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30 de novembro de 2015

Orixá não é espírito! Orixá não é espírito! Orixá não é espírito!


E alguém me envia a seguinte mensagem: “Boa Noite, professor, gostaria de saber como eu faço para melhorar a incorporação do meu Orixá. Sou iniciado no “Orixá Ogun” e sinto ainda ser um médium consciente, apenas com Ogun. Quando dou passagem ao meu Caboclo, não sinto, ouço, nem vejo nada, mas quando “dou passagem” a Ogun e “coloco todas as suas paramentas”, ainda sinto a incorporação muito fraca, será que não sou de Ogun?”
Obviamente, já respondi à pessoa que não sei como fazer, porque este não é o Orixá que conheço e não o concebo desta forma. Lamentei por não poder orientá-la e desculpei-me por isso.
De qualquer modo, a confusão apresentada me intriga e é comum, Orixá – incorporação – mediunidade consciente – iniciação neste Orixá com feições de espírito ou tomado como espírito.
Orixá não é espírito! Orixá não é espírito! Orixá não é espírito!
É assim, quem quer se comunicar com os espíritos deve seguir as práticas mediúnicas; quem quiser seguir as lições de Buda deve seguir o Budismo, quem quiser encontrar Jesus e a suposta, bem suposta, salvação deve seguir o cristianismo e afins;

Agora, quem quiser uma prática negra, africana, antirracista, que deve se caracterizar como não excludente, humanista, de resistência negra, identitária, iniciática, ritual e que cultua um “Orixá” centelha divina-natureza-ancestral-Rei (e não Orixás espíritos), Rainha, Princesa, Príncipe mitológicos, água, fogo, terra e ar sagrados; quem quiser encontrar Orí e cultuá-lo por meio dos ritos do Candomblé, quem quiser o poder das folhas e alimentar-se por meio da “Alimentação Tradicional”, quem quiser fazer o corpo ceder à divindade sem se preocupar com o que está do lado de fora e com o modo de sentir; quem quiser se compreender e compreender por meio do outro; quem quiser “ser possuído” por Orixá, ceder ao transe e ao movimento do corpo e ter o corpo como centro da divindade e movimentar-se como água, rio, folha, brisa, vento, fogo, terra, reproduzindo os mitos ancestrais africanos e desaprender e reaprender a ser; e deixar de ser fragmento e tornar-se, por meio do todo, unidade e força de resistência à lógica do opressor; quem quiser uma nova família “de identidade e valores civilizatórios negros” e pensar como família venha para o Candomblé. Este é o Candomblé e este é o Orixá do Candomblé. 

Orixá não é espírito! Orixá não é espírito! Orixá não é espírito!

Se ainda não entendeu isso, creio que ainda não saiba, igualmente, o lugar com o qual se identifique. #pensemos.

Texto: Professor Sidnei Barreto Nogueira 
Fotos: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved


15 de setembro de 2015

Baba Mí - O Candomblé de Pais que não Abandonam suas Crianças




Escrevi esse texto, em agosto de 2015, sobre o dia dos pais, minha relação com a data e meu encontro com a paternidade amada, no Candomblé.  Nesse texto, me proponho a falar de mim. Somente das minhas experiências com o segundo domingo de agosto e de como o candomblé re-significou essa data, em minha vida.

Bem Sou filho de Mãe que cruelmente viveu solitária, trabalhando dia e noite para educar a mim, meus irmãos e outros quatro sobrinhos que ela acolheu quando uma tia faleceu. Isso não é uma história de vitimismo. Tampouco uma tentativa de romantizar as dores que minha mãe atravessou sozinha, durante os últimos 30 anos.É uma história que me ensina sobre a capacidade de amar em meio ao caos.E foi com essa Mulher de força Incrível que entendi que preciso ser um homem melhor para ela, para as pessoas que amo, e para que meus descendentes (não sou pai, ainda!), não precisem passar por todas as ausências que eu, meus irmãos, meus primos e muitos dos nossos próximos passaram. 

Mas como ser um Homem melhor sem o exemplo de um homem bom para seguir?

Tenho bons tios, e nos caminhos da vida, encontrei homens que inspiraram, ajudaram e fortaleceram, mas que só podiam ficar um pouco. Eram professores, padrinhos, mestres da capoeira, pais de amigos, educadores e não eram alguém que eu poderia encher o peito pra chamar de Pai. 

É... Hoje, posso dizer que já consigo entender o que um Pai significa para a formação de um menino. É mais difícil jogar bola com sua mãe quando ela precisa trabalhar, ou estar em casa fazendo comida, lavando, passando, limpando, pensando como pagar a próxima conta de luz. Por mais orgulho que se tenha,  parece que "destoa" quando você tem que fazer desenhos comemorativos na escola, pintar gravatinha, maletas e desenhos de pai e filho, quando sabe que vai entregar para sua mãe e sabe também que ela não usa, nem gosta de gravatas. Dá um nó na cabeça ao lembrar, pensar e escrever sobre isso, mas preciso dizer porque o certo seria que esses nós fossem laços de união,mas ainda não são. Não foram.

Nesse mundo, cresci conhecendo tudo a minha forma, com meus próprios olhos e decidi o meu retorno ao candomblé - nunca digo que "entrei para a religião". Retornei para a religião dos meus ancentrais. Assumindo, se apropriando e significando aquele universo em mim. 

A primeira vista, tudo é um monte de santo com nomes estranhos que você não sabe nem o que significa. Depois vai entendendo que esses santos tem nome de Orixás, e mais um pouco de vivência, aprende que são forças lindas, que vivem dentro de você, e o mais especial e incrível de tudo: As Forças Masculinas são seus Pais e as Forças Femininas, são suas Mães. E eu que nem gostava dessas coisas, descobri que eu tinha Pai. Um não, vários Pais que me trouxeram e me amparam nesse universo, cada um com sua responsabilidade.

Agora, a vida tinha um outro significado. Se por um lado, a figura paterna humana fazia falta, por outro, a paternidade sagrada, chamada de Orixá me atendia no ar que respirava, no fogo que me aquecia, no chão que caminhava, nas escolhas que fazia, no remédio que tomava, nos desejos que só eu sentia, nas transformação que o mundo me pedia. Nada mau para alguém como eu, não mesmo. A presença transcendia qualquer coisa.  Nesse universo, entendi que a presença paterna era a essência dos Deuses Homens que sempre me amaram e nunca deixaram de jogar bola, me olhar enquanto empinava pipa, corrigia-me das travessuras e até me alertavam das más companhias. Sem que eu ao menos eu entendesse, mas seguia. 

Foi assim que, dia após dia, a ancestralidade me  acolheu e me ensinou a compreender que as coisas da vida. Me ensinou ainda mais, ensinou que quando se é filho de Deuses Africanos, não existe solidão que assole. Me ensinou que era papel meu zelar pela existência digna desses Pais que permitiram reencontrá-los. 

Nesse caminho de eterno reencontro, aceitei a missão que o destino me preparou e nasci para a Eterna Ancestralidade Viva. Eu me tornei um filho do bastão sagrado que cuida dos ancestrais homens que por aqui já passaram. Sim. Além de ser filho de um Orixá, eu nasci filho de um pai que não pude conhecer, mas que desde minha gestação, já me conhecia e me escolheu para seu encontro ancestra. Eu nasci Omoixan – Filho do Ixan, que no Candomblé Egungun, nasce para uma vida de relação direta com  Pais que viveram por aqui, protagonizaram grandes feitos da vida espiritual, e ascenderam para cuidar de seus filhos, de um outro lado. E eu me orgulho muito disso.
Me orgulho em ser tão pequeno, mas de estar viver com o coração aberto para todas essas forças que me amparam. Me Orgulho de servir aos homens que lutaram e até morreram para que eu pudesse ter vida – e que eu nunca pare de lutar. Me orgulho em poder gritar meus Pais no vento e saber que eles me acolherão. Me orgulho e me sinto, sempre menino, por hoje ter o coração povoado por mais de um Pai, quem sempre me amaram e que preparam todos os caminhos para que eu aprenda, dia após dia, a ser o ser humano melhor que minha mãe ainda batalha para criar.

Eu escrevo essas linhas, somente para tentar mostrar a importância do candomblé em minha vida. Compartilho minha história, que certamente é semelhante a de outros homens (sempre meninos) que encontraram abrigo, colo e referência paterna na religiosidade africana. 

Homens que, por motivos da vida, nunca abraçaram seus pais no segundo domingo do mês de Obaluaie, mas que por sorte do destino, hoje podem se dobrar, e agradecer, todos os dias aos Orixás Exu, Ogum, Oxóssi, Ossain, Omolu, Oxumare, Xango, Logun, Oxaguian e Oxalufan – Benção, Pai, pelo Amor que é ser Filho dessas energias. Escrevo para agradecer aos Ancestrais Homens Divinizados no Candomblé Egungun por re-significarem minha vida, fazendo-me entender que ser  bom Omo (filho) é a certeza de um dia ser um Pai Bem cuidado pelos seus descendentes. 
Escrevo para agradecer o Candomblé por me permitir reencontro com todos os Pais Exemplares, que o Universo me permitiu antes mesmo de ser gerado por um homem que um dia se ausentou. 



Gbogbo Babá Mí, Mo jubá – A todos os meus Pais, Meus respeitos!

Texto: Roger Cipó 

A foto é sobre "O dia que Omolu me fez filho mais amado". Registro do meu irmão: Barulemi. 

7 de julho de 2015

Coração de Ferro



To pra conhecer um Duro Coração de Ferro que não estremeça ao som do Adarrun
Ainda não vi carne mais dura,
que Aquela coberta de Mariwo
Nada... 

Ainda não provei nada que seja mais gostoso 
que o Feijão Preto bem temperado pra mata fome de guerra
E não me diga que existe amigo melhor que o Cão,
Nesse mundo Cão
Haja Ajá para nos aturar!

Aquele cordão de Ouro caro, banhado em qualquer coisa 
Quebra fácil quando encontra minhas correntes de ferro
Salgadas em suor de quem Luta
É que eu gosto mesmo de amolar arma na mão 

Não tem arma de fogo não. Porque do fogo, nasci
Não tem coronel, não tem alibã, não tem capataz, ninguém no divã
Faca cega é pra quem tem fé Cega
Eu já me fiz sentinela das ruas de terra
Nem chorar consigo

E quando choro, há lágrimas quentes que forjam espadas
E por nada, do nada, eu volto pru tudo ou nada e fico com Tudo
Do Mundo, Mariwo pra escudo,
Nem que seja no escuro, Não fico mudo 

E Luto
Faço Guerra, Serpenteio, Peço o inteiro pra cortar maldade em pedaços
É que sou filho do Aço
Do seu Dom não desfaço

No mundo não me embaraço
E somente em sua presença,
No seu canto e encantos... Somente no seu compasso
Quando em seu Adarrun me acho
E meu coração de Ferro, Desarmo
Pois, eu desarmo e sou Amado
Quando Ògún está Armado!

[Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

A Dofona do Barco de Doze do Ile Oba N'lá


"Eu cheguei aqui em 1968. Eu conheci minha Mãe numa festa que eu vim assistir na casa dela (...) Tinha uma menina de uns 7 ou dez anos - não sei - ela era filha do Ogun e o Ogun dela pegou ela e quando ela começou a dançar na minha frente, foi quando eu bolei... Ai de manhã, uma das irmãs da minha mãe me acordou, me deu um banho e falou que minha mãe precisava de conversar comigo. Me apresentou minha Mãe Edelzuíta, ela foi muito educada comigo, me tratou muito bem, aí ela disse que eu precisava de fazer o santo. Naquela época não houve como fazer, só depois, quando eu já tinha um filho de 6 meses, e ele teve um problema, aí minha Mãe Lilita - filha de Mãe Senhora - me trouxe aqui para jogar ai minha Mãe disse: 'Você tem que fazer seu santo, se não você vai , ou você, ou seu filho'.
Aí minha mãe jogou disse que eu tinha que dar caruru em casa e fazer um ebó. Fizemos esse ebó, demos caruru para Ibeji e meu filho ficou curado. Depois, eu tive que vir fazer o santo (...)


Eu sou a Dofona do barco das doze. Eu entre aqui nessa casa com 21 anos, hoje eu estou com 68 anos...
 Ahhh, meu barco foi lindo! Foi: Eu, do Ogun. Eu sou a Dofona de 12. Foram 2 Xangô - um era meu filho, 4 Osaala, 4 Omolu, e 1 fila da Osun... Foi a coisa mais Linda... Sabe? Tirei resguardo de 6 meses, porque eu sendo Dofona de 12, né? Aí, aquelas pessoas que não podiam ficar na casa, aí eu tirava porque eu era a Dofona. Eu sou a Dofona... Muita Responsabilidade, mas foi muito bom, muito bom mesmo. Eu só tenho que agradecer a Deus e Osaala e Ogun, por ela. Que Deus dê vida e saúde à minha mãe, por muitos e muitos anos e que ela nunca mude... a maneira de tratar a gente e a maneira de trabalhar (cuidar de orixá), que isso é muito importante, né? É só o que eu peço aos Orixás."

[Transcrição editada de depoimento cedido a Olhar de um Cipó, em julho de 2014 na Festa de Homenagem aos 70 anos de Orisá de Mãe Edelzuíta de Osogyian, Iyalorisa do Ilè Obá N'lá - Tradição do Gantois no Rio de Janeiro. Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]