15 de setembro de 2015

Baba Mí - O Candomblé de Pais que não Abandonam suas Crianças




Escrevi esse texto, em agosto de 2015, sobre o dia dos pais, minha relação com a data e meu encontro com a paternidade amada, no Candomblé.  Nesse texto, me proponho a falar de mim. Somente das minhas experiências com o segundo domingo de agosto e de como o candomblé re-significou essa data, em minha vida.

Bem Sou filho de Mãe que cruelmente viveu solitária, trabalhando dia e noite para educar a mim, meus irmãos e outros quatro sobrinhos que ela acolheu quando uma tia faleceu. Isso não é uma história de vitimismo. Tampouco uma tentativa de romantizar as dores que minha mãe atravessou sozinha, durante os últimos 30 anos.É uma história que me ensina sobre a capacidade de amar em meio ao caos.E foi com essa Mulher de força Incrível que entendi que preciso ser um homem melhor para ela, para as pessoas que amo, e para que meus descendentes (não sou pai, ainda!), não precisem passar por todas as ausências que eu, meus irmãos, meus primos e muitos dos nossos próximos passaram. 

Mas como ser um Homem melhor sem o exemplo de um homem bom para seguir?

Tenho bons tios, e nos caminhos da vida, encontrei homens que inspiraram, ajudaram e fortaleceram, mas que só podiam ficar um pouco. Eram professores, padrinhos, mestres da capoeira, pais de amigos, educadores e não eram alguém que eu poderia encher o peito pra chamar de Pai. 

É... Hoje, posso dizer que já consigo entender o que um Pai significa para a formação de um menino. É mais difícil jogar bola com sua mãe quando ela precisa trabalhar, ou estar em casa fazendo comida, lavando, passando, limpando, pensando como pagar a próxima conta de luz. Por mais orgulho que se tenha,  parece que "destoa" quando você tem que fazer desenhos comemorativos na escola, pintar gravatinha, maletas e desenhos de pai e filho, quando sabe que vai entregar para sua mãe e sabe também que ela não usa, nem gosta de gravatas. Dá um nó na cabeça ao lembrar, pensar e escrever sobre isso, mas preciso dizer porque o certo seria que esses nós fossem laços de união,mas ainda não são. Não foram.

Nesse mundo, cresci conhecendo tudo a minha forma, com meus próprios olhos e decidi o meu retorno ao candomblé - nunca digo que "entrei para a religião". Retornei para a religião dos meus ancentrais. Assumindo, se apropriando e significando aquele universo em mim. 

A primeira vista, tudo é um monte de santo com nomes estranhos que você não sabe nem o que significa. Depois vai entendendo que esses santos tem nome de Orixás, e mais um pouco de vivência, aprende que são forças lindas, que vivem dentro de você, e o mais especial e incrível de tudo: As Forças Masculinas são seus Pais e as Forças Femininas, são suas Mães. E eu que nem gostava dessas coisas, descobri que eu tinha Pai. Um não, vários Pais que me trouxeram e me amparam nesse universo, cada um com sua responsabilidade.

Agora, a vida tinha um outro significado. Se por um lado, a figura paterna humana fazia falta, por outro, a paternidade sagrada, chamada de Orixá me atendia no ar que respirava, no fogo que me aquecia, no chão que caminhava, nas escolhas que fazia, no remédio que tomava, nos desejos que só eu sentia, nas transformação que o mundo me pedia. Nada mau para alguém como eu, não mesmo. A presença transcendia qualquer coisa.  Nesse universo, entendi que a presença paterna era a essência dos Deuses Homens que sempre me amaram e nunca deixaram de jogar bola, me olhar enquanto empinava pipa, corrigia-me das travessuras e até me alertavam das más companhias. Sem que eu ao menos eu entendesse, mas seguia. 

Foi assim que, dia após dia, a ancestralidade me  acolheu e me ensinou a compreender que as coisas da vida. Me ensinou ainda mais, ensinou que quando se é filho de Deuses Africanos, não existe solidão que assole. Me ensinou que era papel meu zelar pela existência digna desses Pais que permitiram reencontrá-los. 

Nesse caminho de eterno reencontro, aceitei a missão que o destino me preparou e nasci para a Eterna Ancestralidade Viva. Eu me tornei um filho do bastão sagrado que cuida dos ancestrais homens que por aqui já passaram. Sim. Além de ser filho de um Orixá, eu nasci filho de um pai que não pude conhecer, mas que desde minha gestação, já me conhecia e me escolheu para seu encontro ancestra. Eu nasci Omoixan – Filho do Ixan, que no Candomblé Egungun, nasce para uma vida de relação direta com  Pais que viveram por aqui, protagonizaram grandes feitos da vida espiritual, e ascenderam para cuidar de seus filhos, de um outro lado. E eu me orgulho muito disso.
Me orgulho em ser tão pequeno, mas de estar viver com o coração aberto para todas essas forças que me amparam. Me Orgulho de servir aos homens que lutaram e até morreram para que eu pudesse ter vida – e que eu nunca pare de lutar. Me orgulho em poder gritar meus Pais no vento e saber que eles me acolherão. Me orgulho e me sinto, sempre menino, por hoje ter o coração povoado por mais de um Pai, quem sempre me amaram e que preparam todos os caminhos para que eu aprenda, dia após dia, a ser o ser humano melhor que minha mãe ainda batalha para criar.

Eu escrevo essas linhas, somente para tentar mostrar a importância do candomblé em minha vida. Compartilho minha história, que certamente é semelhante a de outros homens (sempre meninos) que encontraram abrigo, colo e referência paterna na religiosidade africana. 

Homens que, por motivos da vida, nunca abraçaram seus pais no segundo domingo do mês de Obaluaie, mas que por sorte do destino, hoje podem se dobrar, e agradecer, todos os dias aos Orixás Exu, Ogum, Oxóssi, Ossain, Omolu, Oxumare, Xango, Logun, Oxaguian e Oxalufan – Benção, Pai, pelo Amor que é ser Filho dessas energias. Escrevo para agradecer aos Ancestrais Homens Divinizados no Candomblé Egungun por re-significarem minha vida, fazendo-me entender que ser  bom Omo (filho) é a certeza de um dia ser um Pai Bem cuidado pelos seus descendentes. 
Escrevo para agradecer o Candomblé por me permitir reencontro com todos os Pais Exemplares, que o Universo me permitiu antes mesmo de ser gerado por um homem que um dia se ausentou. 



Gbogbo Babá Mí, Mo jubá – A todos os meus Pais, Meus respeitos!

Texto: Roger Cipó 

A foto é sobre "O dia que Omolu me fez filho mais amado". Registro do meu irmão: Barulemi. 

3 comentários:

  1. Lindo! Cipó , você traz a qualquer um , da religiao ou nao, o olhar, o olhar de um cipó para uma religião linda e acolhedora, capaz de dar aFEto a pessoas que nunca se imaginaram recebendo isto.

    Parabens e Obrigado por nos partilhar as suas experiencias. Sinta - se Abraçado.
    Mo jubá!

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  2. Sempre digo pra minha filha que ela tem pai sim e que ele se chama Omolu.

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  3. Lindo.
    Trechos para registrar e ler com a alma.

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