha família, especialmente meu Bisavô Cassimiro, se dedicou ao culto
de Egungun e ancestralidade até a morte. Ele era Ojé (sacerdote) no culto a
Egungun. O meu avô foi Ogan suspenso em Ogum durante muitos anos.


Eu sou filha de orixá, e essa religião foi apresentada a minha vida e me fez
nascer de novo para minha espiritualidade. Nos inúmeros rituais do candomblé há
preceitos, obrigações, hora pra iniciar os rituais, rezas, banhos, saudações.
Os preceitos especialmente não são fáceis pro jovem. 

Eu por exemplo, tive minha iniciação como filha de orixá aos 18 anos.
Durante UM ANO, tive que viver em resguardo (momento dedicado para que os
orixás exerçam proteção e influência direta para o iniciado).


Nesse resguardo tive que durante 6 MESES me privar do sexo, do álcool, de
algumas comidas específicas, oferendar meu orixá toda segunda feira, não pude
frequentar festas, baladas, não podia ficar na rua depois da meia noite etc.
São inúmeras regras fundamentais, referente a um exemplo dos tantos rituais
existentes no Candomblé, poderia citar vários aqui. Não é brincadeira ser filho
de orixá.

Não vejo como posso ser descolada por ter a minha fé, por ter uma religião
familiar, passada de geração pra geração, como herança. Eu sou o que sou graças
a fé que dedico aos orixás, graças ao mundo que o candomblé me apresentou. É
dele também que extraio minha voz pra me posicionar aqui." 




Janaína Grasso