18 de agosto de 2015

Maria - A Empregada que no Terreiro é Rainha


As divindades africanas foram generosas na concepção da religiosidade negra que, por mais complexa que seja, assegurou o espaço da reencontro ancestral de seus filhos com a realeza preservada no DNA, que fora sucumbida pela opressão social e os vestígio, sempre tão presentes, da escravidão. 

Certa vez, conheci Maria e nunca mais a esqueci.
Mulher de posição firme como sua pele negra brilhante que não envelhecera com o tempo. Dona de um sorriso lindo em diamante que facilmente brotava no rosto de fortes expressões, combinado a um olhar que tudo via, e via adianta do nosso tempo.

Maria, Vó e Mãe que sozinha, deu conta de criar @s filh@s, “tudo homem feito e mulher véia já” – como dizia e lembrava como os meninos aprenderam a se virar cedo porque ela, dona de uma força que só ela conhecia, trabalhava fora o dia inteiro, pegava três conduções e quando chegava em casa, as crianças já estavam dormindo. 

Ela era como uma heroína
Passava grande parte do tempo no seu uniforme de doméstica, cozinhando, limpando, encerando, lavando e cuidando dos filhos dos bacanas, enquanto suas crianças cresciam á boa sorte, guardados somente na fé que a Mãe tinha nos Deuses Africanos.

Mas o mundo inteiro mudava quando Maria se preparava para pisar o solo de seus Orixás.
Por mais bem passado e limpo que era seu avental branco, não chegava "aos pés" da goma de sua saia, alva como as contas leitosas do brajá de Oxalá que ostentava no pescoço. Na cabeça, o simples torço costurado a mão, no pano mais barato da 25 de março, lhe permitia a realeza que a touquinha das casas de patroas escondia.

Quando Maria descia a rua e era saudada por todos aqueles que de branco passavam.
Quem via de longe, nada entendia.

 "Oxe... Olha lá... Dona Maria parece o Papa. O povo todo para pra beijar sua mão."

Resmungava indignado o dono do bar,  que mal sabia que por suas vistas passarva uma autoridade maior que o soberano do Vaticano. 
Desfilava a Rainha do Terreiro, Mãe Maria, que já na descida, juntava sua comitiva de filhos, netos e bisnetos de santo. 

Eles vinham orgulhosos como seguranças da majestade que seguia para o barracão. 
A Rainha ia andando porque nunca dependeu de carona nenhuma, e gostava de andar pelas ruas do bairro que ela mesmo lutou para ser asfaltado e ter água encanada. 
"Mas eu fui lá e briguei com aqueles homens tudo porque falaram que o caminhão do lixo não conseguia passar na rua. Como não? Tem que passa sim!" contava, e acrescentava orgulhosa: - "Nem bagunça tem mais por aqui. Os meninos do movimento agora vão para o Terreiro, e mudaram muito, viu...  Se engana que pensa que é só o povo da igreja que salva. Quem salva do mundo é Orixá!" 

Ela, mesmo que Rainha,  sempre soube do seu lugar perante os Orixás.

Obediente, parava sempre na última encruza antes do terreiro, tirava as sandálias de salto baixinho, dobrava-se calada em paó, tomava benção de Exú e só seguia depois de sentir o vento em seu rosto. 

"Se Exu não deixar eu entrar, não entro. Se ele barra santo na porta de Oxalá, pode me barrar quando quiser!"

Respeitosa como ninguém, pedia agô no portão, esticava o braço e com cuidado punhava a quartinha para despachar a rua. 
Rainha Mãe, não se importava em rodar a aquela velha quartinha de barro na cabeça de cada filho que a acompanhava no cortejo real.




 


E era a partir daquele portão que a magia acontecia.
Naquele lugar não tinha patroa, nem filho bocudo de patrão folgado. 

Não mais empregada. No mundo dos Deuses Africanos, Maria servia com muito Amor seus Orixás, cuidava do mais novo ao mais velho, com o mesmo zelo. 
Abraçava e amava todos filhos e todas as filhas santo com a mesma porção de afeto. E muito afeto.

Naquele lugar, a opressão não tinha espaço.
Naquele lugar, a força de Maria não se restringia em copa de granito importado e não era invisível como na casa dos bacanas que a tinha como "quase da família".

Ali, naquele barraco de telha cinza e paredes caiadas com frequência e zêlo, Mãe Maria podia ser quem ela era e não silenciada como no edifício nobre da Vila Mariana, onde, todas as manhãs, entrava e saia calada pelas portas de serviços. 

Era assim, naquele punhado de Terra, ocupado há décadas, que Maria viveu a dignidade de ser respeitada, amada e olhada em sua essência. 
Porque era só ali, no chão desnivelado que a autoridade era reconhecida pela grandeza que só podia ver, quem a via com o coração - coisa difícil para os patrões das casas grandes que até hoje se perpetuam, e com míseros salários, insistem numa escravidão social que vitimiza nossos reinados de resistência. 
Era naquele cantinho de terra, onde se respirava a ancestralidade africana que a felicidade de Mãe Maria se completava, pois à luz dos Orixás, sua estrela se mantinha iluminada.  

Texto e Imagens: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

[Esse texto é uma homenagem às tantas Marias que conheci nesse pouco e importante tempo de vida religiosa. Muitas são as Senhoras Mães Guerreiras que vivem mundos diferentes para uma vida melhor, sempre com Orixá no Coração. Sem nenhuma relação direta (que eu saiba rsrs) com o texto, as fotos são para ilustrar a história e inspirar nossas vidas em imagens.]



17 de agosto de 2015

Exú e a Cidade que não é do Homem



Coitado é aquele que pensa que faz o que quer e quando quer 
Esú é quem manda na cidade. 

É quem toma a sua Boca e faz você dizer o que ele quer. 
Também te faz pensar o que não pensa,
Te leva para onde você não vai 
E só dar aquilo que você merece, 
Quando ele acha que deve. 
Ahh, coitados aqueles que acham que mandam na cidade.

É Esú quem manda nas vontades do Mundo. 



[As Águas de São Paulo 2014 - Foto e Texto: Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved]

15 de agosto de 2015

"Cê é da Macumba? Eu sou do Babado" Sobre Desconstruir a Fala Preconceituosa




Quem nunca ouviu (por brincadeira), alguém de axé dizer que "é do babado"?

Quem nunca foi questionado se faz, ou não, macumba? 

Tudo bem se você, já nas primeiras linhas, pensar "Ahhh... Lá vem o Cipó causando", ou até dizer "nada a ver isso", mas tudo bem. O objetivo não é convencer sobre minhas convicções, mas convido a refletirmos sobre a importância de desconstruir algumas de nossas falas preconceituosas. 


"Mas Cipó, eu também sou da Macumba... Eu também sou do Babado." Esse tipo de fala, me lembra o: "Eu não sou racista, até tenho amigos negros." Mas vamos adiante...


Uma vez, disse que a luta contra intolerância religiosa deve ser estrategicamente construída, dia após dia. E para construir, é preciso sim desconstruir algumas de nossas ideias que alimentam a ignorância sobre nossas questões.

Candomblé é o nome da Religião. Umbanda é o nome da religião. Eu tentei pesquisar, e o pouco que encontrei sobre a palavra macumba, é o que nós já sabemos: de origem no quimbundo, "macumba" é um antigo instrumento de percussão, espécie de reco-reco de origem africana. Isso, macumba é o Instrumento. 


Não teria problema nenhuma se esse batismo fosse algo que respeitasse as tradições e costumes negros, até porque ninguém se importa com apelido carinho, né?

 Tornou-se problema porque a palavra Macumba chegou em nossas vidas como o terror em forma de atabaques, corpos de danças alucinantes, rituais macabros, maldades e tudo que há de ruim no mundo. Quem construiu essa visão? A Hipocrisia de nossa sociedade escravocrata que só se esforça para manter as comunidades negras na invisibilidade, inferioridade e subalternidade. 


Parece  inofensivo dizer que "meu amigo também é a macumba" "eu sou do babado" "vou fazer uma macumbinha para te ajudar", entre outras expressões similares. Ao contrário do que parece, essas expressões não ajudam a desconstruir as falsas ideias sobre a nossa religiosidade e cultura negra. Não nos colocam em lugares de respeito. Mantém-nos no campo de engraçados, porque rapidamente alguém ao ouvir isso, vai soltar uma piadinha, tipo: "Chuta que é Macumba", "Não encosta que é encosto", e todas as outras banalidades de estereótipos que maldosamente nos são empregados, desde sempre. 


Nosso papel em tudo isso, é afirmar quem somos. Mas cabe a nós a consciência de construir uma visão mais respeitosa da sociedade para com as religiões de matriz africana.  Não existe babado nenhum! Não existe essa "macumbaria" toda que nos associam às coisas mais cruéis e/ou bizarras que acontecem no dia-a-dia.
Quando a TV anuncia um crime ligado a bruxaria e (conscientemente) nos associa à tais práticas, precisamos mesmo dizer que nosso mundo não é esse. Nada dessas maldades  tem a ver com candomblé.



Existe sim uma religião complexa, pautada no saber ancestral africanos e nas relações humanas com a natureza e energias que se movimentam ao nosso redor. Uma religião que para conhecer é preciso abrir o coração e se desprender de todos os preconceitos que nos foram ensinados nas escolas, nas ruas, nos programas de humor - que de humor não tem nada, e até em nossas casas.

Ser do Candomblé nos dá a responsabilidade de atentarmos sempre às nossas posturas e palavras para não colaborarmos (mesmo que por "inocência") com a perpetuação das falas preconceituosas que só agridem a nós mesmo. 


Não somos da Macumba!

Mesmo que você seja do candomblé e queira usar a palavra  para "facilitar" o entendimento de seu círculo social. Troque sempre a macumba pelo nome real e assim, a gente ajuda e desprender todas as maldades a nós atribuídas.

Grite mesmo ser do Candomblé, e se alguém não entender o que é, abra-se para explicar - porque ninguém tem culpa de ser desinformado. Pois se nós sabemos as verdades, que possamos compartilhá-las de formas conscientes. 
No mais, eu preciso dizer que existe um Babado, sim. Mas o único babado que conhecemos, é o das Lindas Saias Rodadas de Nossas Grandes Mães.  

[Foto 1 do Ensaio: Nega Duda por Olhar de um Cipó - Foto 2 - Abaça de Babá Okê: Roger Cipó - © Todos os Direitos Reservados para Olhar de um Cipó]





11 de agosto de 2015

Ser Militante para...



Ser militante para: 
- ver mulher preta rachando mulher preta;
- ver mulher preta rachando homem preto;
- ver homem preto rachando mulher preta;
- ver o empoderamento a partir da estética se transformar numa ferramenta agressiva que dita qual cabelo é mais de preto, qual pele é mais de preto, qual turbante é mais de preto, qual vestido de estampa africana é mais de preto;
- ver que o fomento ao afroempreendedorismo se transformou numa arena de pessoas sem ética, de plágios descarados, de competição desleal e da mais completa falta de senso comunitário;
- ver que a busca por autoconhecimento se transformou num instrumento de silenciamento do outro, onde quem está equipado dos saberes acadêmicos desqualifica os que não sabem, promovendo uma Rinha de Sabichões;
- ver que nossos corpos são regulados - nossa magreza, nossa obesidade, a sexualidade ainda é julgada;
- ver a cultura do Recalque sendo alimentada pelas indiretas violentas, pelas perseguições na internet e pela ilusão vaidosa e narcisista de que a Fama Facebookeana torna alguém mais especial;
- ver que lutamos contra o racismo, mas criamos uma geração que não permite o outro ser o que se deseja ser, ter o que se deseja ter, comer o que se deseja comer, confessar o credo que se deseja confessar, julgando as escolhas e inferiorizando quem não segue a cartilha dos Pretos Perfeitos.
Prefiro ser apenas uma mulher preta comum.
Sem muitas aspirações políticas, amiga de pessoas comuns, que fazem o que acham que deve ser feito.
Pessoas comuns, e não produtores de Verdades.
Pessoas comuns que insistem em errar, e acertar, e errar de novo, e APRENDER, e com sorte ensinar alguma coisa a outro alguém comum.
Pessoas que sangram, que se confundem, que mudam de rota, que pedem pra sair e choram se estiver doendo muito.
Pessoas fracas, doentes, perdidas que, como eu, são comuns, e não têm resposta pra tudo.
Pessoas comuns que precisam de outras pessoas comuns para serem felizes. E que se alegram profundamente quando arrancam de pessoas sorrisos e não aplausos.

Texto Compartilhado do perfil de Fabíola
Foto: Denize Galiao