5 de novembro de 2015

Um dos Segredos da Iniciação no Candomblé


Para alguns, a iniciação termina no “Dia do Orukó” – dia do novo nome do iniciado/divindade - ou no dia em que há “A queda do kelê” – dia em que a jóia da divindade é retirada do pescoço do seu iniciado.
Todavia, não é tão simples assim; na verdade, naquele momento, a iniciação está, parcialmente, começando e levará sete anos para que se conclua. O final do ciclo, denominado iniciação, terminará quando o iniciado for considerado adulto e a sua divindade crescer com, no e por meio dele. Lembremo-nos que a divindade nasceu em seu corpo, em sua cabeça e em sua vida e esta mesma divindade crescerá e tornar-se-á adulta com o seu crescimento, ou seja, em uma relação de simbiose iniciado/divindade.
A iniciação requer participação, aprendizagem e o crescimento/desenvolvimento da “centelha natureza- divindade africana” que acaba de ser sacralizada e fixada em sua vida dependerá da relação e do compromisso que o iniciado estabelecer com a sua iniciação.
Lembremo-nos que se trata de um casamento. Originalmente, “ìyàwó” é esposa, ou seja, ao me iniciar eu me torno esposa ou esposo da divindade para a qual fui iniciado.
Por este motivo, é prematuro dizer que, antes dos sete anos ou “Oro Odun Eje” – ritos sagrados referentes aos sete anos, o “ìyàwó” está plenamente iniciado. Orisa/ Vondun ou Nkisi é a natureza que habita em nós e a natureza sacralizada em nossa vida; é a ancestralidade africana que nos harmoniza, nos fortalece e nos transforma em reis, rainhas, príncipes e princesas africanas, mas, a existência dessas forças sagradas e sua atuação em nossas vidas depende de informação, participação e aquisição de conhecimento.
Algumas pessoas estranham o fato de processos recíprocos de ensino e aprendizagem fazerem parte do processo iniciático. Alguns acreditam que isso invalida a existência da divindade, mas poderá existir um processo sagrado, social, cultural e histórico sem ensino e aprendizagem, sobretudo quando envolve uma nova língua, novos códigos, novos símbolos, novas alegorias, novos ritmos e danças em terras que não sejam aquelas originárias e que visam inserir o homem neste novo universo?
Orixá, Vodun ou Nkisi não são espíritos. No Candomblé, não se trata de um processo mediúnico. O iniciado NÃO É um médium da divindade, mas receptáculo da divindade, receptáculo capaz de receber, metaforicamente, a água do rio, o vento, o raio, a terra, o fogo (...) que, no momento do transe, irá preenchê-lo.
Esta natureza é “antropomorfizada” – transformada em humana e, neste momento, recorre-se a um conhecimento ligado à gênese do Candomblé, porque não existe um texto sem contexto e sem a valorização do conhecimento ligado à gênese do Candomblé.
Desse modo, aprender a cantar, dançar, ritmos, coreografias, cores, sons, gritos, códigos, modos de fazer e “ser” do Candomblé são fundamentais para que uma pessoa se diga do Candomblé e para que a sua divindade se “antropomorfize” plenamente, pois, se eu não vivo o Candomblé em sua plenitude e não recorro a este conhecimento anterior, posso começar a fazer algo que não necessariamente será reconhecido e concebido como “CANDOMBLÉ”.
Ainda nesse sentido, a água do rio só será água do rio se puder fluir livremente e ultrapassar as pedras – egos e desejos humanos e, para isso, aprender qual o papel do rio e como o rio deve estar limpo para cumprir o seu papel na natureza é fundamental para que o rio seja, efetivamente, rio.

Texto: Professor e Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira
Foto da série Saída de Yawo  por Roger Cipó © Olhar de um Cipó - Todos os Direitos Reservados / All Copyrights Reserved

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esse cara é muito bom mesmo , parabéns Roger , e obrigado Sidnei

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  3. Belíssimo e educativo texto.
    Hélio Penna.

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  4. Se o segredo é revelado não existe mais segredo por tanto perde à essência do culto aos orisas

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